Domingo, Fevereiro 25, 2024

Shift, mindset, awareness e reboot. Há lugar para Moçambique num futuro eco-friendly?

Pedro Cativelos, Director Executivo da Media 4 Development

Dizem-nos as notícias que a esperança com que se iniciou o ano, em Moçambique, de assistir, em 2021, ao arranque em força da construção do projecto de gás natural da Total na Província de Cabo Delgado, o maior investimento privado alguma vez feito no continente africano (23 mil milhões de dólares), se esfumou. Na melhor das hipóteses, por um ano. No pior dos cenários por dois, ou mais anos. No cenário de pesadelo absoluto, até sempre.

Haverá no que aconteceu, com o abandono da operação por “motivos de força maior” por parte da petrolífera, algumas lições. O panorama global, com a pandemia, alterou-se ou, para utilizar a linguagem dos ‘mental coach’ de agora, o ‘mindset’ global sofreu um ‘shift’, criou-se um novo ‘awareness’ e o ‘chip’ fez um ‘reboot’.

Ou seja: a transição energética que havia já iniciado no final da década passada, acelerou nos últimos 16 meses como nunca antes e as prioridades dos grandes investidores cambiaram. As maiores exploradoras de recursos, nomeadamente petrolíferos, investem como nunca na mudança energética e aí, o gás é fundamental, enquanto fonte de energia de transição para as tão aguardadas renováveis.

A este respeito, importa salientar que a Total é, de todas as ‘majors’ do oil & gas, a que mais investe neste novo cenário (aposta no gás mas com foco e investimento próximo dos de 2 mil milhões de dólares por ano em energia solar, eólica e geotermal), fiel amigo do Tratado de Paris e completamente eco-friendly. Claro que nem tudo são rosas (orgânicas) a este respeito e, sabe-se, a grande aposta nas “energias limpas” tem um lado sujo pouco falado e menos amigo do ambiente. Mas conquistaram a boa vontade, pouco exigente por vezes, da grande opinião pública movida a social media, ao contrário dos combustíveis fósseis que caíram em desgraça. ‘Unfollow’.

Voltando a Moçambique, ainda assim, as esperanças permanecem intactas, um factor essencial numa economia como a de um país na qual, em larga medida, a expectativa é o combustível do crescimento. Com uma das maiores reservas de gás natural no mundo, a terceira, Moçambique é incontornável nas duas, três décadas que nos separam da nova era energética, que já começou e que irá desembocar num futuro próximo de emissões de CO2 net zero.

Ou seja, os projectos de gás não estão em risco mas o cenário não é, de todo, animador no imediato. A Área 1 da Bacia do Rovuma foi adiada pela Total até que a zona de Palma e a Península de Afungi estejam seguras, por uma força governamental ou, como tem sido sugerido, com a segurança a ser totalmente absorvida pela multinacional francesa, com a chancela da presidência de Macron (que recebeu, em Maio, o presidente Nyusi em Paris); e a Área 4, outro grande investimento na casa dos 22 mil milhões de dólares, levado a cabo por um consórcio encabeçado pela norte-americana ExxonMobil e onde figuram várias empresas, entre as quais a portuguesa Galp foi adiado por, pelo menos dois anos, o que leva todas as previsões de exploração e exportação de gás moçambicano a passarem de 2024 para dois anos mais tarde.

Haverá, ainda assim, e já a partir do próximo ano, uma pequena unidade flutuante (em comparação com as outras duas) que irá entrar em funcionamento, operada pela italiana ENI.

Efeito imediato na economia nacional? O ritmo do crescimento do PIB, que se esperava na casa dos 4% a 5% já a partir de 2021 impelido pelo início das obras de construção das unidades de liquefacção vai, de acordo com as previsões do FMI, quedar-se por uns tímidos 1,6% este ano. Um pequeno passo após um ano pandémico em que o mundo dará, em termos de criação de riqueza, um grande salto face a 2020.

Se a dimensão da oportunidade justifica a demora, a perigosidade da exposição de toda uma economia que produz apenas 14 mil milhões de dólares ao ano, face a tão avultados investimentos é bem real. Têm sido inúmeros os debates sobre este tema, de há anos para cá. A sobreexposição é um perigo real, mais do que para as contas públicas, para outros sectores económicos.

Da agricultura à indústria que são as bases da economia do país (para além do comércio). Uma é o sector que mais contribui para o PIB nacional, pouco acima dos 20%, sendo responsável por 14% do seu crescimento anual. A outra, é enganadoramente contributiva, alavancada pelas extractivas (essencialmente o carvão) e o alumínio, a segunda maior fonte de exportação, a seguir à matéria-prima extraída pela Vale, na província de Tete. Ambos poluentes. Claro que, também a Vale, a segunda maior mineradora do mundo que está de saída do país no final de 2021, quer deixar o carvão porque ganhou má fama no novo ‘mundo verde’.

Chegarão investidores chineses ou, mais certamente, indianos, em representação de duas economias que são, actualmente, as maiores consumidoras deste combustível ‘sujo’ no mundo.

Sendo realista, Moçambique terá ganho tempo para continuar a desenvolver a economia real e perdido espaço para errar. Porque tem de desenvolver a agricultura (e programas como o Sustenta do ministro do sector, Celso Correia, estão a tentar fazê-lo), capacitar jovens empreendedores, captar investimento para a agro-indústria, desenvolver infra-estruturas e uma melhor rede logística. Claro que nada disto se faz sem dinheiro. Mas tenta-se, e não falta financiamento externo do Banco Mundial, do Banco Africano de Desenvolvimento ou de algumas das principais instituições multilaterais que moldaram os seus alinhamentos para as novas expectativas dos mercados. A paragem do mega-projecto da Total só vem, de resto, mostrar o que já sabíamos porque o Covid-19 nos mostrou brutalmente — o mundo pode mudar a qualquer altura e quem está preparado para lidar com o imprevisto estará, à partida, mais capacitado a resistir, primeiro, e a liderar depois. Moçambique, quero acreditar, pode ser um desses casos e, mesmo sem um ‘coach’, acreditar que é possível. Basta acreditar e ser positivo. Basta? Não, mas é um começo.

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