Quinta-feira, Outubro 21, 2021

“É indispensável uma mudança de paradigma na maneira de encarar a velhice”

Entrevista a Manuel Lemos, Presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP)

Ana Valado

O modelo de apoio a idosos em vigor está desajustado. O perfil da sociedade portuguesa mudou muito. As pessoas têm expectativas diferentes em relação ao seu próprio envelhecimento, querem ficar em casa, mantendo a sua privacidade e tendem a dominar as tecnologias.
É neste contexto que surge o documento da UMP “Envelhecimento – Respostas Seniores do Futuro: um modelo de respostas especializadas integradas”, que analisa os desafios e as exigências do futuro em relação ao envelhecimento.
Manuel de Lemos, Presidente da UMP, em entrevista à PRÉMIO, fala-nos deste novo modelo de envelhecimento e da oportunidade de o implementar gerada pela pandemia Covid-19, que tornou ainda mais evidente a necessidade desta mudança de paradigma relativamente ao envelhecimento e à qualidade de vida dos idosos.

Porque surgiu agora a necessidade de um novo modelo de envelhecimento? O que está a correr mal nesta área?

O perfil dos idosos em Portugal mudou muito desde que começaram, em 1996, a ser implementadas em cooperação as primeiras políticas públicas em sede de envelhecimento. As pessoas têm expectativas diferentes em relação ao seu próprio envelhecimento, querem ficar em casa, manter as suas rotinas, a sua privacidade. Acresce que como vivemos mais anos, surgem quadros clínicos com duas ou mais doenças crónicas e são também cada vez mais comuns os casos de demência. Logo o actual modelo está desajustado. A UMP, sabendo que as Misericórdias que cuidam diariamente de mais de 55 mil idosos e das dificuldades e anseios das famílias e das instituições, entendeu que deveria propor um novo modelo de apoio que suscite o interesse e a reflexão por parte da sociedade.

Considera que este poderá ser o ponto de partida para uma discussão séria sobre o envelhecimento?

Foi justamente por isso que fizemos este trabalho, que é longo e exaustivo e por isso demorou muito a ser concluído. Estávamos a trabalhar nele quando fomos surpreendidos pela pandemia, que foi devastadora em muitos aspectos, mas tornou completamente evidente que o nosso propósito era imprescindível e urgente. Mais do que um ponto de chegada, a minha expectativa é que este trabalho seja um ponto de partida. A UMP conhece as principais dificuldades do trabalho de apoio aos idosos e este documento é a nossa contribuição para inverter a situação.

A adaptação física dos lares em termos arquitetónicos e recursos humanos diferentes e mais qualificados são duas das premissas presentes nesta proposta. Acha que a formação é indispensável para uma mudança de paradigma no tratamento e na maneira de encarar a velhice?

Claro que sim. Ainda há dias, na Cimeira Social do Porto, ouvimos a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmar que a formação deve ser diária, evolutiva e em consonância com os desafios que a transição digital impõe. Mas a formação não deve ser um objecto em si própria, deve sim servir para prestarmos um serviço cada vez melhor aos idosos e às suas famílias.

O documento privilegia o apoio domiciliário face às Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), os denominados lares. Em que medida as novas tecnologias, a inovação e a transição digital vêm permitir esta alteração?

O que o documento defende é uma alteração de paradigma. Todas as respostas dedicadas aos idosos estão no mesmo plano de importância, mas o pivô das políticas públicas já não pode ser a estrutura residencial. Parece-nos evidente que o novo pivô tem de ser o apoio domiciliário. Todas as pessoas querem ficar em casa o mais tempo possível. Acresce que os novos idosos têm um perfil já habituado às tecnologias, o que permite melhorar ainda mais o apoio prestado no domicílio, garantindo segurança, conforto e qualidade de vida. São inúmeras as soluções tecnológicas disponíveis no mercado e através delas também as famílias podem sentir-se mais tranquilas em relação à permanência dos idosos em casa. Claro que, repito não estamos a colocar de lado a importância do Lar. Os lares são e serão sempre vitais. O que estamos a propor é uma reorganização das respostas sociais para que as pessoas possam ser mais bem cuidadas e protegidas. Tudo o que queremos é pessoas idosas mais felizes.

A proposta destaca ainda da necessidade de uma transformação dos lares actuais, mais adequados ao perfil que o idoso tem hoje em dia, inclusive, fala de um “Lar do Futuro”. Em que consiste este projecto?

O “Lar do Futuro” visa adequar as estruturas ao novo perfil dos idosos. Por um lado, assegurar que a arquitectura está adaptada tecnicamente para prestação dos cuidados que pessoas frágeis e/ou com diversas doenças crónicas necessitam e, por outro, garantir que os mais debilitados e também os mais autónomos tenham privacidade e qualidade de vida, sem nunca colocar em causa a dignidade de cada um. Ao mesmo tempo, o “Lar do Futuro” propõe uma estrutura mais rentável do ponto de vista ambiental, o que terá certamente impacto nos custos de funcionamento. Mas o “Lar do Futuro” vai muito para além de uma mera estrutura física; importa salientar no “Lar do Futuro” a estrutura de recursos humanos para cuidar melhor das pessoas

A imposição de assistência médica nos lares faz parte desta proposta. Como é que esta obrigação não existe até então?

A obrigação existe e está confiada aos centros de saúde, mas a prática demonstra que os centros de saúde não conseguem cumprir e por isso temos de encontrar uma resposta eficaz e eficiente. Os lares acolhem pessoas cada vez mais frágeis e a estrutura pública de saúde não tem sido capaz de dar resposta a essas pessoas. Ou muda a resposta pública ou o Estado contratualiza connosco esse serviço de saúde.

“O “LAR DO FUTURO” VISA
ADEQUAR AS ESTRUTURAS AO
NOVO PERFIL DOS IDOSOS.”

Como é que estas reestruturações propostas ao modelo actual podem trazer um envolvimento maior das famílias junto dos seus idosos?

Se as pessoas estão no seu ambiente doméstico estão naturalmente mais envolvidas com as suas famílias. Por outro lado, a estrutura do “Lar do Futuro” garante privacidade para que o convívio familiar decorra com maior qualidade.

Outra mudança significativa neste modelo é que cada pessoa tenha direito a cuidados consoante as suas necessidades, através da criação de um “plano individual” de cuidados. Este modelo é exequível com os recursos humanos e financeiros que existem actualmente?

O plano individual de cuidados é um modelo de trabalho que apenas será possível se houver uma reflexão completa sobre o tema. Serão necessários meios humanos e financeiros para que funcione plenamente, mas tudo o que se gasta a montante, poupa-se a jusante.

“SE AS PESSOAS ESTÃO NO
SEU AMBIENTE DOMÉSTICO
ESTÃO NATURALMENTE
MAIS ENVOLVIDAS COM
AS SUAS FAMÍLIAS.”

Qual seria o investimento previsto para implementar este modelo?

Quando colocamos a questão do financiamento, é fundamental que nos centremos custo real das respostas em detrimento das percentagens dos parceiros da cooperação. Por isso, o modelo que propomos conjuga dois momentos que se completam. Num primeiro momento estamos claramente a falar em investimento, em SAD, na modernização dos lares, na transição ambiental, na transição digital, nos recursos humanos, em informação para a gestão, etc. Tudo isso enquadra-se perfeitamente na Plano de Recuperação e Resiliência. Num segundo momento, esse investimento conduzirá a melhor gestão e maior eficácia. Primeiro, eficácia imaterial, porventura a mais importante, que se traduz na qualidade e no índice de felicidade dos idosos. Depois num aumento da razoabilidade da despesa pública, o que conduz inevitavelmente a uma poupança futura.

Para a realização de um plano individual de acordo com a necessidade de cada um é necessário existir uma grande articulação com os ministérios do sector. Como deverá ser esse relacionamento?

Nenhuma alteração acontecerá se os Ministérios sectoriais (Segurança Social e Saúde) persistirem em estar de costas voltadas entre si e o sector solidário. O resultado das políticas ‘top-bottom’ demonstra que é preciso implementar mudanças. A primeira será incluir o diálogo civil, promovendo mudança no sentido ‘bottom-top’.

Como vê o futuro dos idosos em Portugal daqui a 5 anos?

Depende. Ou discutimos a sério ou os idosos viverão sempre pior. O “leitmotiv” daquilo que propomos é uma máxima do escritor francês Romain Rolland: “Fazendo enganamo-nos algumas vezes. Não fazendo enganamo-nos sempre”.

“O PLANO INDIVIDUAL DE
CUIDADOS É UM MODELO
DE TRABALHO QUE APENAS
SERÁ POSSÍVEL SE HOUVER
UMA REFLEXÃO COMPLETA
SOBRE O TEMA.”

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