Sexta-feira, Julho 1, 2022

Inflação, e agora?

Joaquim Miranda Sarmento, Professor no ISEG/Universidade de Lisboa

Os últimos dois meses foram marcados pela discussão da inflação e do aumento dos preços. Criou-se a perceção de comunicação que: 1) a inflação é um fenómeno que teve origem no início da invasão da Ucrânia pela Rússia e que, por isso, 2) a inflação resulta do aumento dos preços na energia e nos bens alimentares e 3) uma inflação de 4% ou 5% não é uma inflação elevada.

Ora, isso não corresponde à realidade.

Primeiro, o processo inflacionista nos EUA e na Europa iniciou-se no verão de 2021. E resulta de dois fatores: 1) uma forte expansão da massa monetária, por via quer da política monetária da Reserva Federal Americana (Fed) e do Banco Central Europeu (BCE), quer dos estímulos à economia devido à pandemia da Covid-19; 2) um choque simultâneo da procura e da oferta, dado que (lado da procura) a saída dos confinamentos e a elevada poupança desses períodos levou a um aumento substancial do consumo (apelido “revenge spending”), mas (lado da oferta) a Covid-19 levou a uma disrupção nas cadeias de produção e distribuição.

Segundo, a inflação não resulta sobretudo do choque de preços dos bens energéticos e alimentares. Basta atender a três indicadores: 1) As expetativas de inflação na zona Euro e nos EUA já rondavam os 5% na véspera do conflito iniciar e passado dois meses mantêm-se próximos (ligeiramente superior) a esse valor; 2) A inflação registada em fevereiro na zona Euro foi de 5.9% e em Portugal de 4.2%; 3) A inflação “core” (subjacente, isto é, sem energia e bens alimentares) em abril foi de 3.9% na zona Euro e em Portugal foi de 5%.

Terceiro, uma inflação durante alguns anos, mesmo que a 4%-5%, não deixará de ser uma inflação elevada (recorde-se que o objetivo da Fed e do BCE é 2%). Os leitores com mais memória recordaram a inflação nos anos 70 e início dos anos 80. Na altura, a inflação nas economias avançadas rondou os 10%/15% e em Portugal os 20%/30%. Mas é importante compreender que nos últimos 10 anos, desde a crise financeira e a alteração da política monetária dos Bancos Centrais, que nos “habituámos” a viver com inflação (e taxas de juro) em torno de zero. É aquilo a que os economistas chamam “inércia da inflação”. Os agentes económicos ajustaram as suas expetativas racionais a esse “normal”. Uma inflação durante vários anos em torno de 4%/5% significará um novo patamar de preços e juros, que obrigaram a fortes correções económicas.

Porque nos devemos preocupar com a inflação?

Primeiro, porque tem fortes impactos na eficiência económica e pode afetar o produto total (a criação de riqueza). Tem também um impacto significativo na eficiência, dado que distorce os preços e os sinais dos preços. Numa economia com baixa inflação, as alterações dos preços são percetíveis pelos consumidores, que alteram o seu perfil de consumo (se um bem aumenta muito o seu preço, mudam para bens complementares – se o preço de uma carne sobe muito, mudam para outras carnes, ajustando o mercado – chama-se a isto variação dos preços relativos). Se a inflação é elevada, este efeito reduz-se substancialmente.

Segundo, a literatura económica apresenta fortes evidencias que a relação positiva entre inflação e crescimento do produto ocorre num curto prazo, havendo um efeito negativo no médio prazo.

Terceiro, porque implica perda de poder de compra, sobretudo em quem recebe salários e pensões. A subida dos salários no setor privado varia muito entre setores de atividade, mas dificilmente acompanha o ritmo e a velocidade da subida dos preços. No setor público, quer os salários, quer a atualização das pensões, é feita sempre com base na inflação ocorrida no ano anterior. Isso gera naturalmente perdas de poder de compra, se a inflação for elevada durante alguns anos.

Adicionalmente, as famílias perdem poder de compra por duas vias: por um lado o cabaz de bens e serviços está mais caro, e por outro, a subida das taxas de juro leva a que as famílias com créditos (sobretudo à habitação) vejam a prestação da sua casa subir.

Quarto, provoca alterações na repartição do rendimento. A inflação prejudica os aforradores (dado que mesmo que as taxas de juro subam, será sempre um efeito com desfasamento) e beneficia os devedores (apesar do efeito referido das taxas de juro, com o aumento dos preços e o aumento dos salários, o valor da dívida, em termos nominais, reduz-se). Também o valor real dos ativos tende a reduzir-se.

Quinto, gera desequilíbrios nas Finanças Públicas. Num primeiro momento leva a um efeito “ilusório” de aumento da receita fiscal (a receita de IVA sobe por via dos preços, a receita do IRS e da TSU sobe por via da subida dos salários), mas depois tem efeitos muito negativos. Leva a uma redução da atividade económica, o que, naturalmente, reduz a receita fiscal e contributiva. E, sobretudo, cria uma enorme pressão na despesa pública. Como referido, um aumento da inflação leva a uma subida dos juros (agravado neste caso pelo fim da política monetária do BCE de compra de dívida pública, que vai agravar os juros e os spreads), fazendo aumentar essa componente da despesa do Estado. Leva também a um aumento da despesa com pensões e prestações sociais, bem como a uma pressão para aumentos salariais na função pública. E naturalmente, leva a um aumento da despesa com a aquisição de bens e serviços necessários para o funcionamento dos organismos públicos.

Em síntese, se os próximos anos se confirmar um nível de inflação bastante acima dos 2%, podemos esperar um período económico com menor poder de compra, seja por via dos preços, seja por via das prestações ao banco. As empresas terão um ambiente competitivo mais incerto e ineficiente. O Estado terá pressões do lado da despesa. A atuação dos Bancos Centrais é assim fundamental para permitir um retorno a um nível de inflação baixo, próximo dos 2%.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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