Quarta-feira, Junho 19, 2024

As idas e vindas da economia brasileira nos últimos 20 anos

Bruno Rosa, Prémio

Há 20 anos, o Brasil tinha pela primeira vez um presidente alinhado aos ideais da esquerda. Luiz Inácio Lula da Silva chegava ao poder como representante máximo do Partido dos Trabalhadores (PT). Era um momento histórico para o país, marcado por otimismo e simbolismo. Lula, que disputava a presidência desde 1989, com a redemocratização, só colecionava derrotas. Venceu, mas a vitória, como se viu nos anos seguintes, ainda não se mostrou definitiva com idas e vindas, altos e baixos recheados com doses de incertezas.

Lembro-me bem da atmosfera em 2003, ano em que, assim como a Cunha Vaz & Associados iniciou a sua atividade, iniciava também a minha jornada profissional no jornalismo. Na redação do histórico “Jornal do Brasil”, era comum ouvir dos editores-chefes as queixas de como a economia brasileira tinha dificuldade de crescer de forma consistente. O uso de expressões como “cavalo de pau” era comum na imprensa brasileira: o PIB (soma de todos os bens e serviços produzidos no país) não conseguia manter sua trajetória constante de alta, sempre afetada pelas exorbitantes taxas de juros.

Na ocasião já havia começado os preparativos para celebrar os dez anos da criação do Plano Real, lançado em 1994 e que trouxe a tão esperada estabilidade econômica ao país com o fim da inflação galopante, quando os preços dos alimentos e todos os serviços começavam o dia a um valor e terminavam a noite em patamar superior. Cenário impensável para quem mora na Europa e nos Estados Unidos. Mas não no Brasil, onde os preços se transformaram em um verdadeiro trauma. Nas páginas dos jornais, as crianças davam novo significado à inflação.

Em Brasília, com a chegada de Lula no poder, era a hora de falar da criação de ministérios e das novas políticas econômicas para manter a inflação sob controle. Para se ter uma ideia, em 2002, o IPCA, o índice oficial de inflação do país, chegava a 12,53% ao ano. Era um patamar menor que os 22,41% de 1995, mas o maior índice em dez anos. O custo do dinheiro era tão elevado que minava qualquer tentativa de crescimento econômico. Mas Lula prometia reduzir a inflação e colocar o país em rota de crescimento constante com um discurso político mais ameno e ao centro.

Dilma e Lula com Angela Merkel

O ambiente de otimismo ganhava cada vez mais espaço. Para isso, o novo governo buscou inspiração nos ideais de John Maynard Keynes, reforçando o papel do Estado como instrumento de política econômica. Para induzir o crescimento e planejar os próximos passos, passou a reforçar a atuação das estatais como indutores da economia. Entre os bancos públicos, usou a concessão de crédito para o agronegócio e famílias que dependiam do campo através de linhas subsidiadas do Banco do Brasil. Para a classe média, a Caixa Econômica Federal passou a ser o impulsionador da casa própria. E nunca na “história desse país”, expressão famosa de Lula no início dos anos 2000, tantos brasileiros conseguiram, enfim, comprar sua primeira casa, ajudando a reduzir o déficit habitacional, um problema crônico do país desde os tempos do Brasil Colônia.

Lula com Obama

Para as empresas, o governo também impulsionou as atividades do BNDES, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico. Criou linhas de juros mais baixas de forma a impulsionar o crédito para as corporações. Pouco a pouco, os desembolsos foram aumentando, ajudando a impulsionar os investimentos. Em outro momento importante, decidiu-se criar a política de campeões nacionais, A ideia era simples: estimular companhias brasileiras capazes de competir no cenário internacional. E Portugal entrou nessa rota. A Oi se juntou com a Portugal Telecom para criar a “supertele nacional”, com a ajuda do BNDES. Para isso, a Portugal Telecom vendeu sua fatia na Vivo para os espa nhóis da Telefónica, em uma das maiores operações do mercado português. Nessa mesma linha se tentou criar gigantes verde-e-amarela nos setores petroquímico, de proteína animal, farmacêutica e semicondutores.

Na área de energia, o Brasil despontava com a descoberta do pré-sal e a chegada dos novos barões do petróleo como Eike Batista, que fez fortuna e colecionou prestígio entrando para a seleta lista dos bilionários da “Forbes”. O país passou a ser o centro das atenções internacionais. Ao mesmo tempo, o Brasil surfou nos ventos favoráveis do crescimento internacional embalados pelo tal crescimento chinês. Lula era “o cara”, como disse Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Mas veio a crise das hipotecas imobiliárias dos Estados Unidos e o jogo começou a virar. Lula não queria perder o ufanismo sempre presente em momentos de crescimento desde o Brasil República. Em outra frase famosa, disse que a crise internacional causaria apenas uma “marolinha”.

Michel Temer durante a cerimônia de autorização do processo licitatório para implantação do sistema de captação de água do lago Paranoá em Brasília

Foi o suficiente para as críticas ganharem espaço na imprensa brasileira. Em 2009, a economia caiu 0,91%. Mas conseguiu manter o ritmo de crescimento no ano seguinte. Lembro-me de entrevistar CEOs de empresas da Europa e dos Estados Unidos que estavam ampliando os investimentos no Brasil por conta da perspectiva de crescimento no chamado primeiro mundo. E esse otimismo de Lula conseguiu eleger, depois de dois mandatos, sua sucessora, Dilma Rousseff.

E mais uma vez o simbolismo da vitória tomou conta do noticiário. Era a primeira mulher a comandar o Brasil e, assim como Lula era o primeiro sindicalista, Dilma era uma ex-presa política, torturada na Ditadura Militar. Mas, embora o otimismo tenha sido renovado, a história começou a se inverter. E o sentimento dos empresários sobre a tal sustentabilidade começou novamente a ganhar espaço no noticiário.

Presidenta Dilma Rousseff recebe cumprimentos do Vice-Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden durante cerimônia de posse do segundo mandato da Presidenta da República Dilma Rousseff e do Vice-Presidente da República Michel Temer

Dilma acelerou a onda estadista e aumentou o poder do Estado na economia. Baixou os juros básicos da economia, controlou com mão de ferro o preço dos combustíveis pela Petrobras e reduziu artificialmente as tarifas de energia elétrica. Mas ela só não contava com a falta de chuvas. Sem a ajuda de São Pedro, as hidrelétricas começaram a ficar vazias, o país entrou em uma grave crise energética, lembrando a época de racionamento no final dos anos 2000.

O otimismo começava a perder fôlego. Mas era ano de Copa do Mundo. E a alegria invadiu o país, deixando os problemas de lado. Obras foram feitas em estádios e novos investidores estrangeiros chegaram aos aeroportos, que foram ampliados. Mas a alegria durou pouco. O Brasil perdeu o campeonato e quem entrou em campo foi a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. O mega esquema de corrupção foi ano a ano ganhando o noticiário e revelando fraudes em estatais como a Petrobras, Eletrobras, fundos de pensão, construtoras e partidos políticos.

O presidente Jair Bolsonaro participa de ato alusivo ao aniversário de 127 anos da cidade de Jataí e à entrega da 1ª etapa Complexo Esportivo JK

Dilma, ainda sim, com o apoio de Lula, conseguiu se reeleger, mas agora o clima não era mais de tanto otimismo. E as pautas das reportagens se voltaram para a corrupção, revelando os primeiros sinais de um país que mais tarde iria se mostrar completamente dividido. Foi nesse ambiente que muitos empresários, em dezenas de entrevistas, questionavam se o avanço da economia nos últimos anos era “real” ou peça de ficção criada pelo PT. Nas ruas, protestos inundaram as capitais e em Brasília a oposição iniciou o processo de ‘impeachment’ de Dilma. Era hora de mais uma vez arrumar o país.

Nas redações dos jornais, em meio às expectativas dos Jogos Olímpicos no Rio em 2016, a pauta agora era entender o que faria Michel Temer, que colocou em curso uma onda privatizante e liberal. Sai de cena Keynes e entrava de vez na agenda macroeconômica Adam Smith, corrente reforçada dois anos depois por Jair Bolsonaro. Foi feita uma reforma trabalhista, a liberação da terceirização em algumas áreas e outras medidas impensáveis para os dois governos anteriores. A Petrobras, maior símbolo da Lava-Jato, passou a vender seus ativos. Se antes os preços eram controlados, agora a ideia era que o valor da gasolina e do diesel fosse guiado pelas cotações internacionais. Não deu certo. Os caminhoneiros entraram em greve, paralisando o país. O governo Temer acabou mais fraco do que começou. E, novamente, a economia brasileira se via em meio a um fraco crescimento e novas incertezas. O país seguia cada vez mais dividido. A taxa de desemprego avançava. Foi dessa forma que aparece um dos personagens mais controversos da história recente do Brasil: Jair Bolsonaro. Ele conseguiu usar essa atmosfera para se eleger com um discurso anti-petismo com Lula fora do páreo na disputa eleitoral por conta das investigações envolvendo os casos de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato. Ao longo de seu mandato, Bolsonaro, com a ajuda de Paulo Guedes, como ministro da Economia, vendeu o que conseguiu: reduziu ainda mais o tamanho da Petrobras, privatizou a Eletrobras e acelerou a atração de investimentos internacionais através de leilões em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos.

Se a economia seguia um caminho cada vez mais liberal, decidiu ir no sentido contrário quando o assunto era democracia. Com a pandemia da Covid-19, Bolsonaro foi contra o fechamento do comércio. Não queria que a tal “gripezinha” afetasse seu mandato. Em meio a críticas da imprensa, passou a ofender qualquer voz contrária. Foi, assim, cada vez mais flertando com o fim das liberdades de expressão. Ao longo dos primeiros anos de seu mandato, o extremismo já havia ganho espaço entre parte dos eleitores, dando combustível a Bolsonaro.

E nesses últimos 20 anos, as discussões sobre o crescimento econômico cederam espaço para a (impensável) luta pela democracia. Bolsonaro, como demonstrou a maior parcela da população brasileira, perdeu a eleição não só para Lula e o PT, mas para o autoritarismo, a falta de preocupação com a agenda sustentável e as mais de 600 mil mortes de brasileiros para a Covid-19.

Com Lula de volta ao poder, voltamos para a velha preocupação no ‘front’ econômico. Duas décadas depois, ainda falamos de inflação alta e o baixo crescimento do país. Avançamos em diferentes áreas, mas quem olha de fora pode ter a sensação de que o país anda em círculos entre idas e vindas, altos e baixos, recheados, agora, de novas incertezas e novamente uma interminável luta para reduzir os juros básicos da economia no país, hoje um dos maiores do mundo.

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