Sábado, Maio 25, 2024

Lourdes Castro: “Não morremos, transformamo-nos”

Afonso Cerqueira

Nascida no Funchal, em 1930, Lourdes Castro cresceu com uma “infância com muito espaço. Ao pé do mar. Com calhau, com vinha, com cana-de-açúcar que a gente chupava. Assim de correr à vontade” – como contou ao Expresso na sua última entrevista, realizada também na Madeira, onde morreu no passado ano.
Foi também na sua ilha, no Club Funchalense, que fez a sua primeira exposição (1955), quando já estudava na Escola de Belas-Artes, em Lisboa.
É desse curso, que não terminou, a famosa a história dos seus estudos de nus, pintados a verde e azul, que um professor reprovou – escrevendo, a giz, a palavra “excluído” sobre os trabalhos. A recusa pelo cânone vigente foi assumida pela artista, deixando e incorporando a rejeição nas obras e dando-lhes mesmo esse título, com a mesma confiança do “salon des refusés” (1863) e a ironia dos pintores do Fauvismo – de que foi, aliás, devedora de inspiração –, que adoptaram o epíteto maldoso como bandeira do seu movimento.
Com René Bertholo parte para Munique, em 1957, e finalmente Paris, no ano seguinte. Num minúsculo “chambre de bonne” no sétimo andar da Rue des Saints-Pères, fundam a revista KWY (1958-1963) – as três letras que não existiam no alfabeto português – com Christo, Jan Voss, João Vieira e José Escada, Gonçalo Duarte e Costa Pinheiro. Com este grupo informal, mas que deixou referências e influência, Lourdes e René foram começando exposições e conhecendo os artistas. É desta altura a carta que Maria Helena Vieira da Silva escreve a Artur Nobre de Gusmão, referindo-se a Lourdes Castro assim:
“Ela alia a um carácter extremamente honesto e recto, fortes qualidades de dedicação, coragem e até heroísmo na sua via quotidiana. E especialmente é dotada de real e tangível talento artístico. Poucos jovens pintores portugueses em Paris nos têm inspirado tanta confiança e esperanças.”
Nos anos sessenta começa a diversificar os meios de expressão, da serigrafia à tela, o plexiglass e até o pano. Aliás, começa a produzir e a expor arte nos diversos meios pois, como a própria afirmou, nunca se reduziu `pintura apenas. As suas famosas sombras evoluem também, das “sombras deitadas” ao teatro de sombras (com Manuel Zimbro).
Sejam objectos ou movimentos do quotidiano, as sombras simplificam e generalizam, abrem-se a ser reconhecidas e transmutadas no essencial. Como que reciclando o quotidiano para criar novos significados, aproximando-se dos Nouveaux Réalistes. E, no teatro das sombras, que realizou desde 1966, representava as interacções e acções conotadas com o feminino. Em 1970, na sua exposição na Galeria 111, João Vieira e Manuel Pires filmam esse teatro e apresentam o filme” Lourdes Castro- Sombras: Efeitos de Luz e Cor”, filmado no teatro Laura Alves.
Quase todos os textos evocativos da pintora madeirense comentam, e bem, ou dão voltas ao mote das suas sombras. São o lado mais identificativo da sua obra mais conhecida, e sobre elas explicou Lourdes Castro: “A sombra é isso: tem tudo o que tem o objecto, mas o mínimo possível para ser reconhecido”.
A sombra tem ainda esse lado etéreo e transcendente, como no conhecido “Anjo de Berlim” (com Manuel Zimbro) cuja reprodução ampliada o Cardeal D. José Tolentino (outro madeirense) colocou atrás do altar da Capela do Rato. O anjo foi feito para colocar na janela, em Berlim onde é costume as famílias decorarem os prédios na altura do Natal. E onde o casal Lourdes Castro e Manuel Zimbro decidiram criar, e iluminar, assim a sua casa. Tudo isto no explica o Cardeal-poeta, no artigo Santa Lourdes Castro: “a Lourdes ensina a ver o natural e a natureza como nunca o vimos. Não é por acaso que, como ela gosta de dizer sorrindo, é ‘alguém que se ocupa da sombra’. A sombra funciona como uma espécie de educação para aquilo que as nossas práticas tornam invisível. A arte de Lourdes Castro devolve-nos o esplendor do real sem ocultações, nem parcialidades: um real até ao fim, onde a sombra é transcrita e valorizada.”
Foi da sua casa, na Madeira, que a natureza, as flores e o seu jardim passaram para a sua obra, culminando no “Grande herbário de sombras” ou nas ilustrações do livro “A História da minha flor”.
Como na primeira linha do poema “Los justos” -” cultiva su jardin, como quería Voltaire” – sobre as pessoas que, sem sabermos, estão a salvar o mundo, Lourdes Castro tratou, cultivou e mondou o jardim, no Funchal, que criou com Manuel Zimbro. E, provavelmente sem o saber, salva-nos.
Foi nesse mesmo jardim que nos disse, através da referida última entrevista que deu a João Pacheco (Expresso) que “não morremos, transformamo-nos. Podemos virar terra, mas não desaparecemos”.

Partilhe este artigo:

- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

Um país na flor da idade

Nos últimos 20 anos Angola sofreu inúmeras transformações, desde a mais simples até à mais complexa. Realizou quatro eleições legislativas, participou pela primeira vez numa fase final de um campeonato do mundo, realizou o CAN e colocou um satélite em órbita.

David Cameron

David Cameron foi Primeiro-Ministro do Reino Unido entre 2010 e 2016, liderando o primeiro Governo de coligação britânico em quase 70 anos e, nas eleições gerais de 2015, formando o primeiro Governo de maioria conservadora no Reino Unido em mais de duas décadas.

Cameron chegou ao poder em 2010, num momento de crise económica e com um desafio fiscal sem precedentes. Sob a sua liderança, a economia do Reino Unido transformou-se. O défice foi reduzido em mais de dois terços, foram criadas um milhão de empresas e um número recorde de postos de trabalho, tornando-se a Grã-Bretanha a economia avançada com o crescimento mais rápido do mundo.

Conferências com chancela CV&A

Ao longo de duas décadas, a CV&A tem vindo a promover conferências de relevo e interesse nacional, com a presença de diversos ex-chefes de Estado e de Governo e dirigentes políticos de influência mundial.

As idas e vindas da economia brasileira nos últimos 20 anos

Há 20 anos, o Brasil tinha pela primeira vez um presidente alinhado aos ideais da esquerda. Luiz Inácio Lula da Silva chegava ao poder como representante máximo do Partido dos Trabalhadores (PT).

Uma evolução notável e potencial ainda por concretizar

Moçambique há 20 anos, em 2003, era um país bem diferente do de hoje. A população pouco passava dos 19 milhões, hoje situa-se em 34 milhões, o que corresponde a um aumento relativo de praticamente 79%, uma explosão que, a manter-se esta tendência será, sem dúvida, um factor muito relevante a ter em consideração neste país.

O mundo por maus caminhos

Uma nova ordem geopolítica e económica está a ser escrita com a emergência da China como superpotência económica, militar e diplomática, ameaçando o estatuto dos EUA. Caminhamos para um mundo multipolar em que a busca pela autonomia estratégica está a alterar, para pior, as dinâmicas do comércio internacional. Nada será mais determinante para o destino do mundo nos próximos anos do que relação entre Pequim e Washington. A Europa arrisca-se a ser um mero espetador.

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -