Terça-feira, Agosto 16, 2022

Isabela Figueiredo: A escritora da nova narrativa do passado colonial

Catarina da Ponte

Nasceu em 1963, em Lourenço Marques (actual Maputo), capital de Moçambique. Reconhecida como uma das principais autoras da literatura lusófona na actualidade, foi nomeada para o Prémio Femina Estrangeiro 2021 – um dos mais importantes galardões literários franceses – com o livro “Caderno das Memórias Coloniais”, lançado em 2009, pela editora Angelus Novus e reeditado, em 2015, pela Editorial Caminho, com o texto original revisto e aumentado pela escritora, e prefácios de Paulina Chiziane e José Gil. Para este filósofo português “nenhum livro restitui, melhor do que este, a verdade nua e brutal do colonialismo português em Moçambique”. Podemos lê-la no seu blogue Novo Mundo Perfeito (antes Mundo Perfeito), que esteve na génese do livro, pois foi neste espaço digital que começou a escrever os seus primeiros textos sobre a infância em Moçambique, sobre o racismo dos colonos portugueses e sobre o pai. Actualmente, realiza ‘workshops’ de escrita criativa e participa em seminários e conferências sobre as suas principais áreas de interesse: estratégias de poder, de exclusão/inclusão, colonialismo dos territórios, géneros, corpo, culturas e espécies. Colabora pontualmente com a imprensa, nomeadamente com o jornal Público e encontra-se a preparar o seu quarto livro sobre animais e trabalho.
A sua história de vida é indissociável da sua obra literária. Em “Caderno das Memórias Coloniais”, Figueiredo fala, não só, do passado colonial de Portugal, mas também, da sua visão sobre o pai, um electricista português radicado em Moçambique, que desprezava e explorava os nativos. Quando publicou este livro, a escritora disse ao seu editor da altura, Osvaldo Silvestre (da Angelus Novus), que estava consciente que ia abrir uma caixa de pandora ao contar uma nova narrativa dos retornados: “Eu tenho medo de ir aos lançamentos. Tenho medo de ser atacada, de que me façam mal…”, confessa numa entrevista que deu ao Jornal Expresso, em 2017.
Um ano após a sua publicação, a obra foi eleita como uma das obras mais relevantes da década pela escritora Maria da Conceição Caleiro e pelo ensaísta Gustavo Rubim no especial publicado pela revista de cultura Ípsilon (suplemento de artes do jornal Público).
Isabela Figueiredo veio para Portugal sozinha, com quase 13 anos, logo após a independência de Moçambique, em 1975, para viver em casa da avó. Foi testemunha do 25 de Abril e da descolonização. Esteve afastada dos seus pais 10 anos. Fez o possível para que não percebessem que era retornada, agarrou-se aos livros e aos estudos. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e especializou-se em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Aberta. Nomeia sempre como seu grande mestre o professor Abel Barros Baptista, que lhe “abriu a mente”. Publicou os seus primeiros textos, em 1983, com 20 anos, no DN Jovem, o extinto suplemento do Diário de Notícias. Foi jornalista do Diário de Notícias, entre 1989 e 1994, e professora de português no ensino secundário, entre 1985 e 2014.
Em 1988 lança o livro “Conto É Como Quem Diz” novela que recebeu o primeiro prémio da Mostra Portuguesa de Artes e Ideias e em 2016, publica “A Gorda”, livro vencedor do Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues, baseado na sua história pessoal para abordar temas como identidade, género, sexo, padrões estéticos e relações sociais. Em 2018, fez parte da delegação de autores de língua portuguesa na Feira do Livro de Leipzig. Mais tarde nesse ano esteve em Berlim um mês com a Bolsa de Residência Literária do Camões Berlim.

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