Terça-feira, Agosto 16, 2022

“Decidi que a minha colecção iria ser de artistas portugueses”

As minhas colecções – António Cachola

Sara Antónia Matos, Curadora

Nesta breve entrevista, gostaríamos de saber um pouco mais da pessoa que está por detrás da constituição desta coleção. Antes das exposições ficarem acessíveis aos visitantes, há todo um trabalho de relações e articulações entre agentes do meio, muitas vezes invisíveis, que envolvem linhas de trabalho e programas artísticos, estratégias e paixões, bem como opções e éticas de aquisição.

Para quem nos lê e não está familiarizado com o que significa ser colecionador, pode dizer-nos qual a sua área de trabalho profissional, como chegou ao campo da arte e começou a colecionar?

Sou economista de formação e tenho desenvolvido, desde sempre, a minha vida profissional no contexto empresarial, com contactos muito próximos com as mais importantes áreas funcionais nas empresas, nomeadamente as áreas financeiras, recursos humanos, marketing, comercial, direção-geral, entre outras. Atualmente, sou administrador não executivo da Delta Cafés. De forma geral, creio que foram as viagens, que tive oportunidade de fazer ainda muito jovem, que me permitiram descobrir e aproximar-me, enquanto visitante, do fazer artístico e de diversas instituições museológicas. Consigo, claramente, identificar dois momentos que foram responsáveis pela forma como cheguei ao campo da arte e comecei a colecionar. O primeiro: as edições dos encontros de arte que aconteceram no Alentejo, concretamente em Campo Maior, durante a década de 1980, com a presença de artistas como Julião Sarmento, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Ilda David, Xana, entre muitos outros. O segundo, foi o surgimento do MEIAC (Museu Ibero Americano de Arte Contemporânea), na década de 1990, que eu acompanhei de muito perto. Posso dizer que comecei a colecionar por prazer, porém, desde cedo se insinuou também uma grande vontade de ver a coleção dar origem a um museu. A primeira exposição pública da minha coleção aconteceu em 1999, precisamente no MEIAC, e o protocolo para a criação do Museu de Arte Contemporânea de Elvas foi assinado em abril de 2001, entre o Ministério da Cultura, a Câmara Municipal de Elvas e eu enquanto colecionador.

Que tipo de disponibilidades e compromissos requer um colecionador? Desde que coleciona, passou a ir regularmente a inaugurações e ‘ateliers’ de artistas? Informa-se, estuda sobre arte?

No meu caso, a disponibilidade tem sido total e o meu compromisso permanente. Participar nas inaugurações, visitar e conversar com os artistas nos seus ‘ateliers’ é uma condição necessária para mim enquanto colecionador e uma prática recorrente que definiu o modo como a coleção foi criada. Gosto de perguntar aos artistas como, e com que obras, gostariam de se ver representados na coleção e isso sempre fez diferença. É também indispensável falar com curadores cujas conversas nos permitem ter aproximações diferentes às peças e ao trabalho dos artistas, ouvir outros colecionadores, acompanhar o trabalho dos críticos de arte, perceber como os galeristas gerem a presença dos seus artistas na respetiva galeria. É tudo isto, entre outras coisas, que eu tento fazer para me manter convenientemente informado enquanto colecionador. Ou seja, uma coleção é formada por um conjunto de obras, mas igualmente por um conjunto, ainda maior, de conversas.

Com consciência de que a arte é global, pode dizer-se que a sua coleção pôs um foco particular em artistas portugueses. Por que razão usou este critério para aquisição? Isso foi um modo de estimular o meio artístico português e um compromisso de fomento para com o sistema?

O meu critério foi desde o início muito claro. Decidi que a minha coleção iria ser de artistas portugueses, podendo estes viver e trabalhar dentro ou fora do país, que tivessem começado a expor pública e regularmente depois de 1980. A limitação da nacionalidade e a fixação de uma data foram fundamentais para estabelecer uma coleção com algum significado histórico, e também para a atualidade. Claro que o facto de os recursos financeiros serem sempre escassos, também obriga à existência de critérios. Escolhi os anos de 1980 para início da coleção porque esses anos corresponderam a uma década paradigmática no que à viragem para a arte contemporânea diz respeito, no caso português. Foi nessa altura que começaram a surgir no país museus e centros de arte que se vieram a mostrar decisivos para o futuro da arte contemporânea em Portugal. Ao concentrar a minha atenção nos artistas portugueses, que sempre considerei de extraordinária capacidade criativa e que sem qualquer margem para dúvida estão ao nível dos artistas estrangeiros, tenho consciência que, de uma forma natural, passei também a estimular o meio artístico português. Essa vontade de agir positivamente num meio que é, infelizmente, precário é uma característica intrínseca da coleção.

Procura seguir os artistas ao longo dos seus percursos, adquirindo várias obras durante os seus trajetos, ou dá primazia à pluralidade e diversidade de representação, optando por integrar na coleção obras de novos e diferentes artistas?

Para responder à sua pergunta vou citar Delfim Sardo num texto que escreveu sobre a coleção com o título “Um fino termómetro social” publicado em Coleção António Cachola Vol. 2012:

“[…] normalmente as coleções dividem-se em duas categorias, as coleções intensivas e as extensivas, ou seja, as coleções que se dedicam a um número restrito de artistas e acompanham o desenvolvimento dos seus percursos, e as coleções que efetuam cortes sincrónicos num leque amplo de artistas. A coleção Cachola foi desenvolvendo uma estratégia mista, quer alargando o espectro de artistas que foram sendo adquiridos, quer acompanhando os desenvolvimentos da arte praticada por artistas portugueses, com uma particular atenção às situações emergentes; simultaneamente, no entanto, foi efetuando aquisições e acompanhando o percurso de alguns artistas de forma intensiva.”

Esta estratégia mista continua a guiar a coleção. Quando as coleções atingem determinada dimensão, começam elas próprias a exigir a integração de outras obras, seja para encetar diálogos necessários, seja para dar continuidade a reflexões já presentes, ou ainda para inscrever novas saliências visuais e/ou temáticas. Usando a expressão e a metodologia desenvolvida pelo historiador Aby Warburg não posso deixar de dizer que há também uma lógica de “boa vizinhança” que permeia a coleção.

Pode dizer-se que na última década, tem dado especial atenção à diversidade geracional e de género dos artistas que compõem a sua coleção, bem como questões geopolíticas?

No que diz respeito à diversidade geracional posso dizer que sempre estive muito atento e a coleção sempre refletiu de forma equilibrada a coexistência de várias gerações. Por exemplo, no final dos anos 1990, ao mesmo tempo que adquiria obras de artistas como José Pedro Croft ou Pedro Calapez adquiri também o primeiro vídeo de João Onofre, uma edição de um exemplar, ainda em VHS. Em relação à diversidade de género, nos últimos anos temos tido uma atitude cada vez mais responsável e consequente, continuando a corrigir a situação inicial de desequilíbrio entre o número de homens e de mulheres. Nesse sentido, podemos dizer que hoje, sem sombra de dúvida, damos especial atenção à diversidade de género dos artistas que compõem a coleção. Contudo, importa dizer que não temos mérito nenhum nesta ação pois é uma obrigação ética que queremos ver refletida não só na diversidade de género, como étnica, de orientação sexual, entre outras. A preocupação com questões geopolíticas advém, por um lado, desta diversificação em curso, mas também de uma tendência que se reconhece nos filões temáticos explorados pelos artistas no geral.

Considera que, ao investir nas artes plásticas e mostrar a importância destas no seio social, está a exercer uma função política?

De alguma maneira, a minha coleção sendo privada tem hoje características de coleção pública. Na realidade, considero que ao investir nas artes, estou a incorporar valor naquela que tem sido, ao longo dos anos, uma verdadeira parceria público-privada de sucesso para a comunidade: a ligação entre a minha coleção e o município de Elvas que deu origem ao Museu de Arte Contemporânea de Elvas-Coleção António Cachola. Nesse sentido, posso afirmar que a inscrição de uma nova discursividade na vida e no espaço públicos envolve sempre uma ação política. Fazê-lo com a apresentação de uma diversidade de vozes como as que têm os artistas contemporâneos reforça ainda mais essa ação.

Nas diversas etapas de aquisição e de crescimento da sua coleção tem sido aconselhado por especialistas do meio, familiares ou outros (por exemplo, curadores) ou segue de facto a sua intuição pessoal?

Podemos dizer que o aconselhamento tem estado sempre presente. Fazer uma coleção implica escolher e este ato pode e deve ser alvo de múltiplas influências, embora no final seja sempre subjetivo. Na fase inicial da colecção, tive um apoio muito importante do curador João Pinharanda na escolha dos artistas e na seleção das suas obras. O Museu de Arte Contemporânea de Elvas abriu em julho de 2007 e, nessa altura, convidei o João Pinharanda para responsável da programação do museu, onde ficou durante três anos. A nossa proximidade, resultante dessa situação, permitiu que, nesse período, ele tivesse continuado a aconselhar-me no processo de crescimento da coleção. Por outro lado, a minha filha, Ana Cristina, tem sido e é hoje tão responsável pela coleção quanto eu, tanto ao nível macro de pensar a coleção no seu todo, nas suas exigências e deveres, como ao nível micro de aquisição das obras. Que obras de arte deverão ser essas? Na minha opinião, a coleção que já existe e as expetativas dos públicos face a ela, são determinantes para as novas escolhas. Procuro continuamente integrar na coleção obras que querem conversar com outras e ainda não têm a companhia adequada. A opinião dos galeristas e, acima de tudo, a cumplicidade dos artistas quando faço uma aquisição devem estar sempre presentes. Isto tem sido recorrente no processo de crescimento da coleção.

Joana Vasconcelos / Mace

Jorge Molder / Mace

Fernanda Fragateiro / Mace

Vista de Exposição / Mace

A Coleção António Cachola começou a ser construída no início da década de 1990 e reflete os últimos 25 anos da criação artística visual realizada por artistas portugueses, que começaram a expor pública e regularmente a partir da década de 1980. A coleção propõe uma cartografia dinâmica do sistema da arte português e resulta de um movimento constante de aproximação do colecionador a artistas e instituições. Desde o início, uma vontade pessoal de colecionar foi acompanhada pela determinação em conferir uma dimensão pública à coleção e, assim, em 2007, nasce em Elvas, cidade património mundial da Unesco, o Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE), instituição com tutela municipal que acolhe em depósito a Coleção António Cachola. (…) Sem limites técnicos ou temáticos, a Coleção António Cachola está em contínuo crescimento e é composta por mais de oitocentas e cinquenta obras de cerca de uma centena e meia de artistas.

[Apresentação da Coleção António Cachola; site da coleção-MACE]

Que papel podem desempenhar os colecionadores, sobretudo quando o sistema comercial está em fases de maior estagnação, crises financeiras ou momentos de incerteza?

Oportunidades e riscos existem sempre, tanto em momentos de crise como em momentos de euforia. Mesmo sabendo que os recursos financeiros são sempre escassos, principalmente em situações de grandes constrangimentos orçamentais, os colecionadores devem dar um contributo positivo para ajudar a minorar os problemas em contextos especialmente difíceis. Por exemplo, este ano o Museu de Arte Contemporânea de Elvas comemora 15 anos e estamos, sem dúvida, num momento de crise a nível global e de uma crise com várias faces, pandémica, climática, bélica, social e financeira. Como se pode comemorar neste contexto? Foi a pergunta que se colocou. E a resposta chegou no formato de um programa colaborativo e de descentralização da arte contemporânea em Portugal. Colaborar ativamente e de forma responsável é, sem dúvida, uma postura a adotar em momentos de crise.

Acabou de referir as comemorações dos 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Em que consiste esse programa colaborativo? Com que objetivos e intenções?

“15 anos de Mace – Aqui Somos Rede” é o ponto de partida para a celebração dos 15 anos do Museu de arte Contemporânea de Elvas. Desenvolvemos um programa de comemorações dos 15 anos da minha coleção no MACE para mostrar o trabalho feito, afirmar como nos posicionamos no presente e, acima de tudo, perspetivar o futuro da arte contemporânea no nosso país. Vemos esse futuro de forma colaborativa e cooperante. Por isso, e tendo em conta a conjuntura atual, convidámos 24 entidades (desde coleções privadas a instituições sem fins lucrativos) a mostrarem os seus projetos em Elvas, durante um mês, entre 15 de julho e 15 de agosto. A presença em Elvas destas entidades, com projetos expositivos inéditos, irá mostrar como o trabalho em rede é essencial para o futuro da arte. Também por isso, o fim-de-semana inaugural (15, 16 e 17 de julho) apresenta-se como uma festa da arte contemporânea. Os objetivos passam por celebrar, em conjunto, os 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas, e a cidade que o acolhe, através da cooperação interinstitucional. Neste âmbito, torna-se indispensável dar a conhecer a cidade de Elvas através de um circuito de arte contemporânea que promove o património, auxilia a regeneração urbana através da utilização de espaços sem uso corrente e estimula o envolvimento da comunidade artística e associativa da cidade. Procura ainda fomentar-se a diversidade artística num modelo de acessibilidade e proximidade com diversos tipos de públicos locais, nacionais e internacionais.

Já deu a entender a importância que dá à articulação entre entidades públicas e privadas. Para melhorar ou fomentar o desenvolvimento do sistema artístico, que tipo de articulações devem existir entre entidades públicas e privadas?

Articulações de complementaridade. Quando críticos de arte, diretores de museus, curadores e jornalistas estrangeiros, especializados em arte, mas também os públicos não-especializados, na sua amplitude e diversidade de interesses, visitam Lisboa e perguntam onde podem ver exposições de arte contemporânea com artistas portugueses, não temos uma resposta positiva, porque esse lugar não existe. Isso leva-me a dizer que, se as entidades públicas responsáveis disponibilizassem um espaço adequado na cidade, tenho a certeza de que os colecionadores privados, que são muitos, estariam disponíveis para emprestarem peças de artistas portugueses para integrar essas exposições. Desse modo, na capital do país, estariam acessíveis exposições extraordinárias de artistas portugueses, que poderiam ser vistas em qualquer altura do ano, colmatando a falha ou ausência atual. Dei este exemplo porque considero um problema que facilmente seria resolvido se entidades públicas e privadas pensassem em termos de complementaridade das suas políticas.

Três conselhos que daria a um potencial colecionador, alguém com vontade de iniciar uma coleção?

Se me permite, a um potencial colecionador, não darei três, mas sim um conselho que considero fundamental: comece a comprar porque é na continuidade da vivência dos processos de compra que se vão encontrar os melhores conselhos para as nossas aquisições e, acima de tudo, descobrir a paixão e a emoção que nos pode transformar de compradores de arte em colecionadores.

Já recebeu prémios a propósito da sua coleção. Que importância tem um reconhecimento para um colecionador?

Os prémios são por natureza muito estimulantes para quem os recebe. No caso do Prémio “A” ao Colecionismo Privado da Fundación ARCO, em 2016, foi com enorme satisfação e com grande honra que o recebi. Em primeiro lugar por ter vindo da instituição que veio e depois pelo facto de ter sido a primeira vez que este prémio foi atribuído a uma coleção em Portugal. Um reconhecimento deste tipo vem necessariamente associado a um reforçado estímulo para continuar a colecionar, agora com muito mais visibilidade, mas também com maior responsabilidade.

Diria que é um colecionador: estratega, apaixonado, compulsivo, investidor nato ou de tudo um pouco?

Sou certamente um colecionador apaixonado, mas acima de tudo, comprometido com as obras e os artistas da coleção, existindo um sentimento de dever na criação de projetos expositivos que permitam à generalidade das pessoas usufruir das criações.

Texto ao abrigo do novo acordo ortográfico

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