Quinta-feira, Abril 18, 2024

O mundo museológico de Maputo

Museu da História Natural
Foto: Adobe Stock

Especial Cultura – A Prémio no Mundo

João Vaz de Almada

O peso dos museus na capital moçambicana não é propriamente o mesmo das grandes cidades europeias, onde tudo está registado há séculos. Contudo, para quem quer conhecer um pouco mais da história, das artes, da cultura, da fauna e da flora do país, recomenda-se vivamente.

Museu de História Natural

O edifício é imponente e domina a Praça Travessia do Zambeze, na zona da Ponta Vermelha. O estilo rococó, terminando as suas colunas com motivos marítimos, não engana: trata-se do estilo manuelino e, neste caso, por ser relativamente recente, há que acrescentar o neo (novo). Aliás, em Moçambique, só há dois exemplos desta arquitectura: o arco do jardim do Tunduro e Museu da História Natural. A importância deste Museu é revelada na boca dos maputenses que a ele se referem simplesmente como o “Museu”, como se não houvesse outro. Efectivamente, o Museu de História Natural é largamente o mais visitado da cidade. Criado em 1913 com o nome de Museu Provincial, ocupou primeiro as dependências da Escola 5 de Outubro e, três anos mais tarde, passou para a Vila Jóia – actual edifício do Tribunal Supremo – por decisão de Álvaro de Castro, à época Governador-Geral de Moçambique. Finalmente, em 1932, foi transferido para a actual localização tomando o nome exactamente de Álvaro de Castro. Depois da independência passou a designar-se Museu de História Natural.

Uma águia de gesso pintada, de asas abertas, num pedestal, domina o átrio exterior. A dar as boas-vindas, ladeando a ombreira da porta, dois antílopes.

Lá dentro, fica um autêntico reino animal, com destaque para a savana africana. Ao centro, um grupo de leões lança-se na caça a um búfalo e nem falta o sangue no dorso deste enorme herbívoro. Num segundo plano, uma leoa toma de assalto o pescoço de uma zebra. Mais atrás, estão os grandes herbívoros: girafas, pala-palas, elefantes. Pelo meio, há a simulação de pequenos riachos. Lateralmente, a toda a roda, vão surgindo mais cenas da vida da savana, com leopardos, babuínos, rinocerontes, hipopótamos e mais uma profusão de antílopes. Subindo as escadas, à direita, fica a zona dedicada à fauna aquática. Tubarão de sete guelras, garoupas, bogas, barracudas, peixe-serra, e pinturas nas paredes simulam os vários mares dentro do majestoso oceano Índico.

Andando na galeria em redor, fica-se a saber a história da evolução dos vertebrados, destacando-se os mamíferos, os répteis, os batráquios, os peixes e as espécies extintas.

Uma sala simétrica à das espécies marinhas, alberga répteis e insectos. Nestes últimos, metodicamente colocados em gavetas, sobressaem as borboletas. Espalmadas em alfinetes, encontram-se minuciosamente catalogadas e possuem nomes impronunciáveis.

Uma colecção ímpar no mundo

A luminosidade de um dos topos do primeiro piso chama particularmente a atenção do visitante. É lá que fica a famosa colecção de fetos de elefante. Aqui estão retratados 14 períodos de 22 meses de gestação do elefante. O período longo justifica-se, por um lado, pelo facto de se tratar de um animal muito grande e por outro lado pela condição de herbívoro, o que determina a necessidade de um desenvolvimento completo ao nascer para poder acompanhar o andamento dos pais.

A existência desta colecção deve-se ao facto de, por altura da Primeira Guerra Mundial, os serviços de agricultura coloniais terem resolvido limpar a área do Sul de Maputo para projectos agrícolas. Para o efeito, foi organizada uma brigada de caçadores chefiada por um fiscal de caça de nome Carreira. Os animais, crias, machos e fêmeas foram indiscriminadamente abatidos. Na referida limpeza foram mortos dois mil elefantes, a espécie mais abundante na região. Felizmente que Carreia teve a feliz inspiração de guardar em formalina os fetos que foram encontrados. Actualmente, seria impossível fazer semelhante matança. E o mais curioso é que os terrenos acabariam, contudo, por não ter qualquer aproveitamento agrícola. E deste lamentável acontecimento ficou esta colecção única no mundo.

Museu Nacional de Arte

Museu Nacional de Arte

Instalado num edifício de linhas simples, modernistas, foi construído para servir de sede da Associação Indo-Portuguesa, tendo sido inaugurado em Julho de 1964. Após a independência, em 1975, o edifício passou para a posse do Estado.

É o espaço por excelência onde estão concentradas as obras dos maiores artistas plásticos moçambicanos e dos que viveram e trabalharam em Moçambique dos anos 50 até hoje, principalmente nos campos da pintura, escultura, desenho, gravura e cerâmica. A sua colecção integra ainda obras de arte que pertenceram a várias instituições coloniais, algumas delas de artistas de renome. O museu dispõe de uma exposição permanente que ocupa duas salas e organiza com regularidade exposições temporárias na sua área de especialidade. Em permanência podem-se comtemplar obras dos grandes Malangatana, Chichorro, Naguib, Bertina Lopes, Mucavele, Chissano, Vitor Sousa, Shikhani, Gemuce, e…muitos mais.

Museu da Moeda

Conhecido igualmente por “Casa Amarela” devido à sua cor exterior, o edifício data de 1878, sendo considerado o mais antigo de alvenaria edificado em Maputo. A arquitectura é indo-portuguesa, tendo sido propriedade de um comerciante indiano que o vendeu ao governo português pela quantia de 750 libras esterlinas. Como museu, foi inaugurado por ocasião das comemorações do 1º aniversário do “Metical”, a moeda nacional moçambicana, a 15 de Junho de 1981. Estão expostas cerca de 4300 moedas, peças monetiformes, notas e medalhas, sendo 1000 referentes a Moçambique. Mas há também moedas-mercadoria (argolas ou manilhas, enxadas, andas, aspas e cruzetas, entre outras) que circularam em África e em Moçambique. Entre as moedas-mercadoria expostas, pode apreciar-se o antepassado do metical. A 4,83gr de ouro em pó chamava-se o metical, termo de origem árabe. Era no interior de penas de aves iguais à que está exposta que o metical era transportado depois de se tapar a extremidade com cera de abelha. Várias salas do museu mostram, segundo um critério geográfico, moedas de diferentes partes do mundo, havendo ainda uma sala dedicada às medalhas.

Museu de Geologia

A imponência do edifício e a sua imaculada alvura não passam despercebidas na avenida mais extensa de Maputo, a 24 de Julho. Instalado na chamada “Vila Margarida”, uma construção do início do século XX, adaptada em 1992 para o actual propósito, no seu acervo contam-se 5853 amostras. As que despertam maior interesse são as pedras preciosas, as semipreciosas e os minerais industriais. A exposição distribui-se por várias salas, iniciando-se com o desenvolvimento da história da terra e alguns fósseis de Moçambique, incluindo uma maquete da geologia de Moçambique em relevo apresentada na escala 1 : 500 000; amostras de minerais; informação sobre a distribuição espacial dos minerais de Moçambique e o seu potencial económico; modelos didácticos de cristais e sua geometria; jóias feitas a partir de pedras preciosas e semipreciosas de Moçambique; entre outras informações e amostras dos recursos geológicos do país. Entre as peças, destaca-se um exemplar de rubelite, com 50 centímetros de altura, constituído por quatro colunas de cor violeta, extraído em 1956 na exploração dos pegmatitos de metais raros em Nahia, na província da Zambézia. Considerado um dos maiores cristais existentes no mundo, uma parte dele encontra-se num dos museus da Smithsonian Institution nos Estados Unidos da América.

Museu Nacional de Geologia
Foto: Jerónimo Muianga

Museu do Mar
Foto: Jerónimo Muianga

Museu do Mar

Inaugurado em Novembro de 2014, o Museu do Mar – primeiro teve a designação de Museu das Pescas – é o mais recente espaço museológico da cidade de Maputo. Projectado por José Forjaz, o mais conceituado arquitecto moçambicano da actualidade, o edifício, localizado num dos topos da Praça 25 de Junho, na baixa da cidade, tem a forma de um barco, “navegando” mesmo junto do porto de pesca. Com um espaço exterior e outro interior, o Museu pretende ser um repositório de uma das principais actividades da população moçambicana: a pesca.

No primeiro andar, o do espaço museológico propriamente dito, estão expostos painéis que explicam a construção das embarcações artesanais e actividades conexas; armadilhas construídas em palha para a captura de peixe; materiais de mergulho artesanais (barbatanas, óculos, respiradores, arpões, entre outros). Outra das atracções do Museu é o património imaterial da actividade de pesca, que inclui os testemunhos, uma colecção de músicas de pescadores e costumes apresentados em formato audiovisual.

“COM UM ESPAÇO EXTERIOR E OUTRO INTERIOR,
O MUSEU [ REPOSITÓRIO DE UMA DAS PRINCIPAIS
ACTIVIDADES DA POPULAÇÃO MOÇAMBICANA: A PESCA.”

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