Domingo, Fevereiro 25, 2024

Uma evolução notável e potencial ainda por concretizar

João Almada

Moçambique há 20 anos, em 2003, era um país bem diferente do de hoje. A população pouco passava dos 19 milhões, hoje situa-se em 34 milhões, o que corresponde a um aumento relativo de praticamente 79%, uma explosão que, a manter-se esta tendência será, sem dúvida, um factor muito relevante a ter em consideração neste país.

Há 20 anos, o país colhia ainda os louros de “aluno exemplar”, epíteto atribuído pela Comunidade Internacional face a estabilidade política e, sobretudo, ao desenvolvimento económico – o país chegou a atingir um crescimento de dois dígitos – observado na segunda metade da década de 90.

No plano político, a situação era razoavelmente estável, depois do turbilhão de acusações da Renamo, o principal partido da oposição, sobre eventuais fraudes em relação ao processo eleitoral de Dezembro de 1999. Eram os últimos tempos de Joaquim Chissano na presidência da República.

A sucessão na Frelimo, o partido no poder, faz-se de forma tranquila. Armando Guebuza ascende à presidência do partido e depois à da República, nas eleições de 2004. O seu primeiro mandato (2005/9) é marcado por uma energia renovada, bem expressa no uso da expressão “decisão tomada, decisão cumprida” no fecho da correspondência oficial no Estado. Guebuza dava assim o mote do que iria ser o seu consulado.

No início do seu mandato, Guebuza tem um lema: acabar com a pobreza absoluta, ou seja, com aqueles que vivem com menos de 1 dólar/dia, ainda uma larga franja dos moçambicanos. É essa a principal mensagem que vai passando nas suas presidências abertas, uma novidade que a ele se deve também. Com elas a palavra inclusão é utilizada à exaustão, o que contribuiu também a projecto dos 7 milhões de meticais – à época o equivalente a 210 mil USD – direccionados aos distritos, gerando milhares de postos de trabalho em diversas áreas, mas cuja implementação ficou aquém do esperado.

Em 2007, Moçambique e os moçambicanos conhecem um dos maiores marcos do seu orgulho nacional do século XXI, quando Armando Guebuza pronuncia “Cahora Bassa é Nossa!”, após Moçambique acordar a reversão de 85% da Barragem de Cahora Bassa a Portugal.

Outro momento de orgulho foi quando, nesse mesmo ano, os leões voltam a habitar o Parque Nacional da Gorongosa, o qual começou a encetar uma recuperação, após décadas de guerra, liderada pelo filantropo norte-americano Gregory Carr, envolvendo o Governo de Moçambique e as comunidades locais

Esta presidência fica marcada ainda pela edificação de várias obras públicas consideradas estruturantes para o desenvolvimento de Moçambique. As pontes Armando Guebuza (sobre o Zambeze); e a Maputo-Catembe; a estrada circular de Maputo; a base logística de Pemba; e o aeroporto de Nacala, não esquecendo o novo aeroporto de Maputo.

A partir de 2010, o país conhece um dinamismo económico sem precedentes desde a independência, impulsionado pela indústria mineira de carvão, no distrito de Moatize, província de Tete, que começa a ser explorado pelas grandes multinacionais com ‘know how’ na matéria. Tete é o novo “el dorado”, levando a uma profunda transformação social e económica da região, com fortes impactos nacionais.

Barragem de Cahora Bassa

Mas o ponto de viragem deu-se em Fevereiro de 2010. Nesse mês, após aturadas pesquisas, foi anunciado que a bacia do rio Rovuma, na província de Cabo Delgado, extremo norte do país, albergava reservas de gás natural que se vieram a provar estar na ordem dos 180 triliões de pés cúbicos, números que fazem do país o Qatar de África. O investimento, após o anúncio da chamada Decisão Final de Investimento, é de 50 mil milhões de dólares, a ser efectuado por um consórcio liderado pela francesa Total, o maior investimento alguma vez realizado em Moçambique. De acordo com especialistas do Banco Mundial (BM) o estado irá arrecadar, a partir do início da década de 2030, mais de 2,6 mil milhões de euros por ano.

Por esta altura, já a CV&A actuava em Moçambique, apoiando clientes como o Millennium bim, a Mota-Engil e a Visabeira, mas também sendo consultor em projectos estruturantes no país, como o da construção da Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa ou o apoio à comunicação internacional do Instituto Nacional do Turismo (INATUR).

Em Setembro de 2012, a CV&A, reforçando a sua vocação para estar presente nos países da CPLP, irá abrir o seu escritório em Moçambique, criando uma empresa de direito moçambicano.

A partir de 2010, o país conhece um dinamismo económico sem precedentes desde a independência, impulsionado pela indústria mineira de carvão, no distrito de Moatize, província de Tete

Logo nos primeiros anos, foi consultora de clientes com projectos que contribuíram para repensar e a transformar Moçambique: ProSavana, o projecto agrícola de cooperação trilateral Moçambique-Brasil-Japão; JICA – Agência Internacional de Cooperação Japonesa; Montepuez Ruby Mining, a maior reserva de rubis descoberta no Mundo este século; a Portucel Moçambique; ou a definição da estratégia para o PEDEC-Nacala, o projecto de desenvolvimento económico para o centro e norte do país, entre outros.

Entretanto, no país, o início de 2015 gerou grandes expectativas com a tomada de posse do presidente Filipe Nyusi, o quarto desde a independência. O seu discurso foi perfeito, destacando-se a enorme humildade indo ao ponto de afirmar que o povo seria o seu patrão.

Contudo, a realidade mostrou-se bem mais complexa e o desafio do novo Presidente e dos seus Governos para o seu mandato alterou-se por completo, quando o país entra numa crise financeira, económica e social, motivada por diversos factores internos e externos, onde se destaca a crise das dívidas ocultas, que levou ao julgamento mais mediático da história da justiça moçambicana, e ao eclodir dos ataques atribuídos ao extremismo islâmico em Cabo Delgado, a partir de Outubro de 2017.

Presidente Filipe Nyusi

Mas mesmo em ambiente desafiante fazem-se conquistas e o amadurecimento de alguns dos projectos mineiros, agrícolas e turísticos iniciados na década anterior começaram a trazer alguns benefícios.

A CV&A, em particular, esteve envolvida num marco financeiro de Moçambique, quando foi a consultora moçambicana seleccionada para fazer a comunicação da maior operação bolsista jamais efectuada em Moçambique, quando a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) entrou em Bolsa e realizou a maior operação pública de venda de acções a empresas e investidores particulares da história do país. A empresa passou de três accionistas para 17 mil! Um sucesso a todos os níveis que orgulhou muito a CV&A.

Mais recentemente, com o auxílio de tropas ruandesas e da SADC, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas conseguiram diminuir a forte presença que o grupo extremista tinha vindo a conseguir, reconquistando importantes localidades como as vilas de Mocímboa da Praia e Palma.

Assim, recentemente, Filipe Nyusi fez saber que já estão reunidas as condições de segurança para o regresso das operações de LNG a território nacional. Enquanto isso, em Novembro de 2022, o primeiro navio com LNG moçambicano saiu para a Europa, um marco relevante para o país, que continua a encetar os esforços para acelerar o processo de instalação de uma plataforma de LNG em terra, que possa multiplicar estes esforços.

Presentemente, o Governo enfrenta três grandes desafios prementes: a gestão transparente dos recursos provenientes do gás; a criação de um Fundo Soberano credível, garantindo que estas receitas não beneficiem apenas as populações locais, mas também as futuras gerações; e, por último, que esses recursos sirvam para a diversificação da economia do país.

Moçambique tem todas as condições naturais, em termos de recursos, para “dar certo”. Mas deverá apostar fortemente na elevação do nível de educação e de capacitação da sua população, muito jovem e em forte crescimento; no reforço das instituições; e da sociedade civil. Conseguido estes desafios está definitivamente aberto o caminho para um desenvolvimento sustentável e equilibrado. Assim todos esperamos!

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