Quarta-feira, Março 3, 2021

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Depois da Tempestade Vem a Cobrança

Pedro Santos Guerreiro, Jornalista

Calma, não venho de Nostradamus. Mas só encontro fundamento para a esperança na União Europeia e no ímpeto empresarial. Mais importante que faturar não é lucrar, é desenvolver.

Chavões não são chaves, mostram uma porta mas não a abrem. Falar de “esperança” na recuperação económica, de “futuro” nos fundos comunitários ou de “oportunidade” nas ameaças é muito bonito, mas sem apontar caminhos é querer acender velas dentro de água.

A pandemia asfixiou uma economia já com dificuldades respiratórias. Podemos recriar o alfabeto da retoma, mas depois do U, V, W vem o X que é preciso superar. Passemos das letras para os números: 140%. Será o peso da dívida pública, mais coisa menos coisa, num PIB que descaiu vários anos para menos de 200 mil milhões de euros de novo no final de 2020. Não é uma barreira psicológica, mas patológica: o nosso crescimento sistematicamente baixo, que será ilusoriamente alto em 2021, pela recuperação parcial sobre o ano seguinte ao 19 que nomeou este Covid. No total, o endividamento da economia é um raios-parta de 740 mil milhões. Credo.

Se tudo correr bem, estamos mal. Não é preciso fantasiar novos fins do mundo para percebê-lo. Mesmo sem crises adicionais, mesmo se as taxas de juro se mantiverem estupidamente baixas, se as vacinas engaiolarem o vírus, se o turismo até recuperar, continuaremos na armadilha de uma economia ultra-endividada e de baixo crescimento, sem poupança acumulada nem grande capacidade de investimento, pagando impostos altos e recebendo salários baixos. Em média. Porque a desigualdade aumentou, a pobreza aumentou, e portanto os riscos sociais e políticos aumentaram. E os bancários, à medida que os apoios se desmamem e o fim das moratórias mamem o rendimento em queda.

Estas desigualdades não são só dentro do país, mas também entre países. Portugal é um rico país pobre, quando comparado com os demais da União Europeia. E isso, que condicionou a resposta na pandemia, condiciona também o ponto para a recuperação: nos países que mais puderam apoiar a sociedade, destruiu-se menos.

Bom, mas e então, enforcamos o futuro? Não. Benzemonos por pertencer à União Europeia e arregaçamos as mangas da camisa, mas não de um traje de fantasia.

A UE reagiu como nunca tinha reagido e foi isso que salvou vários países, incluindo Portugal, da bancarrota. Não foi por súbita inspiração, mas por medo da quebra da Itália “too big to fail”, que os estados-membros abriram espaço para um discurso e ação mais coesos, liderados por Merkel, Macron, von der Leyen e Lagarde. Foi a política monetária do BCE, e o expansionismo orçamental consentido pela Comissão Europeia, que deram amparo aos que de outra forma se teriam estatelado. E, mesmo com todos os reveses, é o fundo de recuperação e o quadro comunitário que nos poderão permitir fugir do limiar da ravina. Já sabemos que o Estado desfilará empreitadas, reforçando o necessário investimento público. Mas os apoios às empresas, a sua velocidade e critérios de aprovação, serão um trampolim ou um plinto. Porque só se cresce investindo e a disputa pelo investimento estrangeiro não basta, como nunca bastou.

É daqui, deste dinheiro de Bruxelas, que vem a esperança de uma retoma mais rápida ou mais lenta, o que exige também uma administração pública muito mais ágil do que aquela que conhecemos, que só não entope na Administração Tributária, a única que tem tecnologia em boas condições. O Estado investe no que lhe dá mais retorno a si, isto é, a ele: na cobrança de impostos.

Depois há a vida das empresas, que padecem elas próprias também de falta de investimento, causa muitas vezes ignorada da baixa de competitividade. E isso coloca aos seus gerentes e gestores uma necessidade de imaginação, para que se vá além de formas de cortar custos e de renegociar dívidas. Não é tarefa fácil, numa economia que encontra em grande parte nos serviços (incluindo o turismo) o caminho que exige menos investimento e de que resulta menos valor acrescentado, logo lucros e salários menores, logo acumulação de capital e rendimentos mais baixos. Não, não é tarefa nada fácil, num mercado interno tão pequeno, tão desigual e tão tributado, coisa que incentiva querer crescer daqui para fora, isto é, exportar. Mas é no cruzamento entre essa imaginação, uma cultura social de combate à desigualdade e saber recorrer aos fundos comunitários (com destaque para os projetos tecnológicos ou que melhorem pela utilização de tecnologia) que está a porta de saída mais ampla.

Depois da tempestade virá a cobrança. A pandemia Covid-19 destruiu a economia, agravou as fragilidades anteriores e deixou contas astronómicas por pagar, que só não são maiores porque a União Europeia acudiu acudindo-se a si própria, mas cujo perímetro está ainda longe de estar fechado, como acabaremos por ir sabendo. É costume dizer-se que o único sítio em Paris de onde não se vê a Torre Eiffel quando se olha em frente é quando se está debaixo dela. É, pois, bom que saibamos onde estamos para sabermos daí sair sem ilusões. E para não confundirmos a nossa aspiração de um futuro com um futuro que nos aspire a nós.

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