Terça-feira, Agosto 16, 2022

Aqui, a Arte e os Artistas estão num porto seguro

Ricardo David Lopes

A ideia começou a germinar em 1991, por causa do desafio lançado por sete pintores angolanos que tinham, um ano antes, exposto obras suas, dando cores vivas ao 12.º aniversário da ENSA. A companhia de seguros angolana tem, no seu ADN, um gene que a faz gostar de acarinhar as artes plásticas e os artistas. criar um prémio anual para homenageá-los foi um passo natural. E assim nasceu o ENSA Arte, que vem crescendo até hoje, mesmo com os percalços do caminho, promovendo o melhor das artes plásticas em angola e muitos talentos.

GRANDE PRÉMIO DE PINTURA

1.º CLASSIFICADO

GRANDE PRÉMIO DE ESCULTURA

1.º CLASSIFICADO

Começou por ser uma ideia de sete pintores angolanos, em 1990, e hoje é muito mais do que um prémio de artes plásticas: é uma instituição, uma homenagem à angolanidade e um ponto de encontro de experiências e tendências, que promove e desenvolve as artes e os artistas nacionais, projectando o seu nome e criatividade no País e no exterior. É tudo isto o Prémio ENSA Arte, mas mais ainda: ao longo dos anos, a iniciativa da companhia de seguros líder em Angola permitiu a constituição de um acervo com cerca 225 obras que, um dia, mais ou menos breve, serão expostas num espaço com a dignidade que é devida à mostra das grandes colecções de arte.

À PRÉMIO, Augusto Tito Mateus, assessor de Direcção da ENSA Seguros de Angola e um dos rostos mais conhecidos do ENSA Arte, explica que este é, ainda hoje, o único concurso de artes plásticas existente em Angola de nível nacional, uma iniciativa levada a cabo anualmente, por ocasião do aniversário da companha de seguros, a 15 de Abril. A pandemia de Covid-19 obrigou a que, no ano passado, decorresse ‘online’, após um ano de interrupção – pelo mesmo motivo. Antes, apenas a Guerra Civil colocara um parenteses na causa.

“A iniciativa deste prémio surgiu de uma exposição de sete pintores angolanos, em 1990 – Viteix, Henrique Abranches, Augusto Ferreira, Jorge Gumbe, António Ole, Telmo Vaz Pereira e José Zan Andrade, comissariada por Viteix, no âmbito das comemorações do 12.º aniversário da ENSA”, recorda Augusto Tito Mateus.

Foi então que surgiu “a ideia de instituir um prémio que traduzisse a vontade da empresa de contribuir para a elevação da consciência e da cultura nacionais e que incentivasse a criatividade dos artistas angolanos que, mesmo em condições adversas, continuaram, ao longo dos últimos anos, a desenvolver a sua actividade, prossegue o responsável.

E foi assim que foi instituído o Prémio ENSA de Pintura, em 1990, cuja primeira edição teve lugar em Abril de 1991. Foi vencedor o renomado pintor Vitor Teixeira (Viteix), com a obra “Banda Jazistica”, que lhe valeu ainda uma deslocação a Londres, a convite da Jardine Insurance Brokers. Nesta primeira edição, foi vencedor do segundo prémio o pintor Kyel (“3987”).

Com o advento da Guerra Civil, o projecto ficou suspenso, entre 1992 e 1995, sendo retomado em 1996, já como ENSA Arte, com novo regulamento e com abertura para integrar outras disciplinas, na altura, a escultura, que se mantém até hoje. “De então para cá, o ENSA Arte foi evoluindo em termos de regulamento e de artistas, e começam a criar-se as diferentes categorias: o Grande Prémio (primeiro e segundo lugares), o Prémio Juventude – que fez “surgir” nomes como Fineza Teta, ou Hildebrando de Melo, entre muitos outros, que começaram a ganhar notoriedade graças a esta iniciativa”.

E foi também então que a ENSA começou a enriquecer o seu acervo, com as obras premiadas a reverterem a favor da Companhia, juntando-se a outras que, por um motivo ou por outro, não tendo sido premiadas, a empresa adquiriu.

Caminhar de mãos dadas

“A ENSA sempre deu a mão e fez o seu trabalho com os artistas, ouvindo-os, ajudando-os, na ausência de uma Lei do Mecenato. A ENSA sempre integrou esta perspectiva na sua gestão”, refere Tito Mateus, que dá conta das “tonalidades” deste apoio às artes e a quem as produz e cria.

“Não se trata de apoio directo. É uma questão de Responsabilidade Social que a empresa vem assumindo para com as artes e os artistas plásticos, premiando as obras e os seus autores, não apenas do ponto de vista monetário, mas ainda com a oferta de ‘kits’ de pintura e escultura, com materiais que nem sempre abundaram ou abundam, ainda hoje, em Angola”, prossegue o assessor.

No fundo, resume-se assim: “É uma questão de incentivar”. E o caminho, garante Tito Mateus, foi feito lado-a-lado, de mão dada com os artistas plásticos, que foram sendo ouvidos – não tivessem sido eles quem, afinal, lançou o desafio, já lá vão mais de 30 anos. “As melhorias nos regulamentos, por exemplo, foram sendo introduzidas ouvindo os artistas, as suas preocupações, aspirações, contributos”, afirma.

O número de obras candidatas tem, em regra, vindo a subir de ano para ano, mais na pintura, diz o responsável, dando mais trabalho ao júri que, no mês de Janeiro, dá início à selecção das que ficam, anónimas – isto é, sem que os seus próprios elementos saibam de quem são – para análise.

“A profissionalização do júri tem sido notória e decisiva para a qualidade e afirmação do ENSA Arte, com a inclusão de elementos de elevado valor, de áreas distintas”, destaca Tito Mateus. A lista de membros, ao longo dos anos, é extensa, pelo que seria sempre injusto excluir alguém pessoalmente, mas dela fizeram ou fazem parte ilustres escritores, antropólogos, artistas plásticos, académicos, historiadores, críticos de arte, jornalistas, dramaturgos, actores, argumentistas, poetas, curadores, etc.

GRANDE PRÉMIO – ESCULTURA

1º CLASSIFICADO

VIRGÍLIO JOÃO MANUEL PINHEIRO

“SAGRADA ESPERANÇA”

MENÇÃO HONROSA – PINTURA

ADRIANO JOÃO LUÍS GASPAR

“MUANA PUÓ”

MENÇÃO HONROSA – PINTURA

PAULO FERNANDO KUDISSUCA

“AMBICIONEI ATÉ À MENOPAUSA”

MENÇÃO HONROSA – ESCULTURA

VALERIANO KAPOKO

“O TEMPORIZADOR HUMANO”

Ser notado

Ganhar o Grande Prémio é, naturalmente, o sonho de todos. Mas, mesmo os que não levam troféus para casa, só por participarem, acabam por ser, de alguma forma, vencedores. “A simples participação traz-lhes notoriedade, reputação, as suas obras ganham projecção, são valorizadas. E os artistas podem ser agenciados, o que irá abrir-lhes portas”, sublinha Tito Mateus.

O ENSA Arte ajudou a catapultar para a ribalta, dentro e fora de Angola, nomes que, hoje, poucos desconhecem. “O Cristiano Mangovo, que está agora em Inglaterra, vendia no Deskontão [supermercado no Nova Vida, arredores de Luanda]”, recorda o responsável que, por várias vezes tem representado a seguradora no júri. “Na altura, ninguém dava muito pelas obras do Mangovo, os seus preços eram módicos… hoje, vende em libras”.

Também Guilherme Mampuya ganhou nome por via do ENSA Arte. “Ele vendia na Praça do Artesanato, foi primeiro prémio em 2006, e hoje é um artista de renome internacional”, conta.

Evolução e inovação são os “nomes do meio” do ENSA Arte, que hoje se assume como “uma instituição”. Em 2010, deu-se início a uma parceria, que perdura até hoje, com a Alliance Française, que tem levado a residências artísticas em França muitos talentos angolanos – que voltam do país europeu mais “ricos” em saber, com mais mundo, mas também, ou sobretudo, com experiências e vivências que os marcam para sempre.

O escultor António Toko, os pintores Cristiano Mangovo, Ricardo Kapuca e José Girão dos Santos, o fotógrafo Luís Damião são exemplos de angolanos que esta parceria já levou a França. Miguel Beleza foi o vencedor de 2022 nesta categoria (ver caixa).

Mas o ENSA-Arte também tem ganho asas por outras vias. Talvez o caso mais emblemático de projecção de obras angolanas no exterior tenha ocorrido aquando da 55.ª Bienal de Artes Visuais de Veneza, em 2013, uma exposição constituída por 25 artistas angolanos sob o lema “Angola em Movimento”.

O ENSA Arte levou obras, que ficaram expostas durante seis meses, juntamente com trabalhos de Edson Chagas. O grande prémio para uma representação nacional foi para Angola, pelo projecto “Luanda, Cidade Enciclopédica”, com 23 fotografias do artista, que antes havia sido fotojornalista.

Depois, obras do ENSA Arte expostas em Veneza andaram numa espécie de ‘tournée’. Em 2014, seguiram para Roma, para o Museu Pigorini, com o tema “Agenda Angola”; na capital italiana também foram expostas peças na Sede da FAO. E, depois, Portugal, com a exposição “Ao Encontro das Artes Plásticas”, no Palácio Marquês de Pombal, em Lisboa.

A companhia de seguros levou ainda a cabo o ciclo de palestras intitulado “A arte, o artista e a sociedade”, no SIEXPO – Salão Internacional de Exposições de Arte do Museu Nacional de História Natural, em Luanda, em Agosto de 2008, enquadrado nas comemorações do 30.º aniversário da empresa e no âmbito do Prémio ENSA Arte, de que resultou ainda um livro com as comunicações dos palestrantes. E, mais tarde, viria a ser editada e lançada a obra “Colecção ENSA ARTE”.

Em Angola, admite Augusto Tito Mateus, não há ainda uma sala de exposições à altura da dimensão do acervo da seguradora. A criação de uma Fundação é uma das ideias do Plano Estratégico da empresa, que se mantém em curso, estando as suas mais de 200 obras já catalogadas e avaliadas. Um dia, mais tarde ou mais cedo, a Fundação será uma realidade, assegura o responsável.

Em 2015, também houve exposição de parte do acervo em alusão aos 40 anos da independência no Centro Cultural Brasil Angola, em 2020, no âmbito dos 45 Anos de Independência, no evento “Arte Contemporânea Angolana – Acervo ENSA Arte – 30 anos de mecenato para a arte contemporâneoa angolana”, no Arquivo Nacional de Angola.

UM EVENTO ESPECIAL

A XVI Edição do Prémio ENSA Arte, que decorreu no Palácio de Ferro em Luanda, em Maio passado, ficou marcada pela qualidade (habitual) das obras selecionadas, mas também desta vez pelo significativo reforço dos valores dos prémios monetários atribuídos aos artistas, com aumentos acima dos 50% face à última edição. A concurso, nesta edição que assinalou o 31.º aniversário da ENSA, foram 213 obras de obras, das quais 163 de pintura, 41 esculturas e nove cerâmicas.

Carlos Duarte, Presidente do COnselho de Administração da ENSA, reafirmou compromisso da Companhia com a promoção das artes e dos artistas plásticos angolanos. Com esta edição do Prémio ENSA Arte, que contou uma vez mais com o apoio do Ministério da Cultura da República de Angola e da Alliance Française, “cumpre-se mais uma etapa da história da ENSA, que não está só dedicada à sua actividade principal. A ENSA dedica-se também às causas que unem os angolanos e lhes abre o mundo. O ENSA Arte é um dos maiores exemplos”.

O gestor destacou o acervo que a Companhia foi construindo ao longo do tempo, reafirmando esperar que “em breve possa ser exposto em permanência ao público em geral”.

O júri desta edição, comissariada por Miguel Gonçalves, foi composto por Florence Duaze-Bonnet, directora da Alliance Française de Luanda (presidente do júri), Adriano Mixinge, historiador e crítico de arte (secretário do júri), Paulo Mendes, crítico de arte internacional e artista plástico, João Domingos Mabuaka (Mayembe) e Mário Tendinha, artistas plásticos, e Augusto Tito Mateus, representante da ENSA.

(Fotos gentilmente cedidas pela ENSA)

Partilhe este artigo:

Artigo anteriorO grande desafio do cinema
Próximo artigoO Feijão e o Sonho
- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

“Sem o esforço dos privados, o Estado Português não teria conseguido fazer frente à pandemia”

Em entrevista à PRÉMIO, José Germano de Sousa, patologista clínico e presidente do Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa, falou-nos do seu percurso enquanto médico, passando pelo cargo de Bastonário e do crescimento da sua rede de laboratórios, que se posicionam em termos de análises na área da patologia clínica como o principal ‘player’ nacional do sector, sendo actualmente responsáveis por cerca de 15 a 16% dos testes Covid que se realizam em Portugal.

Tal&Qual: ponto final, parágrafo…

José Paulo Fernandes Fafe, Antigo jornalista, accionista maioritário da empresa proprietária do "Tal&Qual"

“Honne to Tatemae”

Sónia Ito, Arqueóloga e Professora

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -