Terça-feira, Agosto 16, 2022

“A qualidade nem sempre é percebida por todos”

Elisabete Felismino

A Fundação Cupertino de Miranda, sediada em Famalicão, tem um papel fundamental na região. Criada quase há 60 anos, por Arthur Cupertino de Miranda, alberga a maior colecção de surrealistas em Portugal. Pedro Álvares Ribeiro, que preside à instituição há 15 anos não tem dúvidas em afirmar que “a Fundação tem um caminho muito promissor” pela frente. Rejeita a ideia que as Fundações devam ser populistas, mas reconhece que a proximidade com a população é importante.

Sede da Fundação Cupertino de Miranda com autoretrato de Fernando Lemos

Autoretrato de Fernando Lemos

Qual é o âmbito exacto da Fundação?

A Fundação, segundo o seu fundador, Arthur Cupertino de Miranda devia ser um tempo de arte, cultura e bondade. 

Quer explicar cada uma dessas vertentes?

 A Fundação tem a maior colecção de arte surrealista em Portugal, estamos a falar de 3 mil obras, mil das quais adquiridas nos últimos dez anos. Temos também o maior espólio de obras de arte do Mário Cesariny, do Júlio e do Fernando Lemos. Vamos inaugurar com o apoio do Centro Português de Fotografia, no dia 2 de Junho, uma exposição de Fernando Lemos, com as fotografias que fez dos grandes escritores portugueses. É um livro que editamos e que agrega o maior conjunto de retratos dos grandes escritores portugueses, desde a Sophia de Mello Breyner ao José Cardoso Pires, Jorge Sena, Mário Cesariny e que são obras absolutamente extraordinárias. Para além disso também temos as bibliotecas pessoais do Mário Cesariny e do Artur Cruzeiro Seixas. 

De resto, têm actualmente uma exposição do Cruzeiro Seixas em Paris…

É com muito gosto que celebramos o centenário de Cruzeiro Seixas, e temos uma exposição em Paris, inaugurada em meados de Maio, na sede da Unesco, que é um local da máxima relevância cultural no Mundo. A exposição tem obras extraordinárias nomeadamente um Picasso de 1958, e dois painéis extraordinários de Miró. 

Há uma grande ligação da Fundação com os pares internacionais…

Sim, para além da exposição de Paris, temos também uma exposição na Tate Modern em Londres que se chama Surrealism Beyond em que está representada uma obra extraordinária de Cruzeiro Seixas, do Fernando Lemos e do Fernando Azevedo. Esta exposição está patente até ao final de Agosto e esteve anteriormente no Metropolitan, em Nova Iorque. Temos também esta vertente da promoção dos artistas nacionais…

Como é que fazem esse relacionamento com as grandes instituições mundiais?

Com muito trabalho e conseguindo que as pessoas quando visitam Portugal visitem a Fundação, vejam a colecção e percebam a importância dos Surrealistas portugueses, que nem sempre foi valorizada.

Para além do surrealismo têm ainda duas outras áreas de intervenção…

Sim, temos mais duas áreas: música e literatura. Na música, lançamos um grupo, há mais de dez anos, que são os Cupertinos, cujo primeiro CD ganhou o prémio mais importante da música do mundo, o Gramophone Classical Music Awards em 2019, na categoria de música antiga. Temos uma parceria com a Universidade de Coimbra e recuperamos obras da polifonia portuguesa do sec. XVI e XVII. 

Falta-nos falar da 3ª dimensão da Fundação, a literatura.

Na literatura encomendamos a três grandes intelectuais portugueses, António Feijó, Miguel Tamen e João Figueiredo, o Cânone sobre os grandes nomes da literatura portuguesa dos últimos séculos.  Ao fim de sete anos, temos aqui uma verdadeira obra-prima de critica literária. Lançamos também recentemente um espaço museológico, aqui na Fundação, que se chama Torre Literária.

Em que consiste?

A Torre Literária é um espaço que apresenta de uma forma, que pensamos diferente, a literatura portuguesa dos últimos 8 séculos. Contamos com o apoio extraordinário do grande cineasta Manoel de Oliveira, que colocamos ao nível dos grandes escritores portugueses, com os filmes dele a servirem de fonte de inspiração, as fotografias do Fernando Lemos e o grande arquitecto da escola do Porto, João Mendes Ribeiro, que nos ajudou com toda a sua experiência de cenografia. 

Qual a área que tem mais peso?

Gostaria de dizer que as três têm o mesmo peso, mas o surrealismo tem um lugar muito importante. 

Qual o orçamento da Fundação?

O orçamento da Fundação varia todos os anos, a sustentabilidade é uma preocupação e uma prioridade. Posso dizer que com os nossos capitais próprios, de 20 milhões de euros, conseguimos cumprir a nossa missão. Estamos próximos, ainda não estamos lá, mas estamos a trabalhar no sentido da sustentabilidade.

A proximidade da Cupertino de Miranda, como grandes polos culturais, e estou por exemplo, a pensar em Serralves, é benéfica. Há sinergias que se aproveitam?

A relação é bastante positiva e nós procuramos incrementá-la. No estrangeiro a cooperação entre instituições é muito valorizada, em Portugal nem sempre foi assim, mas penso que estamos no bom caminho.  

Em que ponto é que a economia e a cultura se tocam, pergunto isto porque Famalicão é um dos polos exportadores de Portugal com algumas das maiores empresas nacionais?

É uma pergunta interessante, Famalicão é um dos concelhos com maior capacidade exportadora do país, onde temos empresas fortemente inovadoras, muitas das quais mecenas da Fundação. Temos aqui um apoio e uma dinâmica muito importantes e um campo de aprendizagem para a inovação muito relevante. Espero que esta relação entre a economia e a cultura seja interessante para ambas as partes. 

Como vê a Fundação Cupertino de Miranda daqui a 10 anos?

A Fundação tem um futuro muito promissor porque a sustentabilidade é uma realidade cada vez mais presente. Temos uma dinâmica muito forte no surrealismo, na literatura e na música e, por isso, a internacionalização é cada vez mais uma realidade. Por exemplo, no caso da música vamos agora participar num dos festivais mais importantes de música clássica da Alemanha, com os Cupertinos e, na literatura estamos a trabalhar intensamente para dar a conhecer a obra do Mário Cesariny em termos internacionais. O nosso trabalho em Portugal é essencial, mas dar a conhecer a nível internacional a importância destes criadores é muito importante.

Há quem defenda que as Fundações deviam ser menos elitistas, eventualmente ter até uma programação mais populista de modo a captar mais público, concorda?

Não é uma palavra que aprecie muito, prefiro falar em qualidade e, a qualidade nem sempre é percebida por todos. Por exemplo, faz todo o sentido trabalhar a polifonia, uma realidade que só algumas pessoas é que apreciam, mas faz parte do nosso património. Há actividades que são apreciadas por apenas alguns segmentos da população, mas que são muito importantes porque evidenciam a riqueza e a diversidade da cultura do povo. Dito isto, é importante para uma instituição como uma Fundação procurar estar próxima das pessoas e, posso dizer que esta campanha que lançamos “Deixe a sua marca” ajudou-nos bastante nessa área.

“Deixe a sua marca” é a campanha de requalificação do painel de azulejos das torres da Fundação?

Efectivamente as pessoas têm ainda a ilusão que as Fundações são um mundo elitista, eventualmente menos aberto, e por isso foi muito importante darmos oportunidade a que a população, por dez euros, possa ficar para sempre com o seu nome na torre da Fundação, sendo em simultâneo uma forma de colaborar na recuperação de um património histórico, e ainda por cima, temos a sorte de poder contar com o apoio do criador da obra, Charters de Almeida.

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