Sexta-feira, Junho 25, 2021

“O nosso objectivo é lançar em 2021 a privatização”

Entrevista Carlos Duarte, PCA da ENSA

Ricardo David Lopes

De regresso aos lucros em 2020, após um processo rigoroso de saneamento financeiro, a ENSA aposta no reforço da sua marca e da sua presença e quer massificar o seguro de Saúde, sem esquecer o canal digital. Em entrevista, o PCA, Carlos Duarte, faz o balanço do primeiro ano de implementação do Plano Estratégico 2020-2022 da ENSA e perspectiva as prioridades, incluindo a concretização da primeira fase de privatização.

Depois das perdas em 2019, em boa parte graças à necessidade de realização de provisões, a companhia voltou aos lucros no primeiro semestre de 2020. Como correu o ano?

Tomámos um conjunto vasto de medidas, na sequência de um processo de revisão estratégica, que impactaram no exercício de 2020. Como exemplos, podemos apontar a revisão e não renovação de alguns contratos de prestação de serviços, o que nos permitiu conter as despesas; a regularização de AOA 10 mil milhões que eram devidos ao Fundo de Pensões ENSA à data de 31 de Dezembro de 2019; a negociação e regularização da dívida com os prestadores clínicos que, também no final de 2019, ascendia a AOA 12 mil milhões; a negociação e regularização de contingências fiscais que ascendiam a AOA 20 mil milhões; a melhoria do processo de cobrança dos prémios de seguro em dívida e a introdução de acordos de regularização de dívida; e o encerramento de alguns segmentos de negócio deficitários, como é o caso do centro médico, entre muitas outras.

A implementação destas acções traduziu-se num resultado positivo, que vai permitir adequar o capital social ao nível do exigido por Lei e reduzir os resultados transitados negativos.

[N.E. No momento da realização desta entrevista, as contas anuais de 2020 da ENSA ainda não haviam sido aprovadas, estando em fase de conclusão a sua auditoria externa].

Houve necessidade de constituição de mais provisões de algum tipo?

A constituição e reforço de provisões técnicas é uma constante na actividade de seguros, para fazer frente aos compromissos futuros.

Como evoluíram em termos de prémios nos diferentes tipo de seguro?

Verificámos um crescimento dos prémios em 39%, face a 2019, o que permitiu o aumento e consolidação da nossa quota de mercado para 37%, contra 35% no ano anterior.

A taxa de cobrança situou-se nos 89%, num ano em que se registou, por efeito da pandemia de Covid-19, uma quebra de cerca de 20 mil apólices, essencialmente em apólices temporárias (Assistência em Viagem, Transporte de Mercadorias) e no ramo automóvel na ordem de 9%, em linha com o mercado.

O produto Saúde cresceu 25%, o Aéreo, 45%, Incêndios, 86%, e Acidentes de Trabalho, 8%.

A Petroquímica registou um crescimento de 84%, muito por força da indexação cambial dos prémios, justificada pelos seus capitais definidos em dólar norte-americano, e os restantes produtos tiveram um crescimento residual e/ou negativo.

Quais as medidas mais relevantes do Plano Estratégico 2020-2022 que foram implementadas no ano passado?

Desde logo, a reestruturação orgânica da Companhia e o seu saneamento financeiro. Reforçámos o foco no ‘core business’ e deu-se início ao processo de descontinuação dos serviços complementares que não geravam sinergias à ENSA. Fizemos igualmente um maior investimento e especialização do Capital Humano.

E quais as mais desafiantes?

Todas!

Excluindo o processo de privatização, quais as prioridades em 2021, quer em termos internos, quer de novos produtos?

Continuaremos a implementar o Plano Estratégico 2020-22, que é transversal na ENSA e que não se esgota na preparação da Companhia para a privatização. Por exemplo, estamos a reconfigurar as nossas instalações de uma forma mais contemporânea e que suscite um trabalho mais agregado e cooperativo entre as várias equipas.

Estamos também a constituir novas parcerias na área da Saúde e para a gestão de peritagens que, para além de rendimento, atrairão sinergias muito importantes para as nossas actividades nestas áreas.

Há ainda um forte compromisso na exploração do canal digital, que abre um mundo que não é novo para nós, mas que oferece grandes oportunidades de crescimento.

Estamos a trabalhar na massificação do seguro de Saúde e a repensar

as nossas agências: trata-se de intensificar e melhorar a presença da marca e dos produtos ENSA nas várias províncias.

A privatização vai ocorrer por concurso público por prévia qualificação, num primeiro momento, e por via de dispersão de capital em Bolsa, num segundo. Podemos esperar, neste ano, que ocorra pelo menos a primeira fase?

É esse o nosso objectivo e, aliás, a expectativa do Poder Executivo. Como é natural, a dimensão de uma empresa como a ENSA atrai alguma complexidade e demora na preparação dos procedimentos. Mas cremos que estamos praticamente prontos para lançar essa primeira fase, para o que muito tem contribuído o apoio institucional que temos recebido do Ministério das Finanças e do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE).

“A CONSTITUIÇÃO E REFORÇO DE
PROVISÕES TÉCNICAS É UMA CONSTANTE
NA ACTIVIDADE DE SEGUROS, PARA
FAZER FRENTE AOS COMPROMISSOS FUTUROS.”

E oferta pública inicial?

Ocorrerá, efectivamente, numa segunda fase, cujo arranque não depende de decisão da ENSA, mas estamos em crer que é cedo para prever quando se realizará. Antes disso, é essencial que a primeira fase ocorra bem, como previsto, e que os seus resultados sejam consolidados.

De facto, a primeira fase não deixará de ancorar os bons resultados da segunda: os investidores em mercado de capitais sentir-se-ão certamente atraídos pelos investidores e boas soluções que sejam conseguidos neste momento.

No total, e em cada um dos momentos, que percentagem será alienada?

Trata-se, também, de uma matéria fora do âmbito de decisão da ENSA. O Despacho Presidencial que determinou o figurino de privatização da Companhia remete a competência dessa decisão para a Ministra das Finanças que, certamente, no momento que considerar mais oportuno, a comunicará à ENSA, aos demais intervenientes e ao mercado em geral.

Que tipo de investidores, e de que geografias, têm mostrado interesse na privatização da ENSA?

Têm características transversais. São nacionais, internacionais, do sector financeiro e de fora dele. Mas cremos que é cedo para falar sobre este aspecto, até porque ocorreram apenas contactos informais, meramente exploratórios, e certamente grande parte deles não foi feita directamente junto da ENSA.

Do ponto de vista regulatório/legislativo, que tipo de questões foram ou poderão vir a ser levantadas, em termos teóricos, pelo menos, por parte de potenciais investidores como susceptíveis de alteração?

Como é do foro público, a nova legislação da actividade seguradora em Angola está numa fase muito avançada de aprovação. Não deixará de reconfigurar o mercado em termos regulatórios, o que, aliás, já era uma antiga aspiração das seguradoras e demais actores do sector.

Um aspecto relevante levantado pelos projectos preliminares foi o da necessidade de separação dos ramos vida e não-vida em duas seguradoras diferentes. A ENSA oferece aí uma vantagem, uma vez que este requisito não se aplica às seguradoras que já se encontrem em actividade nos termos desses projectos.

Também não será de descurar a necessidade da avaliação dos impactos na sobre a concorrência que possam existir caso a ENSA venha a ser adquirida por um grupo segurador, tanto numa perspectiva angolana, como no seu eventual país de origem. Tra-
ta-se das operações de concentração actualmente escrutinadas pela nossa Autoridade Reguladora da Concorrência, que pode ter um papel fundamental.

A pandemia alterou as rotinas em todas as empresas. Como é que têm lidado com este problema, nomeadamente em termos de gestão de teletrabalho?

Desde o início da pandemia, a ENSA desenhou o seu Plano de Continuidade do Negócio Específico para Responder a um Cenário de Epidemia pelo Coronavírus (Covid-19), para garantir a integridade física dos seus trabalhadores/parceiros e dos serviços de apoio aos seus Clientes em todas as unidades onde desenvolve a sua actividade.

Definimos, desde Março de 2020, um Plano de Contingência orientado para a prevenção e mitigação dos riscos associados à propagação do vírus, em complementaridade com os Planos de Continuidade do Negócio (PCN), em particular o Plano de Prevenção de Pandemias (PPP), com o objectivo prioritário de assegurar a resiliência dos nossos serviços e um adequado ambiente para os nossos trabalhadores e partes interessadas.

Estas medidas foram avaliadas, numa primeira fase, diariamente, e revistas sempre que justificável por um Grupo de Acompanhamento para a monitorização da evolução do surto epidémico, constituído em conformidade com o PPP e com as regras de governo interno em matéria de gestão de crises (Plano de Gestão de Crise) e que tem recebido aconselhamento especializado em matérias de saúde.

Esta equipa multidisciplinar garante o acompanhamento de todas as condições para a gestão do trabalho presencial e não presencial, e o cumprimento das medidas e regras de segurança impostas pelo estado de calamidade pública.

A pandemia trouxe um problema de aumento de custos com segurados?

No ramo Saúde, que tem um impacto maior no nosso portefólio, não verificámos aumento de custos na componente ambulatória, uma vez que as pessoas continuam a evitar as unidades hospitalares. Verifica-se um aumento de custos, sim, no internamento, uma vez que as pessoas recorrem ao hospital apenas quando a doença se agrava pelo facto de não ter sido tratada no devido tempo. Por este facto, espera-se que em 2021 venham a registar-se custos elevados resultantes deste perfil comportamental.

A rede vai manter-se, com apoio do canal banca e outros, ou há planos para crescer?

Vamos continuar a apostar na mediação e em parcerias, de forma a aumentar a nossa capilaridade. Vamos também continuar a formar novos mediadores.

Como têm olhado para o digital como forma de relacionamento com Clientes e captação de novo negócio?

A transformação digital da ENSA está integrada no Plano Estratégico, para garantir a inovação e a eficiência pela aplicação da tecnologia certa e com o custo/benefício adequado às necessidades de negócio.

Estamos conscientes de que o público-alvo dos seguros ainda não é totalmente digital, mas estamos atentos às novas tendências, para facilmente nos adequarmos ao futuro.

A ENSA é um grande proprietário de imóveis em todo o País, em especial, em Luanda. Já têm um levantamento exaustivo? Vão alienar património ou constituir um fundo com estes activos?

Estamos a parquear o nosso vasto e histórico património de imóveis num novo fundo de investimento imobiliário, onde será sujeito a uma gestão verdadeiramente especializada e oferecerá melhores perspectivas de rendimento.

É uma medida que visa o preenchimento de muitos objectivos: desde logo, o reforço da atenção da ENSA sobre aquela que é, afinal, a sua actividade fundamental: comercializar e gerir seguros e fundos de pensões

Por outro lado, esta gestão especializada e especialmente regulada pela Comissão do Mercado de Capitais (CMC) melhorará, certamente, as condições de uso dos próprios inquilinos desses imóveis, o que também é um factor muito importante para nós.

Qual a estratégia para aumentar a literacia financeira dos angolanos, nomeadamente, cultura de seguros?

A literacia financeira é uma questão que envolve vários agentes, desde o Estado, às escolas e universidades, passando pelas autoridades de supervisão e fiscalização e, obviamente, pelas seguradoras. É nesse contexto que deveremos enquadrar este problema.

Do nosso lado, vamos fazendo o que nos compete, cooperando com os órgãos de supervisão do sector, com os órgãos de fiscalização, Ministério da Educação, Associação de Seguradoras de Angola, entre outros.

Por exemplo, temos campanhas pedagógicas de sensibilização para a importância dos seguros e de divulgação dos nossos produtos. Neste momento, a ENSA tem um programa de rádio, denominado Viva Seguros, com o intuito de informar permanentemente as pessoas sobre estes produtos.

A literacia de seguros passa também, por outro lado, pela criação de produtos para pessoas de poucos recursos, com uma comunicação adequada, criando deste modo a possibilidade de maior afinidade com os seguros por via da sua utilização. 

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