Terça-feira, Agosto 16, 2022

Uma “viagem” pela ARCOlisboa

Mafalda Belfort Henriques, Consultora de Arte

A 5.ª edição da ARCOlisboa, que decorreu entre 19 e 22 de maio, com obras de 14 países, recebeu 11 mil visitantes, com efeitos muito positivos para quem expôs e quem visitou

Comecemos pela secção Opening, composta por galerias com menos de sete anos. Na galeria No.No, duas peças da Ana Pérez-Quiroga: a frase-escultura em néon, de vermelho impulso, de promessa física e os objectos do quotidiano amado, encapsulados em cobre, inicia-se a narrativa do espaço habitado. Em frente, o trabalho de Lucía Bayón, pela Intersticio, que continua com o quotidiano, mas usa a função de objetos como motivos-padrão. Os baixos-relevos de peças de vestuário são exemplo da investigação sobre repetição e serialidade de gestos, ritmos e materiais.

A Foco, através do trabalho da Mia Dudek, retrata a urbanização brutal contra o corpo frágil, a condição humana. As fotografias de prédios de habitação social em Lisboa, vinculadas a peças de espuma de betão pigmentado, em diálogo com as imagens de cogumelos, que transmitem o crescimento gradual quase diário, como se ocupasse todos os espaços do dia, todos os poros da vida sem lugar para outro. Aqui, o ritmo do quotidiano  ao contrário da sensualidade do trabalho da Ana Perez-Quiroga, da leveza de Lucía Bayón – é de harmonia sufocante.

Atravessando para a área principal, a Marra/Nosco trouxe três peças do brasileiro Túlio Pinto, que explora a fragilidade, a transparência do vidro com o peso e densidade opaca de estruturas de metal. O trabalho, em aparente oposição, reflete a dualidade humana, ideogramas da fragilidade que tudo suporta.

Mónica de Miranda esteve representada na Sabrina Amrani e Carlos Carvalho, com as suas reconhecíveis fotografias repartidas e uma série de imagens bordadas de extraordinária delicadeza.

Logo ao lado, a ironia de Isabel Cordovil, na galeria Uma Lulik, com a sua escova de dentes como símbolo do fim de uma relação e o iluminador trabalho de Paulo Lisboa.

A Vera Cortês trouxe duas peças de Alexandre Farto, a “construção pictórica” de Carlos Bunga, o trabalho de Gabriela Albergaria com os seus jardins mágicos, elaborados como sistema feito de hierarquias visuais (adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, para o Núcleo de Arte Contemporânea).

Passando pela 3+1, com as pinturas de Tiago Baptista e a sua estrutura esqueleto, o ritmo da frente e verso personalizável, vemos ao fundo a parede com as peças de Marina González Guerreiro, na Rosa Santos. Séries de pias batismais em cerâmica esmaltada, com sentido inverso: a graça que é recebida pela bênção, aqui aparece como oferta, com chá e flores secas, noutra com arroz, símbolos de abundância. Como se, em vez de retirar algo que nos é dado culturalmente, é aqui proposto como uma oferenda de emoções, um ritual íntimo de entrega.

Aqui há África

Atrás, a This is not a white cube, primeira galeria africana em Portugal e parte da secção África em Foco, com os seus Discursos de Decolonialidade. A permeabilidade de discurso é notável entre todos, sejam as meninas de Dagmar, a escultura feita de tiras de borracha de Patrick Bongoy, as memórias do quotidiano de René Tavares, as personagens deformadas de Cristiano Mangovo e as cores vibrantes de Francisco Vidal. O discurso é claro e as consequências devidamente questionadas.

Em frente, um ‘stand’ onde o olhar conhecedor, que tudo simplifica, nos leva a um encontro. Foi ao ver as séries de pintura Outskirts e Reliquiae, de Rui Calçada Bastos, que Bruno Múrias percebeu a ligação com o trabalho fotográfico Against the Day, de António Júlio Duarte. Ou seja, este encontro que agora nos é tão claro, foi uma coincidência no imaginário dos dois artistas.

@Bruno Lopes

Cortesia da Galeria Bruno Múrias

Peça da Galeria Albergaria

Cortesia da artista e da Galeria Vera Cortés

No outro corredor, na Zielinsky, Guillermo García Cruz introduz o conceito de Glitch, termo usado em programação para quando existe um erro temporário, uma interrupção de momentos. Ao contrário do bug, o glitch não destrói o sistema. As obras refletem o glitch como pausa do quotidiano, e esta falha, como as grandes guerras, o muro de Berlim, a pandemia, cria mudanças de paradigmas estabelecidos.

Voltando para trás, na Francisco Fino, as três obras de Vasco Araújo no corredor e a ironía poética de Adrien Missika.

A 31 project, parte da África em Foco, trouxe o trabalho de Aviwe Platjie, auto-didata com uma técnica nas diferentes texturas muito interessante. Existe aqui uma partilha de momentos: a conversa entre amigos, a intimidade do espaço doméstico, como uma pausa no tempo, leve e sonhadora.

A Galeria 111, fundada em 1964 por Manuel de Brito, conta com um percurso reconhecido ao longo de cinco décadas. Sob a direcção de Rui Brito e Maria Arlete Alves da Silva, o trabalho da 111 é um dos pilares do panorama da arte contemporânea portuguesa. O respiro expositivo permitiu admirar o trabalho de Pedro Paixão do lado direito, adquirido pela CML, os desenhos da Paula Rêgo e as pinturas de Rui Miguel Leitão Ferreira.

Histórias do dia-a-dia, paixão, protesto e resiliência são a base de todos os contos, da necessidade de narrar todos os quotidianos. Mas a urgência em estar fisicamente presente, depois de dois anos digitais, teve como resultado a elevada qualidade dos trabalhos expostos e revelou a força de adaptação das galerias, mas principalmente o olhar leve de futuro deste evento organizado pela IFEMA Madrid e CML.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

@Cyril Moumen

Tulio Pinto, Complicity #35, 2022

Cortesia do artista e da Galeria Marra/Nosco

@Goro Studio

Peça de Marina Gonzãlez Guerreiro

Cortesia da Galeria Rosa Santos

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