Domingo, Fevereiro 25, 2024

“Nenhum livro nasce da mesma maneira. Em todo o caso, o mais importante é sempre encontrar a voz certa para contar aquela história”

Fotos gentilmente cedidas pelo escritor

Entrevista José Eduardo Agualusa, Escritor

Catarina da Ponte

José Eduardo Agualusa acaba de receber o grande prémio de crónica e dispersos literários, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, com o livro “O Mais Belo Fim do Mundo”, que reúne crónicas, contos e notas diarísticas, escritos entre 2018 e 2021 na revista Visão, na Granta e no jornal brasileiro o Globo. Em entrevista à PRÉMIO, o escritor angolano fala do seu novo projecto literário, uma espécie de biografia que diz ser também um ensaio sobre a história recente de Angola.

A Literatura é um espaço de reflexão?

A literatura deve ser, em primeiro lugar, um território de reflexão e de debate. A mim começou por me ajudar a compreender Angola, e o meu lugar dentro do país.

Escreve todos os dias?

Sim. Escrevo o meu diário, por vezes crónicas, outras vezes contos. Isso quando não estou a escrever um romance. Acontece escrever ao mesmo tempo contos, romance, crónicas e o diário.

A Ilha de Moçambique, onde vive actualmente, já foi também o “chão” de Luís de Camões, Bocage e de António Gonzaga. Que impressões gostaria de trocar com estes escritores se pudesse coincidir no tempo por alguns momentos?

Obviamente, gostaria de os ouvir falar sobre o tempo em que viveram. E gostaria de saber o que pensariam sobre alguns aspectos do nosso tempo — não sobre os avanços tecnológicos, mas sobre questões como o fim da escravatura ou a emancipação feminina.

“Toda a literatura é política e de intervenção, em particular em países, como Angola em que a maior parte das pessoas não tem maneira de se fazer ouvir”. É frequente abordarem-no no sentido de ser “mensageiro” de questões desta natureza? Tenta fazer esse papel?

Sim, por vezes acontece leitores pedirem-me que escreva sobre determinadas questões. Ouço toda a gente. Até me acontece encontrar leitores que me contam estórias que acham que poderiam dar um bom romance.

Recentemente inaugurou, na Guarda, a exposição de poesia e fotografia “Gramática do Instante e do Infinito” sobre a Ilha de Moçambique. O Lugar de contemplação, criação e exposição da fotografia tem semelhanças com o exercício da escrita?

Tem algumas, sobretudo se o propósito com a fotografia for o de contar uma história, que é o que acontece com essa exposição. Também é possível tentar contar uma história com uma única imagem. Olhar para os fotografados enquanto personagens.

O que o fez aceitar este desafio da curadora Lucia Bertazzo?

Sempre gostei muito de fotografar. A partir do momento em que me instalei na Ilha de Moçambique comecei a fotografar mais. Além disso, tinha uma história para contar e a Lucia percebeu isso.

Viveu em Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Berlim e, actualmente, na Ilha de Moçambique, qual o legado que cada um destes sítios lhe deixou, enquanto pessoa e escritor (se é que podemos dissociar estes dois corpos).

Todas essas cidades são lugares de encontro  territórios que se abriram a outros e a vivências diferentes. É o que mais me interessa neles.

“[AS MINHAS HISTÓRIAS] PODEM NASCER DE UMA NOTÍCIA NUM JORNAL, DE UMA FRASE OUVIDA NA RUA, DE UM SONHO. NENHUM LIVRO NASCE DA MESMA MANEIRA.”

Que referências literárias contribuíram para a sua construção enquanto escritor?

Desde Eça de Queirós a Bruce Chatwin, passando por [Jorge Luís] Borges e [Gabriel] García Márquez. Gosto de escritores que saibam contar uma boa história, com paixão e deslumbramento, e usando todos os recursos da língua.

“Escrevo para saber”. As suas histórias nascem a par de personagens e cenários?

Podem nascer de uma notícia num jornal, de uma frase ouvida na rua, de um sonho. Nenhum livro nasce da mesma maneira. Em todo o caso, o mais importante é sempre encontrar a voz certa para contar aquela história. Isso é muito mais importante do que a própria história.

O livro “Os Vivos e os Outros” (vencedor do Prémio PEN Clube Português 2021) é uma profecia ou uma coincidência do contexto pandémico?

O livro ficou pronto alguns meses antes do início da pandemia. Trata de questões que já me interessavam ou preocupavam antes, e que me continuam a interessar. Sobretudo, do poder da palavra.

Como vê a literatura africana, sobretudo a emergente?

Com muito optimismo. Os países africanos são muito diversos entre si, com uma extraordinária riqueza de culturas e de formas diferentes de olhar o mundo. A própria carência tem forçado as populações africanas a exercitar a criatividade. Não surpreende que, tendo os instrumentos adequados, África surpreenda no mundo das artes, das artes plásticas à literatura.

O que está a escrever neste momento?

Uma espécie de romance não ficcional  uma biografia, que é também um ensaio sobre a história recente de Angola, vista a partir do coração da nação ovimbundo.

O seu último livro é sobre sonhos e sobre sonhadores. Com o que é que ainda sonha José Eduardo Agualusa Alves da Cunha?

Tenho os mesmos sonhos das misses: sonho com a paz mundial.

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