Quinta-feira, Abril 18, 2024

Vitorino Nemésio e Natália Correia: açorianos, escritores e algo mais

Urbano Bettencourt

Vitorino Nemésio (1901-1978) e Natália Correia (1923-1993): dois (de muitos) autores que tiveram de sair da ilha para cumprir-se como cidadãos e como escritores também. Provenientes de diferentes ilhas (Terceira, S. Miguel, respectivamente), eles atestam o sentido de fuga e  dispersão  inscrito  na história açoriana como um signo, uma sina  concretizada em  rumos divergentes; neste caso, para Leste, um destino minoritário, porque o grande pólo  de atracção ( para grandes camadas do povo açoriano) sempre ficou a Oeste: primeiro o Brasil (desde muito cedo) e depois os Estados Unidos da América, especialmente as “Califórnias perdidas de abundância” (Pedro da Silveira), que se tornaram a figuração material da Terra  da Promissão. Não admira, pois, que no imaginário literário açoriano, a Atlântida ocupe um espaço residual – autores e leitores sabem que a felicidade há-de encontrar-se para diante e no futuro (mesmo que algumas personagens só atinjam o paraíso americano depois de atravessar o seu inferno).
Definitivamente desenraizado, Nemésio construiu uma obra em que a ilha à distância (“Ah, ovo que deixei, bicado e quente, / Vazio de mim, no mar, / E que ainda hoje deve boiar, ardente / Ilha…”) se tornou o núcleo   central de boa parte da sua escrita, enquanto objecto evocado ou metáfora no âmbito da reflexão sobre a condição humana em geral. No campo da lírica intimista (e já mesmo no seu livro escrito em francês), da narrativa ficcional, da crónica e do ensaio, os Açores entraram na sua obra como realidade territorial e social sucessivamente retomada e reformulada. Sem que isso colidisse com o seu estatuto de intelectual e escritor atento à literatura e à cultura do mundo por onde andou (especialmente Europa e Brasil) e que na sua obra encontraram acolhimento e “resposta” escrita.
Em 1932, e em dois textos diferentes mas com o mesmo título, Nemésio cunhou o termo “Açorianidade”, com que quis sintetizar um particular modo de ser do homem açoriano, da sua visão do mundo, moldado pelo tempo e pelo espaço (a história e a geografia), num contexto geral de distância e isolamento atlântico. Independentemente dos muitos textos e ocasiões em que pôde explanar a sua noção de açorianidade, há duas obras em que, de modo mais directo ou menos directo, Nemésio deixou elementos para a compreensão do conceito e daquilo a que podemos chamar o seu “pensamento insular”: “Corsário das Ilhas” (1956), um excelente livro de “revisitação” fluida e divagante dos Açores, e “Mau Tempo no Canal” (1944).
“Mau Tempo no Canal” é o romance da açorianidade enquanto experiência do universo insular em articulação com o mundo exterior. Sobre a moldura do tempo de finais da Primeira Grande Guerra Nemésio constrói uma história de amores contrariados, em que entretece o retrato da cidade da Horta em 1918 com a história política, social e geológica das ilhas. Memória  e facto, realidade e símbolo, texto literário e documento funcional, cultura erudita e popular cruzam-se numa obra compósita que é um romance de espaço (centrado nas ilhas do Faial, Pico e S. Jorge, com reenvios a outras e um epílogo na Terceira) e da sua influência sobre o homem, mas é igualmente o romance de uma personagem –  Margarida Dulmo, uma personagem de excepção, tão próxima do seu contexto social (uma aristocracia decadente e hipotecada já aos descendentes de uma linhagem de comerciantes ingleses instalados na ilha um século antes, ambas hipotecadas, finalmente, ao pequeno   industrial de S. Jorge, barão queijeiro por obra e graça dos serviços eleitorais prestados ao  liberalismo), mas ao mesmo tempo suficientemente afastada dele para poder observá-lo de forma lúcida e criticá-lo.
Em Margarida Dulmo, Nemésio polariza a tensão (o conflito) entre o apego, o amor à terra e o desejo de partida e de viagem.
E essa polaridade marca, afinal, uma parte substancial da expressão poética de Natália Correia.
É muito provável que a escritora tenha sido vítima da figura pública, da ‘persona’ que ela mesma criou e cultivou, transbordante e excessiva. E que a sua intervenção cívica, anterior e posterior a Abril de 1974, tenha por vezes relegado para um plano de penumbra uma obra extensa e diversificada, da poesia ao romance, à novela e ao texto dramático, da crónica ao ensaio. E, no entanto, importa referir que o combate de Natália pela democracia e pela liberdade passou muito por algumas das suas obras, ao desafiar os poderes instituídos, num tom não raro oscilando entre o do tribuno e o do profeta, e ao denunciar noutros casos o mal do mundo como causa do seu nascimento poético: “Eu nasci  de haver /os bairros da lata…”. Esse olhar sobre o mundo não se limitará ao universo português e às imagens da Europa e dos seus mitos, mas projectar-se-á sobre América, na crónica de viagem que, por contraste, lhe permitiu descobrir a sua identidade (Descobri que era europeia,1951).
Numa dimensão mais pessoal e subjectiva, a voz poética de Natália sublinhará a relação com a “ilha ao longe”, a ilha matricial, tão presente e íntima no seu último livro, “Sonetos Românticos” (1990), enquanto evocação e transfiguração simbólica em “centro místico” de onde se arranca em busca de uma nova espiritualidade  – enunciada já num livro como  “O Dilúvio e a Pomba”   (1979) em que a açorianidade ganha sentido com o reenvio à espiritualidade  popular em torno do Espírito Santo. E justifica-se assim a deriva poética entre o espaço originário e o território de exílio: “…sempre a chegar a Lisboa / e sempre a ficar na ilha.” Essa ilha exclusiva, matéria íntima (“em rigor só a há uma ilha, a minha, meu mistério…”) constituirá sempre um reduto último contra o desenraizamento e a experiência da Babilónia urbana.
Duas vozes pessoais e não replicáveis, Nemésio e Natália concretizam um modo literário de ser açoriano em que a experiência do mundo não perdeu de vista a ilha, lugar de representações e objecto de sucessivas e renovadas reformulações. λ

(A obra poética de Natália Correia encontra-se reunida em “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, 2 vols.)

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