Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Grécia: Olhando para frente

Ioannis Metaxas, Embaixador da Grécia em Portugal

Acabando o período dos memorandos da estabilização económica e os enormes sacrifícios do povo grego, a Grécia entrou numa nova era de recuperação, tendo criado, no entanto, as condições propícias para um crescimento económico sustentável, o aumento dos postos de trabalho e o saneamento das contas públicas. Após as primeiras pós-memorando eleições legislativas, no dia 7 de julho de 2019, o novo Governo prosseguiu os esforços de ultrapassar todas as consequências prejudiciais que deixou uma década de profunda crise financeira. O fim dos programas não supunha automaticamente o fim de todos os problemas, algo que Portugal percebeu bem depois do fim do seu programa. Em finais do ano 2019, o país mantém-se na trajetória do desenvolvimento económico, acompanhado por uma tendência constante de descida gradual da dívida pública.

Neste contexto, a Grécia continua a ser um polo de estabilidade na Europa do Sudeste e no Mediterrâneo Oriental frente às prolongadas crises na Síria e na Líbia e à eternização da questão cipriota, apesar dos esforços vigorosos que ambos os países – Grécia e Chipre – vêm realizando para a sua solução.

Infelizmente, os grandes desafios da questão migratória e dos refugiados continuaram presentes, criando fortes tensões ao longo do 2020. A Grécia enfrentou todas estas questões com firmeza, garantindo a estabilidade. Agiu sempre com serenidade e proporcionalidade, defendendo as suas fronteiras que são, também, as fronteiras da União Europeia. A política externa grega está estruturada sobre os fortes alicerces do direito internacional e do acervo comunitário que a Grécia sempre cumpriu e continuará a fazê-lo.

Contudo, a positiva trajetória do país, antes citada, foi bruscamente interrompida pela invasão do novo vírus. Para fazer frente ao novo desafio, a Grécia colocou como primeira prioridade a defesa da saúde de todos os cidadãos, focando-se no combate para travar a disseminação do vírus e, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos socioeconómicos da pandemia.

Já, desde janeiro, o Primeiro-Ministro, Kyriakos Mitsotakis, pediu às autoridades a elaboração de um plano de ação para travar a propagação do vírus, baseado no parecer da comunidade científica e em estreita comunicação com a Organização Mundial da Saúde e as instituições europeias. Também, procedeu a uma série de medidas para fortalecer o Sistema Nacional de Saúde o qual, aliás, conta com um pessoal médico e sanitário altamente qualificado. Lembre-se ainda que na Grécia existe um alto nível de estudos universitários de Medicina e Ciências da Saúde.

As primeiras medidas foram tomadas no dia 27 de fevereiro, após o país registar o primeiro caso, com o cancelamento das celebrações do Carnaval. No dia 10 de março, foi decretado o encerramento de escolas e universidades. A imposição do confinamento geral chegou no dia 13 de março, um dia após a primeira vítima mortal, com o encerramento de todas as lojas comerciais, museus, monumentos, restaurantes cafés, hotéis, ginásios e praias.

A resposta rápida para a contenção do crescimento exponencial do vírus foi acompanhada de um plano para enfrentar o impacto económico da crise sobre as empresas e os trabalhadores. O Governo lançou um pacote abrangente de subsídios e linhas de crédito a fim de apoiar: (a) as empresas, com injeções de liquidez e medidas excecionais e temporárias para aliviar os seus compromissos perante os bancos, a segurança social e o fisco, (b) o emprego, com uma cláusula que proíbe os despedimentos nas empresas que entram no regime ‘lay-off’ e (c)  os rendimentos dos trabalhadores do setor privado e dos profissionais independentes afetados pelo confinamento. Semelhantes medidas foram adotadas, também, para estimular a retoma da economia durante a fase do desconfinamento. Portanto, o pacote global que o governo mobilizou foi de 12,5 mil milhões de euros. A este montante deveríamos adicionar os apoios decorrentes do uso dos mecanismos e fundos que a União Europeia facilitará para os seus membros (programa SURE, linha de crédito do BEI).

É de assinalar também a contribuição da Grécia nas pesquisas científicas para vencer o covid-19. O Primeiro-Ministro, Kyriakos Mitsotakis, ofereceu em nome do Governo grego 3 milhões de euros na conferência internacional de doadores que organizou a União Europeia para o desenvolvimento da vacina e tratamento do vírus. Paralelamente, a Secretaria Geral de Investigação e Tecnologia lançou um estudo epidemiológico de valor de 2,5 milhões de euros, centrado em decifrar o genoma do vírus.

Tendo travado com eficácia a propagação do vírus, os gregos entraram, no início de maio, na fase do desconfinamento com confiança na sua Administração Pública, que soube agir eficazmente.

Ninguém duvida que a situação que o país enfrenta vai ser difícil e que a dívida pública voltará a disparar. Mas existem instituições e ferramentas europeias que ajudarão os Estados-membros da União Europeia a gerir esta crise. Por outro lado, a Grécia e Portugal coordenam os seus esforços no seio da UE, reivindicando subsídios, e não empréstimos que acabam agravando mais a dívida pública, e trabalhando conjuntamente para o regresso do turismo. Os dois povos partilham metas semelhantes, apesar da Geografia tê-los colocado nos extremos opostos do sul do continente europeu. Os dois países compartilham, também, os mesmos valores da democracia e dos direitos humanos. E é esta base comum de valores e objetivos que funciona como um fio invisível que une os nossos dois povos, fazendo com que ambos contemplem o futuro com otimismo.

Nesta ocasião, gostaria de expressar a minha admiração pela maturidade que demonstraram portugueses e gregos, nestas circunstâncias extraordinárias. Juntos e ajudando-nos mutualmente, vamos ultrapassar o difícil problema do covid-19.

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