Terça-feira, Agosto 16, 2022

“Na Culturgest continuamos à procura de inovar, de outras maneiras de contar histórias, de nos ligarmos ao público”

Raquel Ribeiro

A meio do segundo mandato como director artístico e administrador da Culturgest, Fundação da Caixa Geral de Depósitos, Mark Deputter, 61 anos, continua a colocar a criação contemporânea no centro da missão instituição, há quase 30 anos a mudar o tecido artístico da cidade de Lisboa. Com um orçamento anual de cerca de 4,5 milhões de euros, o desafio é continuar a alargar e diversificar os públicos.

Está na Culturgest desde 2018, no segundo mandato. Como olha para os últimos quatro anos? 

A Culturgest foi criada em 1993, na altura em que se construiu a sede da Caixa Geral de Depósitos. A direcção da Caixa, sobretudo por impulso do Doutor Emílio Rui Vilar, decidiu instalar dentro do edifício um centro de artes. Desde o início é muito claro o que se quer deste centro. Quando a Culturgest é criada como um centro de arte contemporânea, com um foco nas linguagens de criação contemporânea, é logo imaginado como um espaço multidisciplinar. Tem um perfil bastante definido, nestes 28, quase 30 anos, uma marca consolidada…

E uma identidade.

Sim, uma identidade, um perfil muito claros. Fui convidado, na altura da minha candidatura, para continuar este perfil. Alguns dos objectivos foram, por um lado mantê-lo, por outro ir à procura de um público mais alargado.

Por que é que isso foi um objetivo?

Quando a Culturgest foi criada, as linguagens de criação contemporânea eram bastante minoritárias. Na altura, foi um apoio importante a iniciativas artísticas que se começavam a formar. Por exemplo, a Culturgest teve um papel importante na história da nova dança portuguesa, ao apoiar uma série de coreógrafos. O mesmo nas exposições: a Culturgest, aliás, é uma das poucas galerias completamente dedicadas à arte contemporânea em Lisboa. Há outras mais pequenas, que também têm esse papel, mas menor dimensão.

E menor visibilidade.

Essa ideia de visibilidade, juntado ao facto de que estas linguagens se foram consolidando e uma série de artistas começaram a criar o seu próprio público, a Culturgest, com a visibilidade que tem, com as infraestruturas que tem (uma sala grande, galerias relativamente grande), e com a história que já tem, está no ponto em que podemos realmente trabalhar no aumento dos públicos.

Que públicos são esses e como se chega até eles? A Culturgest, estando associada a um banco e num espaço bastante imponente, pode afastar públicos que não estejam habituados à linguagem, à dimensão.

Absolutamente. De facto, o edifício assusta um pouco. Foi construído para ser imponente e tem um impacto grande. Sempre pensei que deveríamos utilizar esta grandeza e esta escala a nosso favor e não tentar esconder isso. Uma das coisas que decidi logo foi apostar em iniciativas de grande dimensão. Quando há muita gente, como no Indie ou no Doclisboa, esta grandeza torna-se uma qualidade: as pessoas encontram-se, há uma atmosfera festiva. Temos também melhorado o próprio ambiente: criámos um novo visual, estamos a trabalhar nos espaços. Temos uma livraria muito boa que é pouco conhecida. Vamos trazê-la para a entrada da Culturgest, um espaço amplo, para ter ali a oferta de uma cafetaria também. Outras iniciativas para facilitar o acesso das pessoas foram os espetáculos ao ar livre: lançamos o festival Inside Out no verão passado e é algo que vamos continuar. Também criamos o Dia Estudante, com entrada gratuita, especificamente pensado para o público universitário porque há imensos estudantes em Lisboa que nem sempre conhecem o caminho para os centros culturais. Desenhamos um plano de comunicação baseado no digital: temos um novo ‘website’ e uma comunicação digital com muito conteúdo editorial, microsites sobre projectos, vídeos, ‘podcasts’, uma revista sonora ‘online’, visitas guiadas virtuais. Por fim, temos feito muito trabalho no acesso da população de origem africana que vive em Lisboa, que é importante, e colaborações com associações, organizações e investigadores.

Públicos muitas vezes excluídos geográfica ou culturalmente de instituições no centro da cidade.

Precisamente. E também fazemos o mesmo pela acessibilidade de pessoas com deficiência. O edifício estava planeado para as receber, segundo normas legais, mas de 1993. Ao longo dos anos as expectativas e as exigências mudaram e continuamos a trabalhar no desenvolvimento desse trabalho.

É director artístico mas também administrador. Como é que as duas funções se articulam?

É uma relação que vai nas duas direcções, é uma sinergia. De um lado, para a Caixa a Culturgest é uma entidade importante porque dá corpo à ideia de responsabilidade social. Quando a Culturgest foi criada, ainda era algo inovador pensar que um banco poderia investir na cultura desta forma. Hoje é geralmente aceite e até esperado que grandes instituições e grandes empresas tenham uma política de responsabilidade social. Por outro lado, a Caixa faz com que a Culturgest continue a funcionar. O nosso Conselho de Administração é composto por mim e pessoas da Caixa. Em termos de programação há uma liberdade total, porque não há interferência. Isto é algo que a Caixa manteve sempre desde o início. Obviamente, há uma série de expectativas em termos de retorno. A Caixa vê com bons olhos o nosso objectivo de alargar públicos e há uma série de expectativas na gestão, em diminuir despesas fixas, que temos conseguido ao longo dos últimos cinco anos, sem diminuir as atividades.

Com quase 30 anos, qual é hoje o papel da instituição na cidade?

A oferta cultural de Lisboa tem vários ‘players’, instituições pequenas, grandes, específicas, abrangentes, em termos de programação, mais ou menos ‘mainstream’. Quando pensamos o papel de um centro cultural é sempre importante olhar para o seu contexto. A Culturgest faz bem, acho, em manter a sua especificidade, a sua oferta dentro da ideia da contemporaneidade e poder ser o lugar onde fazemos um ‘mainstreaming’ de propostas artísticas, de linguagens artísticas que, à partida, não são assim tão conhecidas pelo público, de boa qualidade e que que podem ser desfrutadas por um público muito maior. Desde a crise, muitos dos nossos criadores, por razões financeiras, tiveram que fazer durante anos peças muito pequenas, com dois, quatro intérpretes, sem cenário. Ter esta infraestrutura disponível e também mais meios dá-nos a possibilidade de investir nestes criadores portugueses, dar-lhes a possibilidade de criar para palcos maiores, para públicos maiores. A ideia é continuar a ser uma plataforma onde se podem apoiar formas com mais visibilidade, não deixando de apostar em propostas de criação contemporânea, que procuram inovar, procuram novas linguagens, outras maneiras de contar histórias, de se ligar ao público.

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