Domingo, Fevereiro 25, 2024

O mundo por maus caminhos

Uma nova ordem geopolítica e económica está a ser escrita com a emergência da China como superpotência económica, militar e diplomática, ameaçando o estatuto dos EUA. Caminhamos para um mundo multipolar em que a busca pela autonomia estratégica está a alterar, para pior, as dinâmicas do comércio internacional. Nada será mais determinante para o destino do mundo nos próximos anos do que relação entre Pequim e Washington. A Europa arrisca-se a ser um mero espetador.

André Veríssimo

Dependendo das estimativas, o PIB chinês deverá ultrapassar o dos EUA entre 2030 e 2037, embora o valor ‘per capita’ norte-americano continue a ser muito superior. Um marco que cimentará ainda mais o caráter da China como parceiro comercial indispensável. O que por sua vez reforça o seu peso diplomático.

A iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, lançada há uma década, serve esse duplo propósito de reforçar as ligações comerciais e políticas – criando simultaneamente corredores para o trânsito de mercadorias alternativos ao estreito de Malaca – através do apoio ao financiamento de grandes projetos de investimento em infraestruturas, numa soma estimada em um bilião de dólares. A “nova Rota da Seda”, como também é chamada, abrange perto de três quartos da população mundial e mais de metade do PIB mundial.

Os financiamentos acabam por tornar os países “reféns” de Pequim. O Partido Comunista Chinês tem sido acusado de praticar uma diplomacia de armadilha da dívida, com empréstimos contendo cláusulas leoninas. A crise económica dos últimos anos fez disparar o incumprimento. O Financial Times noticiava em abril que mais de 78 mil milhões de dólares foram renegociados ou dados como perdidos nos últimos três anos.

Este tem sido o principal caminho usado pela China para aumentar a sua influência na Ásia Ocidental e Central, no Pacífico, na América do Sul ou em África, muitas vezes a troco de licenças para ter acesso a recursos naturais de que não dispõe ou tem em quantidade escassa. Pequim aproveitou, em vários casos, o vazio deixado pela Europa, os EUA e até a Rússia. Depois da invasão da Ucrânia, o país de Putin será, cada vez mais, um satélite económico e político da China.

A vertente militar tem vindo também a ser reforçada. Xi Jinping assegurou a sua entronização no poder ao ser reeleito para um terceiro mandato como líder do Partido Comunista Chinês em outubro passado. Já este ano, foi confirmado como Presidente na vigésima Assembleia Nacional. O discurso inaugural, de mais de hora e meia, conteve 73 referências ao termo “segurança”, contra 55 vezes em 2017, sinal de que o tema vem subindo de importância na agenda.

Xi deixou a promessa de “acelerar o processo de elevação das forças armadas populares a padrões de classe mundial” nos próximos cinco anos. Só em 2022, a China aumentou os gastos militares em 7%, um acréscimo equivalente a 16 mil milhões de dólares, o maior aumento nominal de sempre. Para este ano está previsto um incremento idêntico.

A China, culturalmente orientada ao longo prazo, há muito que vem lançando pacientemente as bases para uma supremacia futura na economia, na política ou até militar. Ambição que choca de frente com o detentor atual desse estatuto: os EUA. Só que enquanto a China é um sistema autocrático com um líder sem prazo para sair, os EUA são um país profundamente dividido politicamente.

“A República Popular da China é o único competidor com a intenção de redesenhar a ordem internacional e, de forma crescente, com o poder económico, diplomático, militar e tecnológico para o fazer. Pequim tem a ambição de criar uma esfera de influência no Indo-Pacífico e tornar-se a potência líder mundial”. O parágrafo consta do mais recente documento de Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, datado de outubro de 2022.

A face mais visível do confronto diplomático continuará a ser uma ilha com cerca de um terço do território de Portugal. Xi não desiste do princípio de “uma só China” e quer a reunificação com Taiwan. Joe Biden tem insistido que as tropas americanas ajudariam a defender a ilha em caso de invasão. Se há algo que não deverá mudar caso mude o inquilino da Casa Branca nas presidências de 2024 é a posição sobre a China, tendo em conta a visão semelhante de Democratas e Republicanos.

Um mundo multipolar

Os EUA ainda levam vantagem. O domínio internacional do dólar, que a China também quer contrariar, é disso a expressão máxima. O modelo liberal americano poderá, além disso, proporcionar maior sucesso económico do que o crescente dirigismo central imposto pelo Partido Comunista Chinês.

Ainda assim, é indiscutível que vivemos já num mundo multipolar, com a influência de Pequim a predominar sobre uma vasta parte do globo, impondo-se até como mediador para a resolução de conflitos e tensões diplomáticas, como aconteceu já este ano entre a Arábia Saudita e o Irão. Essa tendência irá crescer.

Os próximos anos vão trazer também a afirmação de novos atores, musculados pela sua afirmação económica. Os países emergentes, em particular na Ásia, vão assumir um peso crescente no PIB mundial. O FMI prevê que a Índia, que este ano superou a população da China, reforce o terceiro lugar no ‘ranking’ das maiores economias, em paridade de poder de compra, aproximando-se dos EUA. A Indonésia deverá saltar para a sexta posição.

As novas potencias regionais, essencialmente não alinhadas, deverão procurar manter uma autonomia estratégica, pautando o seu posicionamento internacional por um pragmatismo que lhes permita obter a satisfação dos seus interesses sem entrar numa posição de dependência.

Já a Europa perderá peso relativo. A Alemanha, que em 1992 era a terceira maior economia, deverá manter a atual quinta posição, enquanto França e Alemanha descem para as últimas duas posições do “top 10”. O poder de compra dos 447 milhões de consumidores da União Europeia (UE) e a capacidade industrial do bloco continuarão a garantir um papel relevante. Os 27 estão também na liderança da transição energética, cuja importância vai crescer nos próximos anos.

Dará o processo de alargamento novos passos? Depois da grande vaga de 2004 para leste, os passos têm sido mais tímidos. A Croácia foi a última a entrar, em 2013. Há mais oito candidatos – Montenegro, Sérvia, Turquia, Macedónia do Norte, Albânia, Ucrânia, Moldávia e Bósnia-Herzegovina – e a Geórgia também já apresentou o pedido de adesão. O que prova que os valores, o modelo social e o modelo económico da UE continuam a ser um farol de desenvolvimento, mesmo a ameaça russa sendo, em alguns casos, também uma motivação.

Em busca da autonomia estratégica

A autonomia estratégica é, no entanto, um luxo a que a Europa não se pode dar. A invasão da Ucrânia expôs a dependência face aos Estados Unidos, que já hoje impede a EU de ter uma posição clara em relação à China. Se por um lado não quer fragilizar as relações comerciais com um dos seus principais parceiros, por outro não pode hostilizar o apoio norte-americano. Como alertou recentemente o presidente francês, Emmanuel Macron, após um encontro com Xi Jinping, “o grande risco” da Europa é “ser apanhada em crises que não são nossas”. Como a tensão entre Pequim e Washington por causa de Taiwan.

A capacidade militar da UE terá de ser reforçada nos próximos anos. A Alemanha deu já esse impulso com a criação de um fundo de 100 mil milhões para modernizar as forças armadas e ao anunciar que o orçamento da defesa subirá para 2% do PIB, o que por si só dará às ‘Bundeswehr’ um dos maiores envelopes financeiros do mundo. Outros países de leste responderam na mesma moeda à ameaça do Kremlin. Haverá sempre um óbice: o poder nuclear russo. A Defesa terá, além disso, que concorrer com as despesas públicas crescentes provocadas pela dinâmica desfavorável da demografia no Velho Continente.

A UE aprendeu da pior forma que tem de assegurar a autonomia noutros domínios, como a energia, a alimentação ou os materiais necessários para a transição energética. A quota de mercado da China na produção de painéis solares e dos seus componentes ultrapassa os 80%.

Se um mercado único de 27 Estados-membros é uma força, o tempo que leva a construir consensos é uma fraqueza. O crescimento do populismo e do nacionalismo (quase sempre de mãos dadas) dentro da Europa significa ter de lidar não só com a polarização externa como também com a interna. Uma crise existencial parece, no entanto, afastada. Até o presidente húngaro, Viktor Orbán, ou a primeira-ministra italiana, Giogia Meloni, reconhecem as vantagens da pertença à UE.

A corrida à autonomia (ou mesmo à autossuficiência) é visível em algo tão ínfimo e fundamental no mundo atual como os semicondutores, de que Taiwan é, de longe, o maior produtor mundial. China, EUA e Europa estão a mobilizar somas colossais para desenvolver a sua própria capacidade industrial. Washington está, além disso, a impor sanções para travar o acesso chinês aos ‘chips’ mais avançados. Incluindo os feitos na pequena ilha no mar do Sul da China.

Distribuir os benefícios da Inteligência Artificial

A outra face deste processo é o crescente protecionismo, que a prazo significará menos crescimento para todos. Ao desvirtuar a concorrência, impede que os mercados funcionem de forma eficiente, criando custos que acabam por ser pagos por toda a economia. O incentivo à inovação degrada-se, porque deixa de ser tão decisiva como fator de diferenciação.

Primeiro a pandemia, depois a guerra na Ucrânia e agora a crescente fratura geopolítica entre os EUA e a China estão também a redesenhar a globalização, com a diversificação e segurança das cadeias de abastecimento a saltarem para o topo das preocupações de Governos e empresas. Mais uma vez, com consequências perniciosas para a eficiência e o crescimento da economia global.

Será isso assim tão relevante tendo em conta que nos próximos anos poderemos assistir a um choque de produtividade induzido pela inteligência artificial? Os grandes modelos de linguagem natural como o ChatGPT ameaçam postos de trabalho, mas também vão tornar mais produtivos os que se mantêm, melhorando processos de negócio e a natureza do trabalho, como salienta o artigo “Machines of mind: The case for na AI-powered productivity boom”, publicado na Brookings Institution. O último salto de produtividade nos EUA aconteceu entre 1995 e 2005, com o investimento massivo nas tecnologias de informação. Desde então o ritmo de crescimento baixou para cerca de metade.

O Goldman Sachs estima que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) generativa permitirá automatizar um quarto de todos os empregos nos EUA, percentagem que sobe para 46% no caso das tarefas de apoio administrativo. O que significa que para a maioria o impacto será o aumento da produtividade e novos tipos de emprego serão criados (60% dos atuais não existiam em 1940). O banco de investimento prevê que a IA possa acrescentar 7% ao PIB mundial ou quase 7 biliões de dólares no espaço de dez anos.

Se formos capazes de aprender com os erros, evitando que o progresso tecnológico deixe um rasto de desfavorecidos e melhorando a redistribuição dos benefícios, talvez esta nova abundância ajude a amenizar a guerra cultural e política que cresce no interior de tantos países. A maior serenidade interna ajudaria certamente à externa.

Coexistência competitiva

Por ora, não é isso que se vislumbra no horizonte. Na última década, o mundo tem feito o caminho indesejável do crescimento do nacionalismo, do autoritarismo, do protecionismo, da conflitualidade económica e geopolítica.

“Arriscamos o que chamei de ‘Grande Fratura’ – a dissociação das duas maiores economias do mundo. Uma falha tectónica que criaria dois conjuntos diferentes de regras comerciais, duas moedas dominantes, duas ‘internets’ e duas estratégias conflituantes na inteligência artificial”, alertou o secretário-geral das Nações Unidas no Fórum Económico de Davos, em janeiro.

As relações comerciais entre os dois países podem funcionar como uma atenuante: a China é a principal origem das importações dos EUA (18% do total) e o terceiro maior destino das exportações (8,6%). Ainda assim, o melhor que o mundo pode esperar é a coexistência competitiva entre os EUA e a China, com o globo dividido uma duas zonas de influência numa espécie de Tratado de Tordesilhas. O clima de Guerra Fria deverá continuar a gelar as relações, espera-se que sem que se acenda um conflito explosivo de consequências desastrosas.

Um clima geopolítico pouco ou nada propício ao multilateralismo que será necessário para fazer face a uma ameaça de consequências potencialmente mais drásticas, hoje já observáveis, que são as alterações climáticas.

O caminho certo seria o regresso ao diálogo ao mais alto nível. Partir do que cada um considera serem os seus interesses legítimos e chegar a um compromisso. Evitar que erros ou precipitações de julgamento deitem tudo a perder.

Como avisa o provérbio chinês: “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre. Um momento de impaciência pode arruinar uma vida inteira”.

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