Terça-feira, Agosto 16, 2022

António Avelar de Pinho: Um percurso “Bem Bom” a marcar gerações

Ricardo David Lopes

António Avelar de Pinho marcou e encantou gerações com a sua música, letras, livros e produções musicais, mas nem por isso assumiu um estatuto de estrela ou vedeta. Poucos sabem, mas há o seu “dedo” em obras das Doce, Rui Veloso, Lara Li, Gabriela Schaaf, José Cid, Heróis do Mar, Dina, Rão Kyao, Táxi, Rita Guerra ou Tonicha, entre outros, em rábulas de Herman José, no famoso Fungagá da Bicharada, de José Barata Moura, ou no Avô Cantigas.
Nasceu no Entroncamento, a 27 de Maio de 1947, onde fez o ensino primário, até ter sido enviado para o Colégio Militar, em Lisboa, de que não gostou. Também passou pelo Instituto Superior Técnico, onde não terminou engenharia, mas nem por isso deixou de ‘projectar’ e construir obras com bases sólidas no imaginário coletivo português.
O seu percurso artístico começa oficialmente em 1968, quando, com João Carvalho, José Parracho, Luís Linhares, Júlio Patrocínio e Antunes da Silva, funda a banda Filarmónica Fraude, que lançou um único LP, Epopeia, no ano seguinte, e fica para a história como o primeiro disco de ‘rock’ luso com letras que Avelar de Pinho escreveu – anos antes do “Chico Fininho”, de Rui Veloso, cujo primeiro álbum produziu – “Ar de Rock”.
Com Nuno Rodrigues, funda, em 1973, a Banda do Casaco, de que também foi vocalista ocasional, a par de compositor e produtor, e onde permanece até ao início dos anos 80, quando, já a trabalhar na Valentim de Carvalho, de novo em equipa com Nuno Rodrigues, no Departamento Nacional de Artistas e Repertório, escreve ou produz para António Mourão, Concha, Gabriela Schaaf, José Campos e Sousa, Lara Li, entre outros.
Produziu ainda “Amor Perfeito”, de Luz Sá da Bandeira.
Antes disso, ainda na Banda do Casaco, em 1977, e sempre com o ‘parceiro perfeito’, Nuno Rodrigues, escreve e coproduz o disco do programa infantil “Fungagá da Bicharada”, emitido pela RTP, cujos apresentadores eram Júlio Isidro e José Barata-Moura.

O homem dos festivais
Mas António Manuel Flor Avelar de Pinho fica também para a história da música portuguesa pela sua intervenção em obras do Festival da Canção. Com Nuno Rodrigues, escreveu canções como “Eu só quero” (Gabriela Schaaf, segunda classificada em 1979), e “Alibabá, Um homem das Arábias” (Doce, quarto lugar em 1981). Em 1982, a canção Bem Bom, das Doce, de que foi um dos autores, vence o Festival em ‘casa’ e fica em 13.º na Eurovisão.
Dura pouco na Valentim de Carvalho: ao fim de um ano, sai e lança-se, como ‘free lancer’, na produção de “Ar de Rock”, de Rui Veloso e Carlos Tê, incluindo o famoso “Chico Fininho”. Mas é nessa altura que é convidado, com Nuno Rodrigues, para lanchar em casa de Amália, que os convida para lhe escreverem música – havia ficado bem impressionada com a Banda do Casaco -, o que acabou por não acontecer, por razões de saúde da fadista.
Acaba por aceitar um convite para trabalhar na Polygram (hoje, Universal), onde fica 10 anos e marca, como produtor e autor, as carreiras de artistas como Carlos Alberto Vidal (com quem Pinho viria a criar o Avô Cantigas, em 1982, para o “Passeio dos Alegres”, da RTP, apresentado por Júlio Isidro), Doce, Da Vinci, Dina, Dino Meira, Herman José, José Cid, Rão Kyao, Rita Guerra, Tonicha, entre outros
Foi também empresário Carlos Paredes e produziu para Rão Kyao, durante anos, e ainda na década de 80 escreve para programas de TV, incluindo o famoso e hilariante “O Tal Canal”, de Herman José.
Acaba por fundar, em 1990, a Companhia das Ideias, que lança programas de televisão como o Top Mais (que revelou Catarina Furtado), a série policial “Claxon” e o programa infanto-juvenil “Vitaminas”.

Mais tarde, com o músico Pedro de Freitas Branco, foi o autor da série juvenil “Os Super 4”, com perto de duas dezenas de livros publicados, o mais recente, escrito apenas por Pinho.
Em 2020, lança “Formiga Duma Figa” – que era para se ter chamado AQUI ENTRE NÓS: “NetosFilhosPaisAvós” -, um livro de 51 textos que são letras de canções para crianças, com ilustrações de João Vaz de Carvalho. Ao Público diz, então, ter pensado neste livro para “quatro gerações” e assume ter feito, por isso mesmo, um esforço para usar o novo Acordo Ortográfico.
Foi, explicou, de alguma forma uma cedência, para não excluir ninguém: “Se não o fizesse, os mais novos poderiam tropeçar nalgumas palavras e até cair. Não ficaria de bem comigo se alguém caísse por minha causa.”
Que se saiba, ninguém caiu!

António Avelar de Pinho com “Avô Cantigas”, Elton John e Rão Kyao

Partilhe este artigo:

- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

Momo. O museu na Lousã onde o circo deixou de ser itinerante para afirmar a sua história

Circo
Nos arredores da vila da Lousã, na antiga escola primária da Foz do Arouce, nasceu, em 2019, o Momo. Este museu do circo é o concretizar do sonho de um palhaço alemão, que se apaixonou por aquela região, e que, ao lado de uma atriz portuguesa, criou um espaço de vida e memória que procura dignificar as artes circenses – um património, para Detlef Schaff e Eva Cabral, muitas vezes, marginalizado. Palhaços, ilusionistas, malabaristas… aqui só não se recordam “os homens cinzentos.”

“O contacto com os artistas enriquece-me”

Fernando Figueiredo Ribeiro
Na passada década, aquilo que começou com um encanto inesperado saiu da esfera privada para dar origem à Colecção Figueiredo Ribeiro. São cerca de 2800 obras, representativas dos últimos 50 anos, que encontraram olhar público no Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes.

O meu Fado

Joana Mortágua, Deputada do BE

Frente Mar

A não perder
A segunda Conferência dos Oceanos da Organização das Nações Unidas vai reunir em Lisboa a comunidade internacional para um conjunto de debates sobre poluição marinha, conservação de ecossistemas ou pesca sustentável.

Luanda, cidade de cultura

Angola
A capital angolana é rica em espaços culturais, para além das maravilhosas praias, da deliciosa gastronomia, e da mítica alegria e hospitalidade do seu povo. Há inúmeras opções para preencher a agenda em Luanda. Tome nota de um roteiro que promete tornar os seus dias na cidade ainda mais cheios. E, se tiver tempo, dê um salto às províncias.

“Macau é um palco de emoções”

Macau
O cruzamento entre as culturas oriental e ocidental é o que distingue a cidade. A fusão traduz-se na arquitectura, oferta cultural, mas também na gastronomia e na língua. Além dos monumentos e outros pontos históricos, são vários os eventos que fazem da região um destino turístico.

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -