Sexta-feira, Maio 20, 2022

Educação e Tolerância

António Cunha Vaz, Presidente da CV&A

A Prémio que agora lhe chega às mãos foi propositadamente atrasada um mês para poder retratar com algum detalhe um ano de eleições acontecidas e a acontecer. De África à Europa, passando pela América Latina, muitos actos eleitorais mostram e mostrarão que a democracia é um regime que cada vez mais – nas suas formas mais ou menos perfeitas – impera.

Contamos, de novo, nas nossas páginas, com um elenco de entrevistados de luxo, com artigos internacionais de qualidade e com um vasto leque de articulistas, quer regulares, quer pontuais que engrandecem qualquer publicação. Valeu a pena este atraso de um mês para assegurar a qualidade do produto que levamos até si. Respondendo, também, a sugestões de alguns leitores, limitámos os artigos em língua não portuguesa àqueles que de origem assim são escritos. Se é verdade que os portugueses sabem ler outras línguas, também é verdade que é para eles que escrevemos e que outros cidadãos, de diferentes nacionalidades, também compreendem a língua portuguesa.

Quando há democracia há esperança num mundo melhor. Não falo de eleições, mas de democracia. Quando há conflitos, sejam eles frios ou quentes, a democracia periga. A Rússia, a Ucrânia e a Nato são vértices de um triângulo potencialmente explosivo e, claro, prejudicial aos que defendem que a democracia, por pior que seja como regime, é sempre o menos imperfeito de todos eles. O mesmo se pode dizer de diversas geografias mundo fora. Os perigos são imensos e apenas uma arma – curiosamente, resolvi chamar-lhe assim – é capaz de impedir o regresso a passados sombrios, mas que, sejamos transparentes, sempre fizeram parte da história da humanidade.

As guerras sempre existiram, mas a periculosidade das mesmas é hoje maior do que nunca. Quando falo de guerras refiro-me aos seus mais diversos formatos. Os diversos géneros de terrorismo, os conflitos bélicos tradicionais, as guerras frias e, claro aquelas que esperamos nunca vir a ter e que se reduzem a um carregar de botão em local muito distante daquele onde os danos vão ocorrer. As guerras de hoje, em África, são mortíferas, mas os atentados à vida humana perpetrados ou com a conivência de estados soberanos contra etnias que compõem as suas próprias populações noutras regiões do mundo, os refugiados, políticos ou religiosos, são tão mortíferos quanto as primeiras. E a avaliação da crueldade das “guerras” e suas sequelas não se faz apenas pelas vítimas mortais: os chamados traumatizados de guerra, sejam-no física ou psicologicamente, são vítimas que carregam para toda a sua vida um fardo difícil de imaginar.

Os interesses por detrás das guerras, de qualquer género, repito, podem ser de muitas índoles e ficarão sempre na sombra. Por muitos filmes sobre o tema que vejamos, por muita criatividade de argumentistas nunca chegará ao conhecimento do comum dos seres humanos o real porquê de um conflito na sua dimensão global. Que pode levar um fanático a matar com gás uma série de inocentes num metropolitano de uma qualquer cidade ou que pode levar que em nome de Deus (chame-se o nome que se lhe quiser chamar) se façam explodir aviões contra edifícios? Será, mesmo, fanatismo religioso, racismo, xenofobia? Sobretudo, será mesmo da autoria dos executores materiais a ideia do crime? As perguntas vão ficando no ar e a recente teatralização – esperemos que seja só isso – da situação na Ucrânia mostra bem quão sensível é a situação no mundo.

Terá Putin a responsabilidade do que se vem passando por força de uma tentação hegemónica? Será legítimo interferir na decisão de um país soberano e impedi-lo de aderir a uma organização multinacional? As respostas avolumam-se e há uma série de especialistas – ontem de covid e hoje de guerra fria – que tentam elucidar-nos, quanto mais não seja dizendo coisas como “sei muito mais do que posso dizer”. Por mais novelas que construam e elas são tantas que corremos o risco de algum deles acertar, o resultado final é uma espécie de resultado eleitoral quando comparado com as sondagens.

Repito o que disse no início: “Os perigos são imensos e apenas uma arma – curiosamente, resolvi chamar-lhe assim – é capaz de impedir o regresso a passados sombrios, mas que, sejamos transparentes, sempre fizeram parte da história da humanidade.” A Arma é a educação dos povos e o seu carregador chama-se tolerância. Povos educados e tolerantes constroem futuros mais risonhos para si próprios e seus vizinhos. E o mundo é uma enorme vizinhança. É um bairro, que se quer democrático, povoado pela raça humana, nas suas variantes diversas, tão mais perfeito quanto mais letrada e tolerante for a sua gente. Por alguma razão os extremismos nascem e medram em terra de descontentes, de frustrados.

A democracia portuguesa, melhor que muitas, ainda tem muito que se lhe diga. Sofreu, em minha opinião, um revés nas últimas eleições. O crescimento de um partido populista dito de direita é revelador da existência de fragilidades no desenvolvimento harmónico da sociedade. O desaparecimento de um dos partidos fundadores da democracia também é revelador, embora se deva dizer que o que sucedeu ao CDS/PP tem muito de culpa própria dos seus dirigentes. Já as maiorias absolutas não nos assustam, sobretudo quando delas resulta o enfraquecimento de uma esquerda retrógrada – embora coerente – e de outra tão populista como a direita mais radical e evangélica – o Bloco de Esquerda. Deseja-se o fortalecimento da democracia, que é o mesmo que dizer que dois partidos fortes são melhores que um só. Deseja-se que os partidos de pendor democrático sejam muitos e fortes.

2022 começa sombrio. Esperemos que com o chegar da Primavera os campos floresçam, a começar pela revisão da lei eleitoral e pela coragem de responsabilizar quem, como os autores do erro monumental com os votos dos emigrantes, retira credibilidade a um acto democrático, transparente e sereno com o do passado dia 30 de Janeiro.

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