Sábado, Dezembro 4, 2021

Sair da Crise

Álvaro Santos Pereira, Director no Departamento de Economia da OCDE

Agora que finalmente começamos a ver a luz ao fundo do túnel em relação a esta malfadada pandemia, interessa perceber como é que vamos sair da crise e como é que poderemos sustentar a recuperar das diferentes economias e da economia mundial. Como sempre, a escolha das políticas públicas tem um papel fundamental a desempenhar para a recuperação e para a sustentabilidade do crescimento e do emprego. Por isso, interessa perguntar: quais são as políticas públicas e económicas necessárias para alcançarmos uma recuperação sustentada?

Em primeiro lugar, o fundamental é vacinar, vacinar, vacinar. A vacinação continua a ser a mais importante política pública (e económica) para todos os países do mundo. Enquanto não tivermos uma larga percentagem vacinada das populações de todos os países não poderemos afirmar com convicção que os riscos associados à pandemia acabaram. Infelizmente, ainda estamos muito longe desse ponto. E se é verdade que vários países (principalmente na América do Norte e na Europa, mas também em países como o Chile, Israel e Singapura) que já têm a grande maioria das suas populações vacinadas, há inúmeros países onde o processo de vacinação quase ainda não arrancou. Ou seja, as desigualdades no processo de vacinação são gritantes. Ora, estas enormes desigualdades vão ter um impacto muito grande no ritmo da retoma dos diferentes países. Mais concretamente, em média, os países com uma maior percentagem de vacinados tenderão a crescer e a recuperar mais rapidamente do que os países com uma baixa percentagem de vacinação, pois terão geralmente menos restrições à actividade económica. Neste sentido, e como é sabido, é fundamental acelerar a vacinação em todos os países do mundo, pois há um risco real de surgirem novas variantes onde as vacinas possam ser menos eficazes nos países onde a vacinação é baixa. Por isso, é fundamental que os países mais ricos auxiliem o mais possível os países menos desenvolvidos no importante esforço de vacinação. A vacinação é um bem comum global e todos devemos contribuir para que seja feita o mais rapidamente possível.

Em segundo lugar, as políticas económicas e sociais utilizadas para combater os nefastos efeitos económicos e sociais da pandemia continuam em vigor, embora estejam a começar a mudar. Nos primeiros meses da pandemia, os governos e os bancos centrais utilizaram medidas sem precedentes para tentar estancar um aumento desmesurado do desemprego e para atenuar as quedas da economia provocadas pelas restrições sanitárias. Assim, os bancos centrais rapidamente reduziram taxas de juros, compraram uma quantidade enorme de activos e injectaram quantidades sem precedentes de liquidez nas economias para que a crise económica não se transformasse também numa crise de crédito (o que teria consequências ainda mais nefastas para os sistemas financeiros e bancários). Os governos utilizaram ainda medidas anteriormente pouco utilizadas, como sejam subsídios aos salários, subsídios directos às empresas, bem como moratórias e garantias de Estado para a concessão de empréstimos às empresas e apoiar às famílias. O resultado de todos estes estímulos foi certamente termos uma crise económica bem menor do que teríamos se as políticas públicas não tivessem sido tão significativas e pro-activas. Porém, uma das consequências destes estímulos foi igualmente uma subida generalizada das dívidas públicas, bem como um aumento das dívidas das empresas e de muitos particulares.

Ora, agora que estamos a começar a sair da crise graças ao levantamento das restrições sanitárias possibilitadas pelas campanhas de vacinação, a economia começa a recuperar e os estímulos económicos tornam-se menos importantes. Por outro lado, começam agora a surgir sinais bastante claros que a pandemia causou toda uma série de restrições nas cadeias de valor globais, que levaram à escassez de alguns produtos essenciais (tais como os semicondutores). O aumento dos preços tem ainda sido fomentado pela recuperação das economias mundiais, bem como ao aumento da procura de serviços (como a cabotagem e do transporte de mercadorias), de matérias primas, e até de mão-de-obra (principalmente nos países onde a imigração é importante). O resultado de todos estes factores tem sido uma inexorável subida da inflação, agravada em muitos países pela depreciação da moeda e pela subida dos preços da energia. Por isso, a subida da inflação tem levado a que muitos bancos centrais tenham começado a subir as taxas de juro para tentar controlar os preços.

Esta subida da inflação não se resume aos países emergentes, mas tem-se sentido igualmente nos países mais avançados, principalmente nos Estados Unidos, graças não só à recuperação da economia, mas também aos estímulos monetários e fiscais sem precedentes. E se é verdade que o cenário central das previsões macroeconómicas sugerem que a inflação é essencialmente temporária, a verdade é que é bem possível que a subida dos preços esteja aí para durar. E se assim for, certamente que vamos assistir a uma maior e mais rápida subida das taxas de juros, o que terá efeitos importantes para os rendimentos disponíveis das famílias, para as empresas e para os próprios Estados, que têm de se financiar a juros mais elevados.

Por outras palavras, estamos provavelmente num ponto de inflexão no ciclo económico. Nos próximos meses, os governos e os bancos centrais vão começar a retirar os enormes estímulos económicos que foram lançados com a pandemia, os juros vão subir e uma maior atenção começará a ser dada às dívidas públicas e privadas nos diversos países.

E o que é que resta aos países para garantir uma retoma mais sustentada? Estimular o investimento (privado e público) e, principalmente, voltar as atenções para as reformas estruturais. Sabendo que nos próximos tempos iremos ter de lidar com os desafios do envelhecimento da população, das alterações climáticas, da produtividade e da digitalização, é fundamental que os governos lancem ambiciosos programas de reformas para lidar com estes mesmos desafios. Só com uma nova onde de reformas que promova a competitividade e a produtividade nacionais é que os governos conseguirão estimular as suas economias e irão conseguir ultrapassar os enormes desafios do futuro.

Está assim nas nossas mãos garantir que esta crise fique para trás o mais rápida e sustentadamente possível. Para tal, é essencial voltar a reformar para que os nossos países crescem de forma mais sustentada e mais sustentavelmente.

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