Sexta-feira, Julho 1, 2022

Ucrânia: Diário de repórter na guerra

António Mateus, Jornalista

DIA 1

– “Zhurnalisty! (jornalistas)

– “Portuhalʹsʹki zhurnalisty (jornalistas portugueses).

Alex explica quem somos ao militar ucraniano que espreitava para o interior do carro, depois de este lhe ter pedido os documentos de identificação – pessoais e da viatura – e perguntado para onde nos dirigíamos.

– “Bashtanka”! (nome da localidade, situada entre Mykolaiev, a cidade-tampão do avanço russo na frente sul, e Kherson, já ocupada pelas forças invasoras), explicara antes o nosso condutor, provocando uma mini-conferência entre os militares e polícias que vigiavam de kalashnikovs empunhadas o bloqueio de estrada, o enésimo por nós cruzados desde a saída de Odessa, mais de duas horas antes.

A resposta atraiu a comparência de um graduado.

– “Ziydy z dorohy! Potyahnutysya do krayu!” (Saiam da estrada! Encoste na berma!) – ditou o oficial, apontando para a fila, onde já se encontravam a aguardar diversas outras viaturas e respectivos ocupantes.

Ali, após escutar que eu e o Rodrigo Lobo (o repórter de imagem da RTP com que fui destacado para o sul da Ucrânia) eramos jornalistas portugueses pediu-nos os passaportes e depois as credenciais emitidas pelo ministério da defesa ucraniano, que fotografou com telemóvel e enviou para verificação, pelos serviços de segurança do estado.

Paciência. Em quantidades generosas. Um dos muitos requisitos para se trabalhar como jornalista num cenário de guerra. Neste, ainda mais, por a desconfiança dos militares, polícias e serviços secretos ser multiplicada pelas evidências de infiltração de espiões e de informadores na identificação de alvos para a artilharia russa.

-“Bez vyshchoho dozvolu ne mozhna khodyty na Bashtanka! Ts’oho razu tse zona boyovykh diy!” (Sem autorização superior não podem ir para Bashtanka. Nesta altura é zona de guerra!”) – vincou o graduado. O Alex ainda argumenta que foramos autorizados pelo porta-voz das forças armadas ucranianas em Mykolaiev, o tenente-coronel Dmytro Pletenchuk, a seguir para a vila recém-bombardeada, mas nem isso dilui a desconfiança do graduado.

A nossa ‘fixer’, Maria Gorbunova, entra em acção, liga para o Dmytro e, quando este a atende, explica-lhe o nó em que nos encontrávamos. Põe-no a falar ao telemóvel com o chefe do controlo e os traços carrancudos da expressão deste dão lugar, em menos de um minuto, a um quase esboço de sorriso.

-“ Mozhe sliduvaty. Vse harazd!” (Podem seguir. Está tudo ok!) – indica ao Alex, enquanto acena com a mão ao subalterno, para sair da frente do carro.

De novo na estrada, com uma preocupação acrescida. A meia-hora perdida nesta verificação aperta ainda mais a margem disponível para reportagem, nas proximidades da zona quente, para quem terá depois de fazer mais de 200 quilómetros em sentido inverso, chegar a Odessa a tempo do recolher obrigatório e editar a peça do dia para o Telejornal (RTP1) que ainda terá de ser legendada.

Mas as décadas de jornalismo que lá levo (39 anos), um terço das quais em cenários complicados, repõem-me o foco onde ele deve estar, particularmente nestas alturas; na atenção aos sinais de perigo, nem sempre óbvios.

Alex puxa pela mecânica do seu Daewoo Nexia. Os 107 cavalos de potência ainda parecem em plena forma apesar dos 10 anos de registo do veículo, que acelera na estrada serpenteante entre terras agrícolas férteis, riqueza natural de um dos maiores produtores europeus de cereais.

A estrada bifurca-se junto a mais um bloqueio. Por detrás dos sacos de areia de resguardo da unidade militar ergue-se o sinal rodoviário, para a esquerda Bashtanka, em frente, Kherson e ao lado deste segmento, a poucas dezenas do posto de controlo, os destroços de dois veículos militares.

Novamente as mesmas perguntas, as mesmas verificações, a mesma paciência. A insegurança tornada rotina. Agora multiplicada pela proximidade da frente de combate. Desaperto o colete à prova de bala para “pescar” a bolsa da credencial de jornalista e o gesto atrai os olhares dos dois homens fardados, com ar cansado, que verificam os intrusos.

– “Vse dobre!” (Tudo bem!)

Viramos à esquerda, atravessamos uma ponte curta e deparamos com o primeiro sinal de impacto da artilharia russa; à nossa frente, ergue-se a ruína calcinada de um edifício que até há dias albergava uma farmácia, a “Аптека АНЦ (nome do qual só já restam o “A” e o “H”) mas o que me chama a atenção é a figura ladrilhada a mosaicos coloridos, de um astronauta junto a um foguetão.

Aproximo-me do lado esquerdo do edifício e percebo finalmente o motivo pelo qual aquela figura me parecia familiar; é uma representação de Iuri Gagarin, o cosmonauta soviético que em 1961 se tornou o primeiro ser humano a viajar no espaço (uma área que me fascina desde menino).

As voltas que a vida dá; o míssil russo destruiu a fachada de homenagem à figura que há seis décadas colocara Moscovo na liderança da corrida ao Espaço, em dias de guerra fria. Com a mesma “cegueira” com que outros projéteis atingiram, no mesmo bombardeamento, o hospital de Bashtanka, a meio da tarde.

– “Estava a decorrer uma cirurgia quando se ouviu uma explosão. A onda provocou o arrancamento de janelas e portas em toda esta ala. Felizmente não houve mortes. A operação era a amputação da mão de um civil” – conta-nos Alena Vasilievna, directora-clínica do hospital.

Na mesa do bloco operatório encontrava-se um civil ferido dias antes, também pela artilharia russa. Só por um acaso a explosão não provocou fatalidades;

– “Durante a guerra esta clínica funciona até às 15h00…a explosão ocorreu depois das 15h00” – explica a responsável clínica, apontando o edifício cuja esquina foi deixada em ruínas pelo projéctil. “Se tivesse ocorrido mais cedo, durante as consultas, teria provocado um massacre”.

A força da explosão é evidente em toda a estrutura do edifício, do último hospital situado antes da linha da frente. O bloco operatório, montado noutra ala, escapou ao bombardeamento, mas as salas de consultas e de radiologia foram destroçadas, um cenário cada vez mais frequente naquela localidade e que não poupa nem os serviços de emergência.

O testemunho é de Svitlana Sokol, paramédica principal do hospital, que nos descreve um dos mais recentes incidentes vividos por pessoal seu, quando uma das ambulâncias foi atingida ao acorrer a vítimas de ataque anterior, numa zona rural próxima:

“Estávamos a sair de Bashtanka quando houve novo bombardeamento”, explica. “Encontrámos uma família inteira ferida… crianças, incluindo um bebé de um ano. E até animais atingidos por estilhaços. A própria ambulância o acabou por ser”.

Próximo da paramédica, uma ponta de chapa vermelha retorcida destaca-se entre blocos de cimento pulverizados. É o que resta da porta da caldeira de aquecimento do edifício atingido pelo míssil. Eu e o Rodrigo subimos por umas escadas traseiras e deparamos com os efeitos do embate e explosão do projéctil.

Choca-me, particularmente, o cenário da sala identificada à entrada como de realização de mamografias; os equipamentos de radiologia destruídos, projectados contra uma parede, junto com restos de molduras das janelas, arrancadas pelo sopro, os pavimentos pejados de estilhaços de vidros e de destroços das mais variadas coisas, entre os quais caminhamos com cuidado.

Presentes, na minha memória recente – dias antes de viajar para a Ucrânia – os protestos veementes do embaixador da Rússia junto do Conselho de Segurança das Nações Unidas, Vassiy Nebenzia, ao ser confrontado com evidências como as por nós testemunhadas no terreno. Uma posição secundada pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova; “Claro que isso é mentira!” – garantira ela, em Moscovo, sobre o que ocorria a milhares de quilómetros dali.

Saímos do hospital e regressamos ao centro de Bashtanka. Paramos junto a um supermercado com todas as janelas protegidas por telas de contraplacado e sacos de areia. Os coletes à prova de bala com os dizeres “Press” atraem a atenção de patrulhas de militares, que nos interpelam armados de AK-47. Pedem-nos pela enésima vez as credenciais e os passaportes, que são novamente fotografados com telemóveis para verificação por alguém do outro “lado da linha”. Ficam ali a rodear-nos até receberem luz verde para o fazer, tornando-nos enquanto isso o centro de olhares de desconfiança de transeuntes.

Um deles, sai do supermercado – quando já foram libertados da retenção temporária – e aceita falar para a câmara da RTP; enquanto aguardo indicação do Rodrigo Lobo para começar a entrevista oiço “rosiysʹkoho telebachennya”! (televisão russa!). Não percebo de imediato aquilo que me soa a qualquer coisa russo, proferido em tom hostil. Pergunto ao Alex o que as pessoas estão a dizer e ele traduz. Alerta-me que estão a confundir a sigla da RTP com as de uma qualquer televisão russa e logo numa localidade sob bombardeamento.

O nosso condutor explica-lhes, lesto, que somos portugueses. De uma televisão portuguesa. E a agitação, até ali em crescendo, desvanece-se tão rápido como começara. Mas fica o alerta; aquele “cubo” do microfone é desaconselhável em zonas sob flagelo russo.

“Arriscaram-se a levar um tiro de um “sniper” ou um “azar” com alguém desesperado com as atrocidades que russos estão a fazer aos nossos civis” – avisa-nos um militar ucraniano, com a hostilidade inicial entretanto amenizada.

Volto a meter conversa com o nosso potencial entrevistado. Mas tenho de aguardar pela ajuda preciosa da nossa ‘fixer’, que, entretanto, tentava serenar a dona do supermercado, determinada em correr connosco para longe dali.

– “Ela está a dizer que pomos a loja dela em perigo se filmarmos aqui! Que os russos podem bombardear o supermercado como já fizeram noutros locais de Bashtanka!” – explica-me a Maria.

– “Diz-lhe se faz favor que vamos sair já! É só entrevistar este senhor….” – riposto, aproximando-me do homem, de meia-idade, que começa a prender, com um elástico e ganchos, os sacos de compras à traseira de uma motorizada, cujo bom estado de conservação elogio.

Explico-lhe que partilho o gosto por motas, já o meu avô materno as usava para viajar numa terra distante, chamada Alentejo. Ele sorri com o som do nome. Desalbarda o silêncio e a troco do meu apresentar, como António, firmado com um estender de mão, oferece-me a sua e diz-me chamar-se Yaroslav. Yaroslav Michailov, residente em Bashtanka.

Tagarelamos um pouco, sem registo de câmara, e outro tanto, ‘on-the-record’. Guardo dele estas palavras, antes de voltarmos à estrada, para fora daquela tensão:

“Ninguém podia pensar que isto poderia acontecer. Mas apesar disso era previsível. Esta história começou em 2014… e continuou pouco a pouco, mas pensávamos que passaria”.

Longe disso, a guerra tornou-se rotina diária.

Alex, o nosso condutor no Sul da Ucrânia

O autor em reportagem em Bastanka

DIA 2

É uma chuva tardia a que torna ainda mais desafiante a condução entre Odessa e Mykolaiev. E o arrancar de “converseta” ao Alex, para ajudar a passar os quilómetros.

O domínio da língua inglesa pelo nosso condutor é tão rudimentar quanto sereno, disponível e competente ele se revela cada vez mais, à medida em que solicitamos, de dia para dia, os seus serviços.

Alex nasceu há 36 anos em Lugansk, na região de Donbas que vive praticamente em guerra desde Março de 2014, o que levou o vendedor de carros, a pegar na mulher e no filho, então com três anos, e a mudarem-se para uma zona mais calma, escolha que acabou por recair em Odessa, a quarta maior cidade da Ucrânia.

Oito anos depois, a guerra de que fugiu parece ter vindo ter com ele. Mesmo que paradoxalmente, no papel de condutor de jornalistas estrangeiros, destacados para a respectiva cobertura, acabe por servir agora de sustento à família.

– “É assustador quando os teus planos um dia se desmoronam, quando não sabes o que será o teu dia de amanhã!” – reconhece. “Mas estamos a ficar mais fortes, acreditamos na vitória, amamos e acreditamos no nosso país e continuamos a viver e a trabalhar seja como for!”.

– “Seja como for!”…dou comigo a remoer estas palavras e como elas se encaixam em tanto do que testemunhamos na determinação de quem resiste à nossa volta à invasão do seu país. Vlad, o nosso ‘fixer’ nesta nova saída até Mykolaiev, assinala-nos que chegámos ao local onde nos aguarda um veterano da guerra, que lutou no Afeganistão pelas forças soviéticas e comanda agora um sector de defesa da cidade, contra o assalto russo.

Vlad tem bons contactos num dos circuitos mais impenetráveis do actual cenário de conflito na Ucrânia; o da defesa e segurança. E o seu contributo é-nos precioso. Mesmo que depois estique a corda tentando, sem sucesso, interferir nas nossas opções editoriais de abordagem das matérias recolhidas.

Alex estaciona o carro no interior de um recinto que fico a saber tratar-se do hospital militar da cidade. Continua a chover. Seguimos os três, eu, o Rodrigo e o Alex, com o material de filmagem, atrás de Vlad que contorna um edifício e se dirige para um grupo de militares, trajados de camuflados.

O nosso fixer faz as apresentações. A maioria do grupo de militares recua, ficam só três deles, próximo de nós; um com uma câmara fotográfica, outro, o mais alto de todos, um pouco mais atrás, com um meio sorriso e o terceiro – notoriamente o primeiro, na hierarquia – olha-me fixamente e assim se manterá até ao meu sinal de que terminara a entrevista.

Oleg, de nome de guerra, “Tro”. Ainda não decidira se sempre iria “falar aos jornalistas”. Queria saber quem éramos, ao que vínhamos. E, especialmente, “sentir-nos”. Essa coisa diria telúrica, senão animal, que aprendi na vida a reconhecer em pessoas que passaram parte das suas a lutar pela sobrevivência.

Sei que tenho de lhe dar parte da minha zona de conforto para ele me aceitar na sua e faço-o, tateando cada passo, como quem caminha medindo a solidez do chão e avaliando a do interlocutor, pela dignidade com que defende a sua e valorize a abertura concedida.

Foi assim que fiquei a saber que ele é um veterano da guerra do Afeganistão, onde lutou pelos soviéticos contra os mujahidin, e agora um baluarte na resistência ucraniana em Mykolaeiv contra as forças invasoras de Moscovo. Uma abertura concedida após lhe ter dito que sou filho e neto de oficiais, completei o liceu no Colégio Militar e entendo por dentro os conceitos e preconceitos relativos ao vestir da farda de um país.

– “Estamos a tentar normalizar a situação de todas as formas que conseguimos. A nossa presença ajuda as pessoas a acalmarem-se”, explica-me “Tro”, sobre a façanha de terem conseguido fazer recuar a ofensiva russa, que chegou a posicionar blindados na cidade. “Não conseguimos, no entanto, parar todos os mísseis que voam sobre nós, mas estamos a fazer tudo o que podemos para segurança da cidade”.

Mas para quem já vestiu a farda do outro lado, o que testemunha agora é um choque.

– “Veja o que está a acontecer em Mariupol. Quase a destruíram por completo. Não se pode acreditar neles. Estão a mentir a toda gente, incluindo a si mesmos. Estão-vos a mentir!” – insiste, de cara subitamente crispada. “Quando eu estava no Afeganistão com os sovietes, nunca esperei que isto fosse acontecer; estão a mostrar agora um lado completamente desumano. Não há nada de humano neles nem nas suas acções.”

– “…isso foi um inferno…” – ainda tento adicionar.

– “Não tanto um inferno como aqui!” – Um inferno que nas palavras de Oleg não poupa nem os mais frágeis;

– “Estão a atingir e a destruir de propósito a população civil. Estão a mentir. Não há nada de sagrado para eles. Sou um veterano do Afeganistão, sei o que é a guerra. Do que se trata. E o que eles estão aqui a fazer não se trata de guerra. Apenas actos de escumalha. Estão a matar as nossas mulheres, as nossas crianças, os civis, idosos.”

A factura de uma guerra…onde o derrotado, à partida…é o humanismo.

Hospital bombardeado em Bashtanka

Escola bombardeada em Zeleniy Guy

DIA 3

A “dica” fora de Anna Zamazeeva, a presidente do Conselho Regional de Mykholaiev, que sobrevivera por um acaso ao bombardeamento por míssil russo do edifício onde funcionava este órgão, causa de 37 mortes e dezenas de feridos.

A artilharia russa atingira o hospital da cidade provocando dezenas de feridos. Alex chega facilmente ao local utilizando o “google-maps” e estaciona o carro próximo do portão de entrada e saída de ambulâncias.

Na fachada não há sinais de guerra, mas ao caminharmos junto à empena do edifício são notórias as janelas protegidas com sacos de areia e, depois destas, sinais de impacto de projécteis. Desta vez as baterias anti-aéreas interceptaram um míssil quando ele se aproximava do edifício, mas os respectivos destroços provocaram estragos consideráveis na ala de pediatria e um ferido grave.

Maria, a nossa ‘fixer’, pede permissão para fazermos reportagem do ocorrido e a resposta imediata é negativa. Ela insiste, sublinha ter sido Zamazeeva quem nos identificara o ocorrido. A médica que nos barrara o caminho pede-nos para conferenciar, à parte, com um colega. Passados uns minutos regressam os dois. Diz que não quer ser identificada, nem ser entrevistada, mas apresenta o Chefe da Unidade de Cuidados Intensivos pediátricos que aceita fazê-lo.

Andrey Krasyukov, de seu nome, é a simpatia em pessoa. Apresenta-se, sorridente. Pergunta-nos quem somos, ao que vimos, como chegámos até ali e, finalmente, se o queremos entrevistar dentro ou fora do edifício.

Rodrigo escolhe o interior, para ilustrar em imagem a actividade clínica, mesmo sendo o cenário, como verificaríamos, sombrio. Mas “é como é. É neste ambiente que o corpo clínico trabalha e os pacientes são atendidos” – penso eu, alinhando sempre com as opções de filmagem do meu companheiro, profissional de uma sensibilidade e talento raros nesta matéria.

– “Isto tornou-se normal para nós. Ouvimos as explosões. Vemos os feridos. Tornou-se para nós a normalidade, nestes mais de dois meses de guerra. É isto o que nós vemos” – assume o responsável clínico.

Os bombardeamentos diários testam ao limite a resistência da equipa médica.

– “É muito duro de ver…trazem crianças que já morreram….e não podemos fazer nada. Vemos meninos que foram feridos, muitos deles seriamente. Todos são ajudados pelo nosso pessoal e continuaremos a fazê-lo aqui. (…) Sim eles estão a bombardear, as bombas continuam a cair, mas fazemos este trabalho porque são crianças”.

Uma enfermeira interpela Andrey. Ele escuta-a, pede-nos um minuto, segue-a, os dois cruzam uma porta e nós ficamos ali a aguardar no corredor. Tentando estorvar o mínimo possível a mobilidade dos passantes.

– “Venham comigo!” – ressurge o médico, assomando na ombreira por onde se sumira. “Há aqui um jovem que quer falar convosco!”.

Rodrigo vai à frente, como sempre fazemos, para eu não lhe “estragar os planos (de filmagem)” com a minha presença nos mesmos. Mas o médico pede que tiremos primeiro os casacos e os coletes à prova de bala e nos resguardemos com batas antes de entrarmos na sala. Rapidamente percebemos porquê.

Deitado, numa cama, vestido apenas com cuecas, com a perna direita puxada por um esticador preso ao pé, um penso largo na canela do mesmo membro, e uma costura de cirurgia recente agrafada desde o esterno ao umbigo, encontra-se um jovem adolescente, de cor macilenta.

Kirill tem 16 anos. Caminhava no passeio, fronteiro ao hospital, quando o míssil explodiu, deixando-lhe o pé direito quase arrancado da perna e, alojado no peito, um estilhaço do projéctil. Por “milagre” e rapidez e talento na intervenção médica, sobreviveu.

– “Regressava a casa quando um dos projéteis caiu à minha frente. Depois disso começou tudo a abanar… perdi uma perna… bem…caí, tentei pôr-me de pé, mas não consegui” – explica-nos o jovem, que pedira para falar connosco, após saber que estava uma equipa de jornalistas estrangeiros no hospital.

Na sua cama, dos Cuidados Intensivos, frente a uma janela, toda ela resguardada com sacos de areia, pede-nos que não deixemos este sofrimento anónimo;

“Obrigado por virem aqui, arriscar as vossas vidas. Informarem o mundo e ajudarem a perceber o que agora se passa no meu país”.

DIA 4

O silêncio no interior do carro traduz a tensão em que nos encontramos ao aproximar-nos da linha da frente de combates. A passagem nos controlos de estrada torna-se impossível a menos que sejamos acompanhados por elementos da Defesa Territorial ucraniana.

Após dias de contactos, Maria conseguira-nos um. Garantiu-nos. Mas, no dia da reportagem, as horas foram-se passando e, com elas, a janela de oportunidade a minguar.

Sentados, à espera, que o porta-voz das Forças Armadas ucranianas em Mykolaiev, o tenente-coronel Dmytro Pletenchuk, e o Yuri, o tal elemento da Defesa Territorial angariado pela Maria, parassem de marinar os respectivos neurónios em testosterona, numa luta de galos sobre qual deles mandava mais e em quê.

Três horas depois do previsto lá seguimos finalmente em direcção a Zeleniy Guy, a 10 quilómetros da zona já ocupada pelos russos, de onde nos chegam relatos de escolas e zonas residenciais bombardeadas e carros de civis emboscados a tiro.

Um cenário que se confirma à medida que nos aproximamos dessa vila rural. O Yuri e um outro militar, seguem fardados de camuflado e AK-47s a tiracolo, numa carrinha à frente do nosso carro, abrindo caminho nos postos de controlo.

Pouco antes da bifurcação à esquerda, da estrada para a vila, vislumbra-se um carro civil, de cor cinzenta, perfurado por tiros, portas abertas e roupas espalhadas nas proximidades. Yuri explica-nos que todos os ocupantes tinham sido mortos numa emboscada por militares russos.

Uma violência que se acentua a partir dali. Viramos à esquerda na tal bifurcação, passamos três controlos de estrada abandonados, atrás deles dois blindados ucranianos calcinados e, logo depois, o nosso guia faz-nos sinal de paragem. Apeia-se e segue a pé para dentro de uma propriedade, de muros baixos.

Escutam-se estrondos de artilharia. Ele continua a caminhar, impávido. Aponta para a frente, onde se vislumbra um edifício enorme de três pisos, com o centro pulverizado pelo que aparenta ser o impacto de um explosivo poderoso.

Yuri precisa que o edifício era uma escola preparatória; a Escola Zelenogai. A potência de um dos mísseis era tal que abriu uma cratera onde ele próprio cabe em pé. E reduziu a escombros as salas de aula, com materiais escolares misturados agora no chão com destroços das paredes e lajes dos pisos superiores a ameaçarem ruir.

– “Houve aqui um bombardeamento de larga escala! Numa escola onde as crianças locais estudavam”, sublinha, mostrando, através de uma das fendas nas paredes, o interior de uma sala de aulas onde se vêem restos de livros e materiais escolares misturados no chão com destroços de janelas, cadeiras e revestimentos arrancados.

Um bombardeamento a que não escapou nem a creche na rua paralela à da escola preparatória. E onde faço o directo para o Jornal da Tarde, junto às paredes destroçadas pela artilharia russa, enquanto se intensificam os estrondos dos combates próximos.

A uma dezena de metros, do outro lado da rua, um dos poucos residentes que ali permanecem, descreve-nos o que aconteceu. Explica porque ficou para trás. Com os sete cães de vizinhos entretanto desaparecidos e que com ele agora vegetam nos escombros da vila.

“Como é sobrevivi? Sobrevivi com os cães numa cave. Quando eles bombardeavam nós íamos para lá!” – relata Alexander, com os dois olhos enevoados por cataratas. “Já estamos habituados. Já conseguimos distinguir de onde e para onde é que eles disparam”.

Com a artilharia próxima a fazer-se sentir, Yuri dá-nos sinal de saída rápida da vila. Guia-nos através dos campos verdes onde o trigo começa a nascer, misturado com projéteis por explodir….e, mais adiante, destroços de helicópteros de combate russos, abatidos pela artilharia ucraniana.

A poucos metros dali, improvisou-se uma campa;

– “Este é o local onde o piloto russo deste helicóptero foi sepultado” – indica Yuri, junto a um gorro militar russo, depositado sobre uma estaca, marcante do local onde fora enterrado o corpo do invasor.

De um lado da estrada… fixa-se a morte… do outro… o paradoxo da retoma da vida. A centenas de metros dos destroços do helicóptero russo, do outro lado da estrada em terra batida, uma alfaia agrícola levanta poeiras, no amanho das terras, sob o olhar de um segundo lavrador.

Aproximamo-nos dele. Volodymir de seu nome, fico a saber, aceita falar para a nossa reportagem. Ajudar-nos a perceber, onde vai ele, vão eles, buscar aquela resiliência:

– “Como dizer…vamo-nos aguentando…eles bombardeiam, nós semeamos. Eles bombardeiam outra vez, nós semeamos outra vez, para termos algo para comer”.

Nota: Estes são apenas quatro relatos em texto das 26 reportagens assinadas pelo autor ao longo 29 dias de destacamento na cobertura da Ucrânia.

Fotos gentilmente cedidas pelo autor

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