Terça-feira, Agosto 16, 2022

A economia criativa num mercado por criar

Pedro Cativelos, Director Executivo da Media4Development

Antes da pandemia, as indústrias criativas geravam anualmente, de forma agregada, a nível global, 8,5 biliões de dólares e geravam emprego para 144 milhões de pessoas. Se fossem um país, seriam a terceira economia mundial, só atrás dos EUA e da China.

Após a pandemia, a tendência é crescer ainda mais, se lá colocarmos o advento dos NFT, o crescimento do mercado dos conteúdos nas plataformas de ‘streaming’ ou a exploração do metaverso, por exemplo, impelidos pela revolução digital que muitos de nós subscrevemos nos últimos dois anos e meio.

Ajuda a perceber estes números, identificar de forma mais precisa o que é conceptualmente, a indústria criativa. Para as Nações Unidas, é o conjunto de “actividades do conhecimento e produção de bens tangíveis, intelectuais e artísticos, com conteúdo criativo e valor económico”. Na linguagem sectorial da economia, é composta por três grupos: um artístico, que congrega música, teatro, dança, literatura, cinema e artes plásticas, um outro, em que estão a arquitectura, o design (moda, gráfico, comunicação, produto e de equipamento) e um terceiro, no domínio das novas tecnologias, que engloba a criação de ‘software’, jogos, e serviços digitais (de ‘streaming’).

Se olharmos a estes vários segmentos, percebemos a imensidão de assimetrias que há entre eles, a todos os níveis, diferenças que o são também se as olharmos sob o prisma dos mercados, ou países, onde são concebidas. Não é igual ser um artista num qualquer país da CPLP ou nos EUA, claro.

Toda esta formulação, que já não é assim tão recente, nasceu na metade dos anos de 1990, e foi inicialmente difundida pelo governo do Reino Unido, procurando encontrar uma resposta à necessidade de mudar os termos do debate sobre o valor real das artes e da cultura, e agregar a elas as novas fórmulas que então ganhavam terreno, como as múltiplas vertentes em que o design evoluía e os novos caminhos que se anteviam com a explosão da internet e a previsão de um suposto mundo digital virtual que viria a tornar-se real. Este conceito de indústria criativa concretiza então a visão mais ampla das artes convencionais, libertando-as da prisão dos subsídios a que muitas delas foram votadas, por exemplo em países europeus, e agrupando-as sob o guarda-chuva da exploração comercial.

O momento-chave de toda essa nova visão aconteceu com a produção do primeiro “Mapa das indústrias Criativas”, em 1998, decisivo por ter sido o primeiro exercício sistemático de medição das indústrias criativas em todo o mundo, projectado para colectar dados sobre essas indústrias. Descobriu-se então que, à época, elas eram responsáveis por um impacto brutal na economia, responsáveis pela criação de um milhão de postos de trabalho e contribuindo com 4% PIB da Grã-Bretanha, representando uma receita anual de 10 mil milhões de dólares em exportações. Hoje, esse valor multiplicou-se várias vezes e as várias indústrias criativas já re-presentam quase 12% do PIB britânico.

Hoje, e com um forte ‘input’ das novas tecnologias, os mercados culturais estão abertos, tal como as grandes praças financeiras, a todos os que lhe agreguem valor, com produtos, conteúdos ou criações que agitem o primordial mecanismo da oferta e da procura. E são mais ou menos valorizados, de acordo com esse jogo de equilíbrios.

Haverá todo um universo de contextualizações e de singularidades a este respeito. Olhando à superfície, e numa visão mais macro, percebemos que a cultura, como crescemos a chamar-lhe, está em plena mudança (a várias velocidades) e a ser olhada à luz do mercado, despindo a roupagem do que tradicionalmente se chamava Cultura, olhada como parente pobre da economia, mas que, por sua vez, e por uma certa politização de muitos dos seus agentes, também encarava os mecanismos do mercado (capitalista), de forma desconfiada e subversiva aos seus valores de livre criação (muitas vezes sem qualquer vínculo com o mercado, o consumidor ou a aceitação da sua criação), dependendo a sua existência, por isso mesmo, de subsídios à criação. Creio que é pacífico perceber que o desenvolvimento da Cultura, enquanto tal, não beneficiou nada desta relação mútua de distante desconfiança.

Nos vários países da CPLP (Moçambique incluído), o Orçamento Geral dos vários Estados, não lhe atribui mais de 1%. Há, de facto, uma visão, muitas vezes politizada da cultura. De parte a parte. Quem orçamenta, olha-a como gasto. Quem a implementa (artistas), olha-a como bem essencial, mas imaterial e por vezes divorciada de um mundo real no qual receita, despesa, lucro e sustentabilidade são termos que não entram nas contas.

Iria mais por uma terceira via. Correndo o risco de ser utópico, até por isso não acontecer em muitas outras áreas, o papel dos Estados da maioria dos países de língua portuguesa, até por, em conjunto, terem um mercado comum que ultrapassa os 300 milhões de pessoas (consumidores), deveria ser o de criar as condições para que estas actividades (ou indústrias), possam ser exercidas com condições de serem geradoras de receita para os seus intervenientes, e de riqueza para as suas contas. Para lá da afirmação de uma identidade global baseada nessa nova dinâmica, potencialmente geradora de ganhos directos e indirectos para os seus vários intervenientes.

Claro que será sempre difícil encarar, de igual forma, um criador de ‘software’ e um artista plástico, por exemplo. No entanto, se os imaginarmos a trabalhar em conjunto, à luz, por exemplo, do recente fenómeno dos NFT, em que são feitas aquisições milionárias de obras artísticas (várias de africanos) com base nos ‘tokens’ criptográficos, podemos perceber que há um trabalho a ser feito aqui. Os Estados podem, e devem criar as condições de facilitação do trânsito dos criadores dentro do espaço da CPLP, fomentar as ligações entre eles, apostar na digitalização dos seus modelos e olhar este gigantesco plano geográfico global como um campo de oportunidades para todos, a todos os níveis, e não apenas como um lugar de diplomacia estéril com pouca ligação com as várias indústrias (criativas incluídas) e agentes económicos (culturais também).

Do lado dos criadores, parece-me também fundamental que comecem a olhar o mundo, de forma mais criativa, tal como o fazem, e bem, nas suas obras.

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