Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

“O contacto com os artistas enriquece-me”

As minhas colecções – Fernando Figueiredo Ribeiro

Texto: Ana Ventura | Fotografias: Fernando Teixeira

Na passada década, aquilo que começou com um encanto inesperado saiu da esfera privada para dar origem à Colecção Figueiredo Ribeiro. São cerca de 2800 obras, representativas dos últimos 50 anos, que encontraram olhar público no Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes. Fernando Figueiredo Ribeiro esteve sempre ligado à área financeira, mas, para si, a arte nunca foi um investimento.

Gostava de convidá-lo a recordar um belo dia em que, com 21 anos, desceu à cave da Livraria Barata, em Lisboa, para ver uma exposição.

Confesso que não fui lá para ver a exposição: estava na faculdade, fui ver uns livros e vi que havia uma exposição no piso de baixo. Assim que se desciam as escadas, estava o quadro que comprei, iluminado de uma maneira fantástica. Isto foi num período em que a bolsa estava num “boom” fantástico, tinha um grupo de amigos com quem investia e, de facto, ganhámos algum dinheiro. Encantei-me com um quadro e comprei-o – foi um impulso mas a colecção não começou aí.

Mas foi nesse dia que teve a certeza que nunca mais viveria sem arte?

Não, nesse dia compreendi, talvez, que gostava de arte contemporânea – mas nem isso posso dizer porque não era um visitante assíduo de galerias. Fui fazendo o percurso normal: pouco depois, comecei a trabalhar e fiz-me sócio do Centro Português de Serigrafia – pagava uma quota e, de três em três meses, escolhia uma serigrafia de entre um conjunto que tinham. Rapidamente percebi que aquilo não me preenchia porque ter uma coisa que é um múltiplo de 200 é ter fotocópias de qualidade superior, não é ter uma obra. Preferia ter poucos originais a muitas serigrafias: comecei a comprar. Mas só nos tornamos coleccionadores quando começamos a armazenar.

Quando já não tem sítio em casa para colocar as obras?

E isso só me aconteceu na segunda metade dos anos 1990.

Parece-lhe que, por ter vivido em Londres, encara a arte portuguesa de outra forma?

Sempre achei que a arte contemporânea portuguesa tinha muita qualidade quando comparada com o que via lá fora. Porque é que fui para a arte portuguesa? Para já, porque era a arte de cá; depois, porque nunca achei que tivesse disponibilidade financeira suficiente para fazer uma colecção – uma coisa é fazer uma colecção internacional e outra é ter um conjunto de artistas estrangeiros. Eu gosto de conhecer os artistas: tenho vários artistas consagrados na colecção, mas também tenho muitos artistas novos.

A esse lado da descoberta de novos artistas, acresce uma certa dose de risco.

Mas eu nunca considerei a minha colecção como um investimento. Tenho mais de 300 artistas e nem sei o valor da colecção: se calhar, vale mais como conjunto do que a soma das partes mas é uma colecção feita a gosto e acho que é razoavelmente representativa da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 para a frente.

Tem ideia de quantas obras tem? E qual o seu alcance temporal?

Tenho peças anteriores a 1970 mas não definem a colecção. Eu tenho um Cesariny de 1948, tenho um Almada de 30 (até mais do que um), também tenho coisas do Vespeira dos anos 60 – fazem parte da colecção, são peças que são boas, algumas até marcantes dos seus períodos, mas não posso dizer que a colecção venha desde a data da obra mais antiga. Actualmente, a colecção terá à volta de 3000 peças – o número de peças é elevado porque, de alguns artistas, pode ter 30 ou 50 peças, num ou noutro caso pode ter 80. São núcleos de artistas que acompanhei.

O contacto com o artista é importante?

Os artistas dão-me mais do que eu lhes proporciono: eu só lhes proporciono dinheiro. A mim, eles proporcionam algo que perdura ao longo da minha vida. Sempre trabalhei no sector financeiro e eles pensam de uma maneira diferente. Podemos falar de outras perspectivas além do que é o meu dia-a-dia e, por esse ponto de vista, o contacto com os artistas enriquece-me.

Começou no desenho e na pintura.

A colecção tem, basicamente, quatro técnicas: pintura, desenho, escultura e fotografia. Tenho alguns vídeos mas não sou o maior fã da videoarte por uma razão: apesar de ter muita arte, não consigo estar um quarto de hora a ver uma obra de arte. Vejo mais do que 15 minutos mas não são seguidos.

E o seu olhar manteve-se sempre com a perspectiva original da obra caseira, em termos de escala?

A minha colecção tem três regras: o gosto, tenho que gostar das peças; as dimensões, têm que ter uma dimensão caseira no sentido de serem obras com as quais poderia viver; e as técnicas.

Em meados da década passada, decidiu tornar pública a sua colecção.

Conhecia a Adelaide Duarte, que é professora doutorada em Museologia e Coleccionismo Privado e é também curadora. A dada altura, ela trabalhou comigo na inventariação da colecção e eu lancei-lhe esta ideia de tornarmos a colecção pública. Decidi, então, falar com duas dúzias de municípios e os contactos que fizemos tinham um único critério: quis que ficassem até uma hora e meia de distância de Lisboa – o que dá para ir de manhã, ver as obras e voltar para almoçar, ou ir a seguir ao almoço e voltar para jantar em Lisboa. Fui a uma primeira reunião em Abrantes em Dezembro de 2015 e assinámos o contrato a 4 de Junho de 2016: foi muitíssimo rápido. A ligação estabelecida será por 10 anos, passível de ser renovada.

Há pouco disse que não consegue estar 15 minutos seguidos a olhar para uma obra de arte mas consegue estar 90 minutos a ver outra arte que o encanta – os jogos do Benfica.

A minha vida tem prioridades: não há exposição que se sobreponha a um jogo do Benfica no Estádio da Luz. Não deixo de ver arte por causa do Benfica mas, quando os dois mundos colidem, o Benfica vem primeiro.

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