Domingo, Fevereiro 25, 2024

Herman José: O Senhor Feliz das Inesquecíveis Personagens

Catarina da Ponte

Nasceu a 19 de Março de 1954, em Lisboa. Sem ele, o humor em Portugal não seria o que é hoje. Pratica, desde os anos 80, um humor culto, inovador e vernacular, ocupando um lugar ímpar no universo artístico nacional. Imortalizou várias personagens que continuam a fazer parte do imaginário colectivo há quase meio século. O Senhor Feliz (1975), Tony Silva (1982), José Estebes (1983), Serafim Saudade (1985), Diácono Remédios (1997), Super Tia (1997/98), Nelo (2000), Melga (1997) e a recente influencer “Tia Lecas” (2021), são apenas alguns dos “bonecos” que têm resistido ao tempo e ao esquecimento. Nasceram ao “ritmo” da sociedade portuguesa em programas de humor, concursos, ‘talk-shows’ e espectáculos ao vivo. Ao longo de 48 anos de carreira, o “pai” do humor português tem colocado o seu talento, a sua criatividade e a sua inesgotável capacidade de trabalho ao serviço da escrita humorística, da representação, da realização e da música. Os seus espectáculos conseguem cativar todos os estratos socioculturais e resultam em todos os palcos, dos mais populares aos mais eruditos. Construiu um reportório intergeracional, tanto em Portugal como na diáspora portuguesa. Considera que o humor são as cócegas da inteligência. É apreciador do humor do lendário comediante norte-americano, Don Rickles e da actriz, comediante e apresentadora norte-americana, Joan Rivers, conhecida como a “rainha da comédia americana” (ambos já falecidos). É também um grande fã do cineasta e actor norte-americano, Woody Allen.

O humor e a capacidade de improviso fazem parte da vida de Herman José desde a infância, sobretudo como ferramentas desbloqueadoras de situações complicadas. Aos quatro anos, já protagonizava os filmes do pai (cineasta amador), que lhe deu a conhecer a parte mais técnica do audiovisual ao introduzi-los nas filmagens com a Super 8. Fazia também espectáculos de humor e música para as visitas lá de casa e chegou a ganhar cachês de cinco escudos, que uma amiga da mãe lhe oferecia após cada actuação. Com 18 anos, em 1972, faz a sua primeira aparição em televisão num programa juvenil, como baixista de um trio chamado “Soft”. Dois anos depois, em Outubro de 1974, sobe ao palco do já inexistente Teatro ABC (no Parque Mayer, em Lisboa), estreando-se na peça “Uma no Cravo, Outra na Ditadura” ao lado de nomes como Ivone Silva, Nicolau Breyner, José de Castro, João Lagarto. Em 1977 lança o disco “Saca o Saca-Rolhas”, e, no ano seguinte, decide sair da capital e percorrer o país com o seu espetáculo “One Man Show”. Em 1978, junta-se a Raul Solnado e Rita Ribeiro no elenco da peça “Felizardo e Companhia, Modas e Confecções”. O seu primeiro grande êxito a solo deu-se com a interpretação da personagem Tony Silva, no programa da RTP, “Passeio dos Alegres”, em 1981. Em 1982 foi disco de ouro com o tema “Canção do Beijinho”. Nesse mesmo ano, estreia-se na Rádio Comercial com o programa “Rebéubéu Pardais ao Ninho”. Escreveu, protagonizou e dirigiu os programas da RTP “Tal Canal” (1983), que foi eleito, em 2007, o melhor programa de televisão dos últimos 50 anos, numa votação promovida pelo jornal Diário de Notícias e pela Time Out. Seguiu-se o “Hermanias” (1985) e “Humor de Perdição” (1987). Este último ficou para a história da televisão por se ter tornado no primeiro caso de censura explícita após o 25 de Abril. Em causa estava a sua “entrevista histórica” (uma rubrica do programa) à Rainha Santa Isabel que foi considerada um atentado aos valores históricos. O seu regresso à televisão deu-se em 1989, com o programa “Casino Royal”. Em 1990, começou a apresentar o concurso “Roda da Sorte” e, entre 1992 e 1996, apresentou o programa “Parabéns”, onde inaugura um espaço ‘talk-show’, por onde passam figuras como Ramalho Eanes, Mário Soares, Amália Rodrigues, Carlos Lopes, João Moura, Armando Baptista-Bastos, Paulo de Carvalho, Tony Bennett, Roger Moore, Cher, Kylie Minogue, Omar Sharif, Joan Collins, Isabel Pantoja e Lola Flores. Em 1994, deu-se a estreia de um concurso diário da sua autoria, “Com a Verdade M’Enganas”. Em 1997, fez, uma vez mais para a RTP, o programa “Herman Enciclopédia”, “Herman 98” (1998) e “Herman 99” (1999). Foi neste programa que recebeu o Prémio Nobel da Paz, Ramos Horta, o primeiro a que o timorense aceitou ir. No ano seguinte, mudou-se para a estação de televisão SIC, onde se estreou com o programa “HermanSIC”, em 2000, ao qual levou personalidades internacionais de renome como Mónica Naranjo, Anastasia, Sting, Julio Iglesias, Enrique Iglesias, Lionel Ritchie, Ute Lemper, Gloria Estefan, No Doubt, Shania Twain, Djavan, Mark Knopfler, Jamie Cullum, Norah Jones, David Copperfield, Tom Jones, Sandy & Junior entre muitos outros. Foi também neste ano que protagonizou o filme televisivo “O Lampião da Estrela”. Em 2007 estreia um programa de ficção humorística “Hora H” e, um ano depois, lança a versão portuguesa de “Chamar a Música”. Volta, nesse mesmo ano, a apresentar a “Roda da Sorte”, na SIC. Em 2009, aceita o convite de José Eduardo Moniz e muda-se para a TVI, onde apresenta o ‘talent-show‘ “Nasci P’ra Cantar”. Nesse ano, lança também o álbum “Adeus, vou ali já venho” e retoma em força a sua actividade ‘on the road’, com o espectáculo “Homem dos Sete Instrumentos”. Em 2010, regressa à “sua” casa, a RTP, de onde partira 11 anos antes, e apresenta o “Herman 2010”, “Herman 2011”, “Herman 2012” e “Herman 2013”. Em 2014, comemora os seus 40 anos de carreira, sobe o mote “40 Anos, Sempre A Bombar”, título que deu origem também a uma canção comemorativa que lançou para assinalar a efeméride. Em 2015, regressa ao humor com as personagens Nelo e Idália (do Herman SIC). Em 2016, estreia o programa “Cá Por Casa”, um ‘talk show’, que continua até hoje a passar no pequeno ecrã às quartas-feiras à noite na RTP 1. Pelo caminho, foi empresário (proprietário do restaurante Café-Café e dono de um dos teatros mais emblemáticos de Lisboa, o Tivoli), mas é nos palcos que se sente feliz e realizado.

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