Terça-feira, Agosto 16, 2022

WOW: um quarteirão de experiências com o vinho a pretexto

De frente para o Porto, o WOW – World of Wine está a revolucionar a zona histórica de Vila Nova de Gaia, com um conceito de “quarteirão cultural” que surpreende pela dimensão, ousadia e diversidade de opções. O projecto tem a visão de Adrian Bridge, que já tinha imaginado o Yeatman, onde antes só havia caves do Vinho do Porto. Mas a concretização justifica a visita e um brinde a comemorar. 

Nélson Soares

Um projecto como o WOW – World of Wine era difícil de imaginar para quem visitasse a zona histórica de Gaia há 20 anos. Então, a área coberta de velhos armazéns do Vinho do Porto era um espaço urbano apagado, com escassa agitação turística e muito menos “tendência” do que o vizinho e moderno Cais de Gaia. A história posterior é mais conhecida: o ‘boom’ turístico do Porto, o crescimento exponencial de visitas às caves e a abertura do Yeatman vieram revolucionar a paisagem física e cultural da cidade que olha a Invicta de frente. 

A curiosidade e a ironia desta transformação é que ela, apesar de potenciar costumes, produtos e património bem portugueses, foi idealizada por um cidadão inglês. Adrian Bridge, CEO do grupo Fladgate Partnership, viu um potencial turístico na margem do sul do Douro que estava por explorar e arriscou: abriu o Yeatman em 2010, numa altura em que não havia hotelaria de luxo na zona; 10 anos depois, ousou lançar a ideia de um “quarteirão cultural” – o conceito através do qual o WOW se define – reabilitando um conjunto de edifícios mais ou menos devolutos, nas imediações do hotel. “Ele [Adrian Bridge] é a prova de que as coisas acontecem, se formos perseverantes”, considera Ana Maria Loureço, relações-públicas do espaço, recordando o arrojo que representou lançar um hotel ‘premium’ em Vila Nova de Gaia “quando não se passava nada” do outro lado do Douro. “A verdade, é que depois disso abriram outros hotéis cinco estrelas, a cobrarem os mesmos preços e o turismo no segmento luxo é uma realidade do lado de cá”, reforça. 

O CEO da Fladgate Partnership, na perspectiva da responsável pela comunicação do WOW, tem a virtualidade de extrair o potencial das coisas e saber desenvolvê-lo. “Olha e vê histórias que merecem ser contadas, nas quais nós, portugueses, não vemos grande mérito”, sugere, assumindo que essa foi a visão conceptual que conduziu ao ambicioso conteúdo do WOW: produtos com afinidade ao vinho – como a cortiça, o vidro ou o chocolate – e práticas com tradição regional, como a produção têxtil. 

É este o ‘corpus’ dos museus (ver caixa) que constituem a espinha dorsal deste monumento de experiências. “Começámos como World of Wine, mas hoje somos cada vez mais o efeito WOW, porque há uma coisa nova que se revela em cada esquina”, descreve Ana Maria Lourenço, que, imbuída do mesmo espírito do CEO, acredita estar perante um conceito “único no mundo” e que o próprio “Cité du Vin”, em Bordéus, – muitas vezes invocado como semelhante – só é comparável em parte a este espaço instalado no coração das caves do Vinho do Porto. “O nosso museu The Wine Experience não lhe fica nada a dever e, mesmo assim, estamos a falar de apenas um museu. Nós temos mais seis, além dos restaurantes e de todas as outras experiências”, refuta a relações-públicas. 

A perspectiva não é imodesta, porque o WOW faz justiça à onomatopeia e é um espanto dos pés à cabeça, com uma diversidade de escolha que vai da simples contemplação da vista sobre a Ribeira do Porto, no elegante bar Angel’s Share; às artes plásticas, pastelaria, moda ou escola de vinhos. Tudo com uma abordagem contemporânea, notável harmonia visual e sempre à procura de proporcionar a melhor experiência ao público. “O nosso objectivo é que as pessoas tirem um dia para virem ao WOW. Queremos um turismo de longo prazo, onde as pessoas venham cá mais tempo e mais vezes. [O projecto] está feito para que os visitantes venham cá passar um dia inteiro”, revela a responsável, destacando a qualidade dos museus e o facto de serem espaços “super divertidos, com muita informação e bastante interactivos”. 

Pela proximidade ao Yeatman, seria expectável que o World of Wine fosse um espaço de acesso mais restrito. A verdade é que o ‘cultural district’ tem um acesso bastante democrático, tendo sido possível constatar na visita que fizemos ao espaço uma grande diversidade de públicos, desde alunos em visita de estudo, colegas de trabalho em reunião ou os inevitáveis turistas estrangeiros. A relações-públicas assume que a ideia é “recusar o preconceito de que, para vir o WOW, têm de ter muito dinheiro ou virem com uma roupa formal”. “Se nem toda a gente pode ir jantar ao restaurante de carne maturada [1828], quase toda a gente pode ir ao T&C comer uma francesinha, que está ao preço da baixa do Porto. Ou toda a gente pode ir comer um gelado ao Suspiro, ou beber um copo de vinho no nosso bar”, exemplifica Ana Maria Lourenço, que assegura existir no WOW a pretensão de “ser para toda a gente”: “não só pela dimensão que temos, mas também porque há conceitos para todos os gostos”. 

Mesmos os museus, com preços de entrada na casa dos 20€, são vistos pela responsável como opções em que o investimento compensa. “Cada museu tem cerca de hora e meia de visita. São enormes e não conheço ainda ninguém que, no final, não diga que valeu a pena o esforço”, revela, consentindo que “um preço destes pode assustar” o público português, até porque “não costuma dar este valor para visitar um museu”. Ainda assim, há ‘packs’ familiares que permitem um ajuste proporcional do preço.

 Coerência e idealismo

Há um certo ambiente idealista em todo o complexo do WOW. Um sentido de coerência e fidelidade conceptual que começou logo num projecto de reabilitação com mais de 20 mil metros quadrados, mas que respeitou, de forma quase sagrada, a arquitectura envolvente. “Quem olha do Porto para Gaia não vê onde estamos, porque os edifícios estão totalmente integrados no centro histórico. Ninguém acha que está aqui um edifício desenquadrado face ao resto”, sublinha Ana Maria Lourenço. A verdade é que o rigor urbanístico surpreende e faz adivinhar a complexidade de uma obra que preservou alçados e coberturas de edifícios seculares, escondendo toda a infraestrutura técnica que um complexo moderno exige. “Praticamente nada foi alterado e a única construção nova que foi feita foi a praça. Em termos de engenharia foi um desafio, porque tudo teve de ser feito por baixo do que estava já construído”, confirma a responsável de comunicação. 

Além do arrojo do projecto de reabilitação, há também uma intenção de auto-suficiência que se manifesta em exemplos como o chocolate de marca própria ou a inexistência de restaurantes concessionados. “A nossa ideia sempre foi de autonomia. Não queremos ter aqui um restaurante de uma cadeia qualquer internacional a fazer uma coisa que não se incluísse no conceito do WOW. Assim, podemos ter as coisas que achamos que fazem sentido para nós”, explica Ana Maria Lourenço, que não esconde tratar-se de uma “máquina pesada”, com cerca de 350 funcionários, mas que tem a felicidade de “estar integrada num grupo forte, que assegura conforto e estabilidade num projeto desta dimensão”. 

Foi essa prerrogativa que fez, também, com que o WOW desafiasse a lógica e tivesse aberto portas em plena crise pandémica, quando outros operadores as fechavam. “2020 não foi um ano feliz [para abrir], mas o comboio já estava em andamento. Tínhamos cinco anos de projecto e três anos de obra. Ou mantínhamos isto fechado, à espera de algo indeterminado, ou abríamos e assumíamos as consequências”, fundamenta a relações-públicas, que sublinha, por outro lado, a vantagem de terem podido afinar procedimentos e fazer “pequenas mudanças” numa altura em que havia pouco público. “Teve prós e contras”, reconhece. Um dos quais é terem ficado aquém das expectativas iniciais em termos de afluência.  

Pesada ou não, a máquina está agora próxima de funcionar em pleno. O WOW parece já ter conquistado a população nortenha e os turistas que visitam o Porto, mas de acordo com a responsável, “falta chegar mais às pessoas de Lisboa” e activar as ligações internacionais. “Estamos a estabelecer elos de ligação com hotéis e a criar ‘packs’ e benefícios para turistas. O trabalho de promoção do destino – que estávamos a fazer antes da pandemia – está a voltar a acontecer e isso é claramente importante para nós”. 

Experiência do vinho 

Na tarde em que a Prémio visitou o WOW, foi possível olhar em pormenor o “The Wine Experience”, principal museu do quarteirão cultural e que serve de antecâmara às experiências vínicas disponíveis. A narrativa da exposição está construída de forma a compreender a produção de vinho em toda a sua latitude, começando por explicar os factores climatéricos e os diferentes tipos de solo existente. Várias projecções – umas totalmente multimédia, outras híbridas – permitem compreender alguns fenómenos naturais, como a maturação da vinha ao longo do ano ou a fermentação que acontece no interior das barricas de carvalho. Com grande volume informativo e sempre com uma intenção interactiva, o visitante é convidado a responder a questões, conhecer as principais castas brancas e tintas numa magnífica galeria de ilustrações e é transportado para o Alto Douro Vinhateiro à boleia de uma antiga carrinha Bedford. “É muito importante que as pessoas compreendam todo este processo de trabalho quando bebem um vinho”, explicou-nos a relações-públicas, justificando o nível de detalhe da apresentação. 

Ana Maria Lourenço referiu que “nem tudo é multimédia” nos espaços de exposição, mas o facto de fazerem “bastante uso dos conteúdos digitais” tem por objectivo “criar um ritmo interessante à visita”. É nesse sentido que surge um pequeno auditório onde são apresentadas em vídeo todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Para trás ficou a nobre arte da tanoaria – ofício em vias de extinção, segundo a responsável – e as diferentes “torras” de que a madeira é objecto, conferindo diferentes tons e aromas ao vinho. 

Seguiu-se a parte final da visita, onde um pequeno bairro faz uma volta completa a Portugal, mostrando não apenas as vinhas, mas também os produtos, costumes e até a música característica de todas as regiões do país. Finalmente, o percurso desemboca numa área de experiências – designada por “desafio dos sentidos” – onde primeiro explicam e depois testam a capacidade de o visitante identificar as múltiplas combinações aromáticas que o vinho proporciona. 

Ainda deu para conhecer parte do “Chocolate Story” e a fábrica que está incluída no museu; a loja do “Planet Cork” cheia de produtos surpreendentes feitos em cortiça e a famosa escada dos azulejos – provavelmente o espaço mais fotografado de todo o complexo. Mas o WOW é um mundo a descobrir e facilmente se conclui que uma tarde não chega para satisfazer a curiosidade.

MUSEUS TEMÁTICOS

Pink Palace 

“É o filho mais novo” do WOW – porque foi o último museu a abrir – e é “super instagramável”, nas palavras de Ana Maria Loureço. Inteiramente dedicado ao Rosé, procura desmentir os mitos associados a este tipo de vinho, como por exemplo a ideia de ser um produto de menor qualidade ou tratar-se de uma mistura de castas brancas e tintas. Com ambiente extravagante e um cenário onde a piscina de bolas marca a diferença, é a opção mais ‘pop’ de todo o quarteirão. 

Fashion & Fabric Museum

À partida, incluir os têxteis e a moda num contexto de vinho não seria a decisão mais lógica. Mas sendo o WOW um centro cultural e estando inserido na região do Porto e Norte do país, a indústria têxtil já não parece uma opção tão desenquadrada. Foi com essa premissa que Adrian Bridge quis contar a história de sucesso das roupas e do calçado português, mostrando ao mundo que o nosso país em nada fica a dever aos centros tradicionais da moda mundial. 

Planet Cork 

Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo, sendo responsável por cerca de 50% da produção global. Neste museu que celebra este sucesso, a ligação umbilical com o vinho é inevitável. Mas há muito mais para mostrar, desde o montado português às mais variadas aplicações de cortiça – por exemplo, na indústria aeroespacial. No final do museu, a loja é imperdível, com produtos sustentáveis como raquetes de padel ou objectos decorativos. 

Bridge Collection

“Não é um museu das pontes…vem mesmo do nome do CEO”, adverte Ana Maria Loureço. De facto, a associação não é imediata, mas a explicação para o título é simples: Adrian Bridge tem uma das maiores colecções privadas de copos do mundo. Um trabalho que começou por acaso e que se tornou numa paixão séria, reunindo objectos que acompanham a história da humanidade. O culto da bebida e os rituais de celebração e convívio são o subtexto deste espaço. 

The Cocolate Story

O chocolate, sendo uma das harmonias mais interessantes para o vinho, não podia faltar. E a experiência é completa, começando na origem do cacau e a sua introdução na Europa – consta que os portugueses não acharam graça ao fruto e os espanhóis aproveitaram – e acabando literalmente numa barra de chocolate. Isto porque o museu tem integrada uma pequena fábrica, com marca própria [vinte vinte] que representa a localização geográfica do cacau no globo. 

Porto Region Across The Ages

As origens históricas de um território propenso ao comércio. As guerras e as invasões que cercaram a cidade. O liberalismo, a industrialização e os transportes. A história e alma portuense estão reflectidas neste museu, que convida os visitantes a reconhecerem episódios e até expressões populares que fazem parte do dia a dia da população local. Não é o único museu sobre a cidade e sobre a região, mas tem frescura e novidade para apresentar. 

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