Sexta-feira, Maio 20, 2022

“Investimentos em Sines vão reforçar a competitividade nacional”

Fotos: Fernando Piçarra

Entrevista a Filipe Costa, Presidente da Comissão Executiva da AICEP

Ricardo David Lopes

Os projectos anunciados para Sines nas áreas da petroquímica, energias renováveis, incluindo de hidrogénio verde, acessibilidades e infra-estruturas de dados e telecomunicações vão fazer do complexo uma estrutura ainda mais competitiva, garante o presidente da Comissão Executiva da aicep Global Parques. A aposta mais recente em centros de dados e captação de cabos de amarração para dados, explica Filipe Costa, vai trazer novo negócio.

O vosso negócio cresceu cerca de 9,5% em 2021, face a 2020. Sem efeitos da pandemia teria crescido mais?

Prevíamos crescer 9,42%, ficámos em 9,43% [para perto de 14 milhões de euros], mas já estávamos a considerar a pandemia, tal como em 2020. Poderíamos ter crescido mais sem a Covid-19. O nosso volume de negócios reflecte essencialmente a taxa de ocupação na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), que vale mais de 80% do total, e onde cobramos os direitos de superfície dos terrenos, ou seja, o crescimento significa que a taxa de ocupação aumentou.

Com quem?

Sobretudo graças à passagem de reserva a direito de superfície dos terrenos para os projetos “Start – Sines Transatlantic Renewable & Technology Campus” [um mega centro de dados de 495MW a energias renováveis promovido pelo consórcio anglo-americanos Start Campus, em parceria com a AICEP, a Câmara Municipal de Sines e Governo] e da expansão do complexo petroquímico da Repsol. Houve ainda alguns contratos para a instalação de unidades mais reduzidas, sobretudo de indústria química.

Porque não cresceram mais?

Por todo o mundo houve decisões de investimento adiadas e aqui também – no Complexo Portuário, Logístico e Industrial de Sines, no Porto de Sines e na ZILS. Mas este ano prevemos crescer 15 por cento.

Como?

A passagem de reserva a direitos de superfície plenos dos terrenos do “Start” e da Repsol vai gerar mais negócio, porque irá reflectir o ano inteiro, e temos outros projectos em vista.

Algum dos projectos adiados pode ser retomado?

Sem dúvida, vários projectos de energias e gases renováveis deverão surgir, a par de outros que não impactarão no nosso volume de negócio, porque são reinvestimentos dentro de unidades que já existem e cujos terrenos já estão arrendados aos clientes. Dentro da área do complexo da Repsol também há fortes investimentos na descarbonização do próprio complexo e na introdução de uma maior circularidade na produção dos polímeros – vamos, aliás, passar a ter os produtos finais para a indústria transformadora de plástico, o polietileno e o polipropileno. Há também dois projectos-chapéu na refinaria da Galp.

Quais?

O conceito de “green energy hub” [até 2030], com uma série de elementos de descarbonização da actividade refinadora, e o “Moving to Sustainability”, ligado à descarbonização dos transportes que não se prevê no futuro que sejam electrificados, como o aéreo, o marítimo ou de mercadorias via TIR.

Os projectos para Sines para os próximos anos rondam os 18 mil milhões de euros de investimento. É também um sinal de competitividade vossa?

O importante é a competitividade do país. São grandes investimentos logísticos, energéticos e industriais de matérias base e em infra-estruturas tecnológicas. O nosso parceiro, Porto de Sines, com o Terminal XXI em expansão, vai duplicar a capacidade de dois para quatro milhões de contentores/ano, e quando for feito o Terminal Vasco da Gama, volta novamente a duplicar para oito milhões de contentores – o que já é comparável ao porto de Hamburgo [8,5 milhões], por exemplo.

Ganham escala…

Acrescenta escala e uma grande competitividade ao desenvolvimento da nossa Zona de Actividades Logísticas (ZAL), com perto de 270 hectares, que está na retaguarda destes dois terminais de contentores e do Terminal Multiusos de Sines – o antigo terminal de carvão que, quando estiver orientado para novas cargas, vai permitir uma grande inserção de Portugal nas cadeias logísticas globais, o que vai reforçar competitividade nacional.

Que novas cargas?

Uma das ideias que estamos a explorar como sendo mais viável é o comércio intercontinental de produtos agrícolas, ligando América do Sul, Europa, Médio Oriente e Norte de África.

O concurso para o Terminal Vasco da Gama ficou vazio…

A pandemia teve esse efeito, isso não atrasou o processo, porque o que faz sentido é que o Vasco da Gama comece a ser construído quando estiver concluída a expansão do Terminal XXI, em 2025. O concurso deverá ser lançado agora, no primeiro semestre. Também os investimentos em curso e por lançar nas acessibilidades rodo-ferroviárias vão reforçar a competitividade do complexo de Sines.

“PREVÍAMOS CRESCER 9,42% EM
2021, FICÁMOS EM 9,43%, MAS
JÁ ESTÁVAMOS A CONSIDERAR
A PANDEMIA.”

As funções do complexo têm vindo a aumentar…

Sim. Começou com granéis líquidos, petroquímica, e carvão e gás. Quando se fez o Terminal XXI, passou a ter carga contentorizada, que ninguém quer que seja apenas para ‘transhipment’, dado que serve também para optimizar as nossas importações e promover as exportações e a actividade reexportadora.

Captar mais projectos energéticos, de renováveis e hidrogénio, é uma aposta?

Sem dúvida. Parte do crescimento que contamos ter este ano tem muito a ver com a instalação de novos clientes da área de produção de gases renováveis. Neste momento, temos perspectivas de dois projectos-tipo de hidrogénio e amónia verdes, com investimentos acima dos 1.000 milhões em casa. Na Repsol, há projectos de descarbonização, mas também há a perspectiva de uma eco-fábrica de reciclagem química.

Para reciclar o quê?

Todo o lixo da Área Metropolitana de Lisboa, Alentejo, Algarve – excepto aquele que tem que ter reciclagem mecânica, como o vidro ou os metais. Deste processo de reciclagem química sai etileno circular, que depois é injectado no processo produtivo do complexo petroquímico, e o resto vai para biometanol.

O projecto de hidrogénio verde, GreenH2Atlantic, coordenado pela EDP-R, é um dos que está na calha…

O piloto arranca com 100 MW, mas o projecto é escalável até 1GW ou 2GW. Tem a EDP e tem a Galp, sendo que o grande consumidor de hidrogénio é a refinaria, que actualmente consome hidrogénio cinzento do ‘cracking’ do gás natural. Ligado a este processo há um plano muito interessante, liderado pela REN, de construção de um anel em torno do Complexo de Sines para distribuição de gases renováveis às indústrias. O nosso objectivo aqui é descarbonizar o complexo e atrair mais indústria química.

Um dos vectores de desenvolvimento recentes em Sines está ligado às telecomunicações e energia….

O “Sines Tech” foi lançado em Outubro de 2019, com o presidente da Câmara de Sines e com o próprio potencial primeiro cliente, a EllaLink. Lançámos este “produto” porque vimos aqui um novo espaço…

Porquê?

Há um contexto que tem a ver também com o quadro regulatório da União Europeia e com a estratégia para haver ‘data gateways’, ou seja, processamento de dados europeus, na Europa. Havia cidades líderes nesta matéria, conhecidas pelo acrónimo FLAP, às vezes FLAPD [Frankfurt, Londres, Amesterdão, Paris e vezes Dublin], e estes ‘data centers’ vão ser cada vez maiores e terão de ser alimentados por energias de fontes renováveis. Vão também querer ficar perto de ‘clusters’ de amarração de cabos. Vai, assim, haver novos polos, necessariamente na costa, de amarração de cabos submarinos de telecomunicações, e grandes centros de dados fora dos centros urbanos.

São grandes consumidores de energia…

Sim, a maior parte do custo é em electricidade. Achamos que reunimos em Sines todas as condições: temos, a Norte do Cabo de Sines, uma morfologia de costa muito boa para amarrar cabos – é funda, rochosa, parte é ainda jurisdição portuária, tem pouca actividade humana, é possível fazer canais de acesso, etc.. Temos terreno público, para projectos escaláveis, temos uma enorme intensidade energética e há a perspectiva de vir a ter não só electricidade de fontes renováveis, como produção de hidrogénio no próprio complexo, para compensar, por exemplo, a intermitência natural da fotovoltaica e eólica. Temos ainda uma excelente interligação elétrica e a possibilidade de a desenvolver – o que está aliás a ser feito. Temos água industrial, temos infra-estruturas de tomada e rejeição de água do mar [para arrefecimento], ou seja, todas as condições para estes projectos.

“POR TODO O MUNDO HOUVE
DECISÕES DE INVESTIMENTO
ADIADAS E AQUI TAMBÉM, MAS ESTE
ANO PREVEMOS CRESCER 15%.”

“VAMOS PASSAR A TER OS
PRODUTOS FINAIS PARA A
INDÚSTRIA TRANSFORMADORA
DE PLÁSTICO, O POLIETILENO E
O POLIPROPILENO, GRAÇAS À
EXPANSÃO DA REPSOL.”

O que já está no terreno?

Já temos o cabo da EllaLink, que liga a União Europeia (UE) directamente à América do Sul (Fortaleza). É um cabo de grande capacidade, corta a distância para metade, tem algumas implicações de soberania também – por ser a primeira ligação directa da UE à América Latina que não passa pela América do Norte. Há agora a perspectiva de um novo cabo, o Medusa, que faz um circuito no Mediterrâneo e vai ligar Sines directamente a Marselha, actualmente o maior centro de amarração de cabos do Sul da Europa – já tem 15.

Há também o ‘data center’ de que falámos no início…

Sim, é um projecto grande, que pode ir até 3.500 milhões de euros de investimento, e há um outro em carteira – um centro de supercomputação.

Nacional?

Internacional, estamos aliás a ver com eles a questão das interligações e do fornecimento eléctrico, que são as mais relevantes. Estou confiante que, neste ano, pelo menos o cabo Medusa contratamos, e que, até 2023, vamos ter mais ligações. Há várias possibilidades de amarração de cabos que nos vão ligar ao Norte da Europa e aos EUA, sendo que um deles seria excelente, porque amarraria directamente Sines a Jacksonville, na Florida, e iria gerar muito movimento.

Têm também o BlueBiz, o parque empresarial de Setúbal. Qual é o ponto de situação?

Setúbal sentiu muito a crise pandémica. Os principais empregadores são duas fábricas de componentes aeronáuticos, um sector que, literalmente, “aterrou”. Chegámos a ter notícia da intenção de encerramento de ambas, mas tal ainda não ocorreu – e uma delas já reforçou até o compromisso de ficar.

Essas unidades estão paradas?

Uma já recuperou totalmente e está a tratar connosco de desenvolver a sua actividade, vamos aliás fazer alguns investimentos nas instalações deles, criando condições mais favoráveis para que possam ficar, é o nosso trabalho de retenção de investimento. A outra poderá estar num processo de consolidação, pode ficar ou não. Mas também concluímos que faltava lançar ali um vertical de infra-estruturas de telecomunicações, e há condições para acolher alguma indústria, nomeadamente agro-alimentar e química.

E o parque de Sintra?

O AlBiz é um parque pequeno. Temos 11 clientes – e está cheio! Em 2020 investimos num pavilhão grande para um cliente, já expandimos o possível.

A aicep Global Parques dispõe de uma ferramenta, o Portugal Site Selection, para apoiar empresas na escolha da sua localização no país. Tem muita procura?

É um serviço que prestamos com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, trata-se de uma ferramenta que concentra a informação oficial, agregando toda a oferta de localizações industriais e logísticas, e que tem como principais utilizadores ‘site selectors’, como bancos de investimento, escritórios de advogados, imobiliárias, contrapartes da aicep e mesmo colegas nossos em delegações no exterior. Já temos cerca de 70% dos municípios na plataforma, até porque alguns não têm parques empresariais ou industriais. Em 2021 tivemos 10.238 visitas oriundas de 132 países.

O serviço tem evoluído?

Começámos por ter, na ferramenta, apenas terrenos industriais, depois passou a ter lotes disponíveis de terrenos industriais dentro e fora de parques empresariais, infra-estruturados e não infra-estruturados, depois o mesmo para logística, e agora há um cadastro de activos que os municípios vão carregando. Há também, entretanto, a componente de espaços para escritórios.

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