Quinta-feira, Outubro 21, 2021

No meio já não está a virtude

Filipe Santos Costa, Jornalista

Houve – há de ter havido… – um tempo em que no meio estava a virtude. Os antigos diziam-nos isso. No meio estava a ponderação, a moderação, literalmente a mediação. A capacidade de estar entre as metades, de ouvir as partes, alcançálas e fazer pontes. O meio-termo significava equilíbrio, balanço, abertura e compromisso. Esse tempo passou.

No debate público o meio-termo tornou-se terra de ninguém. A aproximação e o compromisso passaram a ser olhados como sinónimos de derrota. E quem gosta de perder? O mantra guerreiro das redes sociais impõe vitórias ou morrer tentando. Tudo ou nada. Sente-se todos os dias nas redes sociais, cujo ambiente tóxico contamina todo o debate. O terreno do meio, da argumentação, dos pequenos passos, da procura de pontos de contacto, passou a ser o terreno “do outro”, pois quem não está com, está contra. Tribos têm de tribalizar.

Portugal está longe da polarização que se vê na América de Trump, no Reino Unido do Brexit, ou no Brasil de Bolsonaro, mas também por cá os sinais são inequívocos. Quem tente uma crítica moderada a excessos reaccionários de alguma direita com um distinto aroma a incenso e salazarismo, é acusado de branquear excessos bolcheviques, marxistas, estalinistas, chavistas ou norte-coreanos. Quem se demarque de agendas artificialmente fragmentárias ou micro-identitárias de alguma esquerda de faca nos dentes é conotado com fascismos de toda a espécie. Estar no centro equivale a usar um alvo nas costas. Mesmo dentro de partidos que sempre reuniram correntes diferentes a tentação de depuração ideológica ganha terreno, em nome de um purismo ficcional. Quem se posiciona no centro é atacado pela esquerda e pela direita. No meio já não está a virtude, está a vítima.

Mal sabíamos, quando temíamos o ‘bug’ do milénio, que o ‘bug’ que mudaria as nossas sociedades não resultaria de dificuldades digitais, mas de capacidades digitais. A generalização, acesso e facilidade de comunicação em rede prometia mais comunicação, maior abertura, melhor informação e cidadãos mais bem equipados para a cidadania. Enfim, mais liberdade e poder para cada um, em melhores democracias. Os antigos diziam que quando a esmola é grande o cego desconfia – neste caso, a máxima mantém-se atual. Devíamos mesmo ter desconfiado.

Se todos falam, quem ouve? Se todos têm voz e as redes sociais a todos dão megafone, quem se distingue na vozearia? Os que sabem mais?, os especialistas? “Had enough of experts”, proclamou Michael Gove, e com essa sentença de morte aos especialistas sentenciou o caminho do Brexit, que era o que lhe interessava quando lançou a fatwa. A voz do expert é só mais uma – ou uma a menos, se continuarem a ser alvo da desconfiança que corrói a autoridade dos que antes tinham o poder de explicar o mundo e construir narrativas.

A tecnologia implodiu as narrativas, fragmentando-as em milhões de histórias, já não partilhadas verticalmente, a partir dos que detêm o poder ou o saber, mas horizontalmente, entre iguais cujo poder é o de decidirem, cada um, qual é a sua verdade. Se há muitas verdades, não há verdade nenhuma. Se não há verdade, não há mentira. Só há pontos de vista. Se tudo se equivale, vale tudo.

Não é por isso que a realidade muda ou desaparece – a verdade pode não estar lá fora, ao contrário do que acreditavam o Mulder e a Scully, mas a realidade está. A realidade não se perdeu, mas perdeu-se a capacidade para a discutir e chegar a acordo sobre ela, porque não há acordo nem sobre o que ela é, nem sobre o que significam as palavras com que a podemos discutir. É só gritaria. A “cultura do conflito”, como lhe chamou o Papa Francisco.

O Brexit, e a vitória de Donald Trump, só foram possíveis porque a tecnologia não só destruiu as grandes narrativas como implodiu a factualidade. Os factos são chatos. Para quê ouvir factos desagradáveis se podemos ouvir opiniões que nos confortam? Basta que haja a hipótese de escolher – e esta é a novidade: há. Podemos ouvir, ler e ver só o que reforça as nossas opiniões, deixando-nos no quentinho das nossas certezas. Achamos que… e o algoritmo garante que há mais quem pense o mesmo, portanto, há de ser verdade. Pouco importa se aqueles em quem encontramos eco são escolhidos pelo algoritmo precisamente porque há uma forte probabilidade de identificação mútua. É batota, mas fingimos não saber. A magia do algoritmo é essa: enxotar o sofrimento e o estigma do isolamento. Somos “nós” contra “eles”. É nesta bipolarização que se forjam tribos. Num mundo de referências incertas, a tribo dá certezas.

As audiências dos programas televisivos de debate sobre futebol confirmam que há muito público para esse exercício simples, narciso e autista de defesa cega dos nossos e ataque aos outros. O clube é a tribo. Como a cor se tornou a tribo, ou a idade, ou a classe social, o género, a profissão, a cidade ou região, a religião ou a orientação sexual. Eu sou vermelho, verde ou azul. Preto ou branco. Sou isto ou aquilo. Eu sou – essa é a minha identidade. A minha tribo. E a forma mais eficaz de se fazer ouvir é falar à tribo, cada vez mais alto, e apelar à identidade, de forma cada vez mais radical.

As políticas viraram identitárias – não apenas essas a que costumam colar esse rótulo, mas todas. Não é só o #metoo, e os discursos sobre raça, e as bandeiras arco-íris. Tudo é identitário. Trump percebeu isso ao falar para os brancos

  com poucos estudos e os desempregados que ruminavam ressentimento contra os mexicanos, os chineses e o globo em geral. Putin já tinha percebido isso ao falar para os deserdados do império soviético e para os nostálgicos da Mãe Rússia. Nigel Farage percebeu isso ao fazer vibrar cada corda do medo, da desconfiança, da insegurança e da desinformação de uma multidão de gente, todos diferentes, todos iguais na ilusão autodeterminada do “take back control”.

O debate tornou-se identitário, tribal e extremado. Deixou de ser sobre caminhos diferentes para futuros gloriosos e amanhãs que cantam, para ser sobre mínimos denominadores comuns de medo, inveja e raiva. Trump e o Brexit, sempre eles, mostraram-nos o futuro (Putin também, mas a Rússia é outra história, dói menos, pois nunca teve pergaminhos democráticos): não é preciso falar para todos, nem sequer tentar convencer uma maioria – basta falar para a minoria “persuasível”, se não para conquistar o seu apoio, pelo menos para garantir que não apoiará o outro lado.

A tecnologia e as redes sociais dizem-nos quem são esses que têm a chave das democracias: o segredo está nos ‘likes’. Se gostam disto, se aprovam aquilo, se escrevem outro tanto, então pensam assim. E se pensam assim, são assado. E vão fazer isto – o algoritmo sabe, mesmo se os próprios não sabem. Somos demasiado previsíveis. Basta dar um empurrãozinho, para garantir que o algoritmo não falha: toca a bombardear o “persuasível” com dados que lhe espicacem os instintos, reforcem os medos e mobilizem a ação. Peter Pomerantsev, o autor de “This is not propaganda”, conta que à campanha do Leave bastou um mix de 70 mensagens diferentes nas redes sociais para atingir as audiências que interessavam numa população de 20 milhões. Ganhou o Leave. Uns milhões de votos conquistados aqui, uns milhões de votos suprimidos ali, pela força da dúvida incutida pela desinformação.

Esta dúvida, ao contrário da dos filmes de Hollywood, nem tem de ser uma dúvida razoável. Até será melhor que não seja. A razoabilidade é vizinha da moderação, e ambas moram no centro. Onde não há tribo. Por isso o centro está cada vez mais desconfortável e despovoado. Por este andar, no meio só restará o vazio.

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