Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

Cancelar ou não cancelar? Essa não é a questão

Henrique Raposo, Colunista

Imagine-se uma faculdade onde os alunos são personificações de nações ou impérios. E agora imagine-se também uma disciplina sobre totalitarismo, qualquer coisa como “Introdução ao Totalitarismo I e II”. Pois bem, claro que em 2022 a melhor aluna desta cadeira seria a Rússia, que está bastante próxima dos 100% do fascismo. É aliás incrível como as pessoas que passaram as últimas décadas a gritar “fascismo” por tudo e por nada são agora incapazes de reconhecer um verdadeiro fascista quando ele se senta no colo da Europa. Mas o meu interesse aqui não está na proximidade de Moscovo em relação aos 100%, está no afastamento do Ocidente em relação aos 0%.

O Ocidente já foi um péssimo aluno nas matérias de totalitarismo, mas hoje em dia talvez seja um aluno mediano. Paradoxalmente, a invasão da Ucrânia apanha o Ocidente no seu momento menos livre desde 1945. A “guerra ao terror”, a “guerra à covid” e essa enorme guerra à liberdade que é o politicamente correto criaram nos últimos vinte anos uma psique ocidental que sacrifica a liberdade no Moloch da segurança. Criou-se a ideia de que é possível ou desejável viver sem riscos. Estamos a fabricar uma obsessão distópica baseada no risco zero, na segurança máxima contra o terrorismo, contra um vírus, contra piadas ou pensamentos considerados ofensivos. E esta terceira variante da distopia, o politicamente correto, é sem dúvida um fenómeno totalitário que cresce como uma hera à volta da árvore ocidental, sufocando-a através da cultura do cancelamento. Sem surpresa, este fanatismo apareceu nas primeiras reações ocidentais à invasão russa: artistas e atletas russos foram banidos dos certames internacionais; cantoras líricas e maestros russos foram demitidos ou forçados a uma caminhada de vergonha só por serem russos. E chegou-se ao cúmulo que parece uma piada: várias faculdades sugeriam o cancelamento de grandes escritores russos como Dostoiévski só porque eram russos. Não percebem estas pessoas que estão a fazer precisamente aquilo que os fascistas faziam e fazem, queimar livros? Putin queima livros ocidentais. Nós não podemos queimar livros russos, mesmo aqueles que nos causam urticária. Gogol, por exemplo, irrita-me com a presunção de superioridade moral e mística da Mãe Rússia. “Tarass-Bulba” (E-primatur) é uma romantização da Grande Rússia que engloba russos e ucranianos no mesmo espaço mental do excepcionalismo russo. Os russos, os eslavos, os ortodoxos, diz Gogol, sentem as emoções de forma especial, são uma espécie humana à parte. É fácil visualizar os ideólogos de Putin a usar Gogol como legitimação do atual colonialismo. Mas cancelá-lo ajuda exatamente no quê? Até é pouco inteligente, pois retira-nos uma peça necessária à compreensão deste pan-eslavismo.

Se Gogol faz uma defesa acéfala do imperialismo russo, Tolstoi em “Hadji-Murat” (Cavalo de Ferro) já tem um olhar crítico sobre esse imperialismo. Portanto, faz ainda menos sentido cancelar este russo em particular, porque “Hadji-Murat” é só pode ser um livro proibido na psique de Putin. E, para terminar, é só patético pensarmos no cancelamento de Tchékhov, o russo anti-russo. Como escreveu Vasselli Grossman, outro russo anti-russo, Tchékhov “carregou aos ombros a democracia russa que não chegou a acontecer; o caminho de Tchékhov é o caminho da liberdade russa”; Tchékhov “disse como ninguém tinha dito antes dele, nem o próprio Tolstoi: antes de mais somos humanos (…) o mais importante é que as pessoas são pessoas, só depois é que são prelados, russos, lojistas, tártaros, operários”. Num certo sentido, Tchékhov era ocidental e defendia um humanismo concreto e assente no indivíduo, o que contrariava o corpo político russo, esse espaço onde “o homem é implacavelmente sacrificado ao humanismo abstrato”, o Homem Novo do comunismo de Gorki, o Homem Russo do sangue sagrado de Gogol. Do passado e do presente, russos como Tchékov e Tolstoi são os nossos maiores aliados. Cancelá-los só porque são russos seria a suprema confirmação de que o Ocidente quer mesmo entrar no quadro de honra da Introdução ao Totalitarismo.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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