Domingo, Fevereiro 25, 2024

O Eu ou o Nós e a “História” do Amanhã

Carlos Barroca, Vice-Presidente de Operações da NBA Ásia

O que é que um “especialista” em basquetebol tem a dizer sobre educação, a vida em comunidade, os valores não materiais e o futuro? o Basquetebol tem que ver com a vida?

Falamos de um jogo novo (apenas com 129 anos), de educação, de ensinar e aprender. E o Basquetebol é um mero exercício do “eu” ou o realizar do “nós”? Há vida sem “nós”? Ensina-se e aprende-se, educa-se sem “nós”? A Prémio desafiou-me e vou tentar responder.

O basquetebol inspirou-me e fez-me “olhar” o passado para “ver” o futuro. Defino o conceito subjacente ao objetivo, observo, faço o diagnóstico e crio o plano de ação. Depois basta implementá-lo: ensinar, inspirar e conectar.

O ser humano, sempre se moveu na procura de alimento e abrigo. Sempre agiu por instinto de sobrevivência. A existência do “nós” nasce, também, como instinto de assegurar continuidade de espécie, não deixando de estar intrinsecamente ligado à questão da liderança, da decisão. Desde o início dos tempos o “eu” e o “nós” caminham, pois, lado a lado.

Um salto no tempo e deixamos as grutas ou o isolamento das florestas para a proximidade dos cursos de água. Acedemos a novas fontes de alimentação, e a ligação à água dá-nos a possibilidade de viajar. Mais população, mais recursos, mais interação e emergente socialização com diferentes tipos de liderança. Além da produção direta dos produtos de consumo, surgem múltiplas atividades, inclusive o entretenimento. Em tempo de paz as atividades básicas de gestos humanos transformam-se em competições: correr, saltar, lutar… e da associação humana, que tem por base o alimento e a segurança, nascem, inevitavelmente, os conceitos de liderança e de poder nas mais variadas formas.

Das paliçadas iniciais nascem fortes cada vez mais sofisticados e maiores, protegendo os seus habitantes das invasões exteriores, com canhões voltados para fora, a maior parte das vezes para o mar, de onde vinha o invasor. Já em tempo de paz a música e o entretenimento ocupavam o tempo não dedicado à produção. Mas os canhões virados para fora não protegeram, nunca, a humanidade das doenças que associadas ou não às horríveis condições de vida das cidades acabaram por surgir. E, como já se viajava, o propagar das doenças acontecia. Morriam milhões de pessoas sem capacidade de resposta às pandemias. E tudo parava.

Por isso dei a este texto o título de “O Eu ou o Nós? E A História do Amanhã”! Será que o “eu” foi substituído pelo “nós”? Será que há verdadeiramente “eu” ou só há “eu” na medida em que há egos exacerbados?

Crio o conceito e defino o objetivo. Consigo pensar no “meu” jogo do Basquetebol como o “eu“…, se isolado de todo o resto? Definitivamente, não consigo! Não há basquetebol sem pessoas, não há educação sem pessoas, não há vida humana se não existirmos como espécie. Não há “eu”!

E talvez seja aqui que o Basquetebol se cruza com a vida. Como sobreviver a esta nova Doença? A vacina chama-se “nós”!

Observo: Somos milhares de milhões, concentrados, cada vez mais, em cidades cada vez maiores e precisamos de enormes recursos alimentares. Queremos mais espaço e consumir mais recursos naturais. Não há “eu”. Estamos todos, de uma forma ou outra, associados a “equipas”. Somos Países, raças, género, religião, clubes, estratos sociais, empresas, mas persistimos num comportamento errático que insiste muitas vezes no “eu”.

Diagnóstico: Estamos a acelerar a destruição dos recursos naturais, estamos a destruir o planeta.

Planeio: Temos que virar os canhões dos Fortes para o lado de dentro o mais rapidamente possível, pois o perigo não vem de fora; transformar o “eu” em “nós”, utilizar os recursos de forma sustentável, parar de crescer desta forma unicamente virada para o resultado, para o lucro à custa da destruição de tudo que nos rodeia é a solução.

É hora de agir: Educar, em toda a dimensão da palavra. Educação para todos, a todos os níveis. O Basquetebol, o meu que é nosso, é também ou essencialmente educação.

Como treinador o “meu” sucesso não depende de mim, treino pessoas; como dirigente trabalho com pessoas, como líder de organizações dirijo pessoas. O sucesso de todos faz o meu.

A História do Amanhã constrói-se voando no tempo para saber mais, sem ter medo de usar a inteligência, a inovação, a ciência e a tecnologia. Faz-se com equipas não têm medo de errar, de sonhar, de falar ou sugerir, feitas de “muitos eus” que pensam em “nós” e por isso progridem, ajustam e conseguem os resultados, num perpétuo movimento.

Temos o poder de inspirar outros, com competências e sorrisos, porque trabalhamos com crianças e com elas aprendemos cada vez mai s e nelas bebemos, diariamente, toda a energia. A solução tem de estar em cada um de nós e, para isso, só a Educação é o caminho! Mas a educação das crianças deve ser acompanhada da educação dos adultos.

A Covid-19 é como uma chamada de atenção para a humanidade, sendo que nos é dado ter a vacina que ainda pode resolver o problema. Mas se continuarmos no caminho da destruição da nossa “casa” não há vacina que resulte. Não há vacina para a estupidez ou extremismo seja de que forma for. A vacina para as loucuras do “eu” chama-se “nós”!

Adoro o basquetebol. Se jogarmos juntos todos os sonhos são possíveis. O jogo só é possível porque há vida humana e a defesa desta é, na nossa geração, a partida mais importante que temos pela frente. E não exagero se disser que estamos a jogar um prolongamento ou “um desconto de tempo”.

Acredito na educação, na ciência e mais que tudo, na humanidade. Sou professor!

Partilhe este artigo:

Artigo anteriorGame changer?
Próximo artigoSeguir o dinheiro!
- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

Um país na flor da idade

Nos últimos 20 anos Angola sofreu inúmeras transformações, desde a mais simples até à mais complexa. Realizou quatro eleições legislativas, participou pela primeira vez numa fase final de um campeonato do mundo, realizou o CAN e colocou um satélite em órbita.

David Cameron

David Cameron foi Primeiro-Ministro do Reino Unido entre 2010 e 2016, liderando o primeiro Governo de coligação britânico em quase 70 anos e, nas eleições gerais de 2015, formando o primeiro Governo de maioria conservadora no Reino Unido em mais de duas décadas.

Cameron chegou ao poder em 2010, num momento de crise económica e com um desafio fiscal sem precedentes. Sob a sua liderança, a economia do Reino Unido transformou-se. O défice foi reduzido em mais de dois terços, foram criadas um milhão de empresas e um número recorde de postos de trabalho, tornando-se a Grã-Bretanha a economia avançada com o crescimento mais rápido do mundo.

Conferências com chancela CV&A

Ao longo de duas décadas, a CV&A tem vindo a promover conferências de relevo e interesse nacional, com a presença de diversos ex-chefes de Estado e de Governo e dirigentes políticos de influência mundial.

As idas e vindas da economia brasileira nos últimos 20 anos

Há 20 anos, o Brasil tinha pela primeira vez um presidente alinhado aos ideais da esquerda. Luiz Inácio Lula da Silva chegava ao poder como representante máximo do Partido dos Trabalhadores (PT).

Uma evolução notável e potencial ainda por concretizar

Moçambique há 20 anos, em 2003, era um país bem diferente do de hoje. A população pouco passava dos 19 milhões, hoje situa-se em 34 milhões, o que corresponde a um aumento relativo de praticamente 79%, uma explosão que, a manter-se esta tendência será, sem dúvida, um factor muito relevante a ter em consideração neste país.

O mundo por maus caminhos

Uma nova ordem geopolítica e económica está a ser escrita com a emergência da China como superpotência económica, militar e diplomática, ameaçando o estatuto dos EUA. Caminhamos para um mundo multipolar em que a busca pela autonomia estratégica está a alterar, para pior, as dinâmicas do comércio internacional. Nada será mais determinante para o destino do mundo nos próximos anos do que relação entre Pequim e Washington. A Europa arrisca-se a ser um mero espetador.

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -