Quarta-feira, Junho 19, 2024

A independência do Brasil: um processo singular

Francisco Ribeiro Telles, Embaixador | Coordenador para as Comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil

Este ano comemora-se o segundo centenário da Independência do Brasil. Na sua origem, esteve um acontecimento excecional e único, pela sua audácia e amplitude: o abandono do familiar território europeu, berço da nacionalidade e situado no continente-sede do poder internacional da época, em favor de uma periférica colónia tropical, situada no outro lado do Atlântico, por parte de milhares de pessoas que representavam a quase totalidade das instituições do governo, da cultura e da nobreza portuguesas.

O Rei de Portugal tornou-se único monarca europeu a residir no Novo Mundo e soube, com habilidade política, responder aos desafios que abalaram o reino: a invasão de Napoleão, os interesses dos aliados britânicos no Brasil, os revolucionários liberais em Portugal e o separatismo dos súditos brasileiros. Pouco tempo depois da mudança da família real para o Brasil, a colónia era elevada à condição de parte Reino Unido de Portugal e do Brasil e Algarves, no que constituiu uma experiência inovadora, num mundo em que ainda não se falava de parcerias estratégicas. Foi um dos impérios mais vastos do mundo, juntando territórios nos quatro continentes e que deixou marcas indeléveis nos destinos dos dois países.

Também a unidade territorial da América portuguesa após o ocaso do sistema colonial, em contraste com a fragmentação ocorrida na América espanhola, conferiu à independência do Brasil um caráter de absoluta originalidade, alicerçado na consolidação de um idioma comum. Hoje, o português é uma das línguas mais dinâmicas do mundo e a sua relevância geopolítica e económica é inquestionável. A contribuição do Brasil para esta riqueza é inestimável, sendo que quase 4/5 dos atuais falantes da língua portuguesa se encontram em solo brasileiro.

Por todas estas razões, Portugal não podia deixar de se associar à efeméride do segundo centenário da Independência do Brasil. Assim, o Governo português e diversas outras instituições públicas e privadas delinearam um conjunto de iniciativas assentes em quatro pilares temáticos: o político-institucional; a economia e o desenvolvimento empresarial; a ciência, tecnologia, inovação; e a cultura.

As celebrações decorrem ao longo deste ano e têm como objetivo promover, nos dois lados do oceano, as mais diversas manifestações que evidenciem a convergência de interesses, a criatividade e diversidade de pensamento e o nosso intercâmbio científico, tecnológico e cultural, para além de contribuírem para o estreitamento das relações económicas entre o Brasil e Portugal.

No final de contas, a comemoração do bicentenário da independência do Brasil constitui uma singela ocasião para dar a conhecer a longa e complexa evolução que a nossa memória coletiva condensa num só dia – o 7 de setembro de 1822 –, mas cujos desdobramentos alicerçam um sólido edifício em permanente construção por duas nações irmãs.

Ambos os países mudaram enormemente nas últimas décadas, essencialmente no sentido de uma crescente aproximação. Os nossos estudantes, investigadores, académicos e cientistas estudam e trabalham nos dois países, o intercâmbio de artistas, escritores, desportistas, atores e intelectuais é intenso e contínuo, e também os nossos empresários constroem todos os dias uma rede abrangente de parceiros que contribuem para estreitar os vínculos entre as sociedades civis.

No mundo, os caminhos paralelos que Portugal e o Brasil vão trilhando são complementares e convergentes em múltiplos domínios. Somos Estados de direito democrático, com instituições sólidas e reconhecidos internacionalmente como defensores da paz, do diálogo e da cooperação internacional. No seio da Organização das Nações Unidas, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e da Conferência Ibero-Americana, promovemos juntos a defesa de princípios humanistas e democráticos e advogamos, cada um pelo seu lado, a aproximação entre as organizações regionais a que pertencemos, como sejam o Mercosul e a União Europeia.

Passados estes 200 anos, devemos orgulhar-nos da ligação única que construímos. As nossas relações têm vindo a pautar-se por recorrentes ciclos de aprofundamento e de redescoberta mútua, protagonizados por sucessivas gerações de portugueses e de brasileiros que se sentem genuinamente em casa em qualquer dos dois países.

Em conclusão, a história cumpriu-se e hoje revisitamo-la com toda a serenidade. Do que se trata agora é de intensificar o diálogo entre olhares portugueses e brasileiros, atualizar permanentemente as imagens recíprocas e projetar para o futuro o valor estratégico dos vínculos seculares que unem os dois países. 

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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