Domingo, Agosto 1, 2021

“A digitalização e a transformação tecnológica são vitais para o BFA”

Entrevista a Luís Roberto Gonçalves, PCE do Banco de Fomento Angola (BFA)

Ricardo David Lopes

A pandemia marcou o seu primeiro ano na liderança da Comissão Executiva do BFA, uma situação “desafiante” à qual o Banco respondeu com “resiliência e adaptação”. A aposta no digital é para reforçar neste ano, assim como o desenvolvimento do Capital Humano e a melhoria da eficiência de processos internos, diz Luís Gonçalves, o primeiro angolano à frente do BFA, uma casa que conhece bem, onde trabalha já lá vão 27 anos.

Se pudesse resumir em duas ou três palavras o ano de 2020, pela positiva e pela negativa, quais escolheria? Porquê?

Pela negativa, desafiante; pela positiva, consideraria resiliência e adaptação. A Covid-19 foi completamente inesperada, diria que nos apanhou totalmente desprevenidos. Num país como o meu – Angola -, em que já vivíamos momentos de enormes desafios, ter que lidar com uma pandemia, com uma grande capacidade de contágio e fatalidade, demanda um esforço tremendo, quer financeiro quer organizacional. Por todos os desafios por que estamos a passar, somente com uma grande capacidade de adaptação e enorme dose de resiliência tem sido possível, apesar de tudo, gerir esta crise.

Está há menos de um ano em funções como PCE, mas conhece bem a “casa”, pois está no Banco há muitos anos. Esta experiência em diferentes áreas internas está a trazer-lhe mais-valia na gestão? Em que medida?

Não há qualquer dúvida que as experiências passadas, sejam elas intra-organização ou adquiridas fora, ajudam imenso, mas não são tudo. Para altos cargos de gestão, e principalmente tratando-se de uma organização como o BFA, é preciso exercer a função para se perceber a dimensão do desafio. Outro aspecto que tem grande impacto no desempenho desta função é a equipa com que se trabalha, e neste aspecto posso dizer que tenho a sorte e o privilégio de ter ao meu lado profissionais de elevada qualidade e comprometidos com o Banco.

É o primeiro angolano a dirigir o Banco. Já era altura de o BFA ser liderado por cidadãos nacionais?

Considero mais importante a qualidade das pessoas. Na minha opinião, não importa tanto a sua origem ou nacionalidade. Neste campo, as apostas dos accionistas têm sido muito bem conseguidas. Ao longo de mais 27 anos de existência do BFA, as equipas de gestão do Banco sempre foram de elevada qualidade e competência, o que se tem traduzido num alto desempenho financeiro do Banco. Os resultados do BFA são prova disso.

Qual o balanço que faz do seu primeiro ano no mandato?

Apesar de todas as limitações e constrangimentos, considero o meu primeiro ano de mandato no BFA como muito estimulante e gratificante. Espero poder continuar a contribuir, nos próximos anos, para o crescimento e engrandecimento desta grande instituição, cuja causa abraço desde 1996.

Quais as grandes prioridades para os próximos anos?

Quando se está num Banco com a dimensão do BFA, a ambição é sempre muito elevada, ou seja, garantir que o Banco se mantenha como um dos maiores do sistema e que seja reconhecido pelos seus Clientes como um parceiro relevante. Para os próximos anos, vamos continuar a implementar as iniciativas que estão inseridas no nosso Plano Estratégico, no qual realço a aposta no reforço de competências internas ao nível do nosso Capital Humano, melhoria da eficiência de processos internos, maior proximidade com os nossos Clientes e parceiros.

Em teoria – porque se trata de uma decisão do accionista –, um banco com o perfil do BFA seria candidato a dispersar parte do capital em Bolsa?

Eu diria que sim. O BFA reúne os requisitos para que, quando os seus accionistas considerarem oportuno dispersar o seu capital em bolsa, o possam fazer com sucesso. No entanto, não considero que seja urgente: o BFA tem uma estrutura accionista muito sólida e com a qual os órgãos de gestão têm uma excelente relação.

Os resultados recuaram em 2020, com as provisões de imparidades para crédito a pesarem negativamente. O lucro ficou muito abaixo do esperado?

Os resultados ficaram cerca de 20% abaixo do que tínhamos orçamentado. Esta redução está, essencialmente, associada ao reforço de imparidades para a carteira de títulos da dívida pública angolana. Em 2020, Angola viu o seu ‘rating’ da dívida soberana revisto em baixa por várias agências internacionais, o que resultou na degradação da carteira de crédito ao Estado. No nosso caso, gerou a necessidade de reforçar o equivalente em kwanzas a 70 milhões de dólares norte-americanos, penalizando os resultados.

“APESAR DE TODAS
AS LIMITAÇÕES E CONSTRANGIMENTOS,
CONSIDERO O MEU PRIMEIRO ANO
DE MANDATO NO BFA COMO
MUITO ESTIMULANTE E GRATIFICANTE.”

Em 2021 será diferente em termos de malparado, ou a situação económica não está a ajudar?

Estou cautelosamente confiante que 2021 possa representar o início de um novo ciclo de crescimento da economia angolana. Não entanto, este crescimento não vai ter um impacto imediato na revisão em alta do ‘rating’ da dívida soberana de Angola, por isso, considero que os níveis de imparidades para risco de crédito, principalmente associado ao Estado, se mantenham elevados.

O teletrabalho ganhou muita força, por razões óbvias, com a pandemia. Como é que o BFA está a olhar para esta nova realidade?

Quando lhe indiquei como um dos aspectos positivos a adaptação, estava a referir-me à nossa capacidade de adequar a estrutura organizativa e funcional ao novo contexto do regime de trabalho, imposto pelas medidas de combate à Covid-19. Antes da pandemia não tínhamos Colaboradores em regime de turnos e em teletrabalho. Com o decretar do primeiro estado de emergência, fomos confrontados com a necessidade de implementar um programa de compra e distribuição de computadores portáteis para os nossos Colaboradores e a acomodação dos nossos sistemas e processos internos, para permitir que a nossa operação não fosse gravemente afectada. Hoje, passado mais de um ano, posso afirmar que fomos capazes de, em primeiro lugar, proteger a saúde dos nossos Colaboradores e das suas Famílias e, em segundo lugar, garantir a manutenção da operação do Banco e um nível adequado de qualidade dos serviços aos nossos Clientes. Acredito que, mesmo depois de esta pandemia passar, o teletrabalho vai continuar a ter importância na nossa operação e na vida do Banco.

“O BFA é um ‘player’ muito dinâmico e um dos mais relevantes dinamizadores no mercado de capitais de Angola”

O BFA, em especial através da BFA Gestão de Activos, tem assumido uma posição de liderança e destaque no mercado de capitais, por enquanto bastante limitado em termos de instrumentos. Qual é a vossa visão do mercado de capitais nacional, agora à luz das privatizações?

O mercado de capitais em Angola está a fazer o seu caminho e, a meu ver, de uma forma muito interessante – o volume de negócios e os níveis de liquidez na Bodiva assim o comprovam. Agora é preciso dar os passos seguintes. O programa de privatizações de empresas públicas e os ajustamentos ao nível monetário e fiscal podem dar o impulso que falta para a próxima fase, que é ter operações de empresas em mercado. O BFA é um ‘player’ muito dinâmico e um dos mais relevantes dinamizadores no mercado de capitais em Angola. A criação da BFA Gestão de Activos, que é uma sociedade gestora de organismos de investimento colectivo, foi mais uma etapa para alargar a nossa pegada num mercado que acreditamos ser muito relevante para o país. Na vertente de assessoria de Clientes-empresas interessadas em colocar operações no mercado, também estamos a desenvolver iniciativas que poderão alavancar o crescimento do mercado.

Acredita que vamos ter cotadas em Bolsa ainda neste ano?

Penso ser pouco provável que venham a existir lançamentos em Bolsa este ano. A minha convicção é que as primeiras operações possam acontecer em 2022 ou 2023.

A digitalização é naturalmente uma das apostas do Banco. O que está a ser preparado neste capítulo?

A aposta na digitalização e transformação tecnológica são vitais para o desenvolvimento e competitividade do Banco. Os desenvolvimentos tecnológicos, seja ao nível dos processos, ou da forma de chegar aos Clientes, actuais e futuros, noutros formatos que não o presencial, vão permitir melhorar significativamente a experiência que as nossas equipas e Clientes sentem na sua relação com o Banco. Nesta vertente, estamos a desenvolver várias iniciativas que vão desde a melhoria da infra-estrutura informática, substituição de equipamento e desenvolvimento de novas soluções para os Clientes. É nossa expectativa que até ao final do ano muitas delas estejam concluídas e os seus resultados possam ser visíveis.

O BFA tem tido um papel importante do ponto de vista da responsabilidade social na sociedade angolana. Quais as acções mais relevantes que querem desenvolver?

Desde a sua criação, o BFA tem apoiado várias iniciativas no domínio social. Em Abril de 2005, o Conselho de Administração do BFA, sentindo-se fortemente comprometido com o desenvolvimento económico e social de Angola, considerou a criação de um Fundo Social, que actualmente redireccionou o seu investimento exclusivamente às ‘Crianças’, um dos grupos mais vulneráveis da nossa Sociedade. O Banco entende que o desenvolvimento das crianças e jovens até aos 18 anos de idade é crítico para o futuro do país e que, através do apoio a iniciativas ou projectos com foco na saúde, educação e inclusão social e financeira, é possível melhorar as suas condições de vida e das suas famílias, garantindo a sua resiliência, sustentabilidade e confiança no futuro. Este é o compromisso genuíno do Banco para com a sociedade, as instituições e os cidadãos angolanos.

Quer destacar algumas iniciativas?

São inúmeras as inúmeras iniciativas que o BFA apoia financeiramente, mas podemos destacar as seguintes:

• +Saúde Huambo, um programa que teve início em 2018 e apoia o Hospital Central do Huambo na melhoria das condições do serviço de pediatria, através da aquisição de fármacos, materiais e equipamentos hospitalares;

• O BFA + Nutrir, que consiste no apoio ao programa nacional de luta contra a má nutrição infantil em Angola, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF);

• O BFA + Água + Vida, que visa garantir o acesso a água potável em 15 escolas e comunidades do município de Ombadja, assegurando a retenção das crianças e o seu rendimento na escola, e a melhoria das suas condições de vida e das suas famílias. Esta iniciativa está a ser implementada em parceria com o UNICEF e o governo da província do Cunene;

• O projecto CAPRI, de apoio à capacitação de professores primários na província de Luanda, promovido pelo Ministério da Educação;

• O programa BFA Solidário, que apoia as organizações sem fins lucrativos que actuam nos sectores da educação, saúde e promoção da inclusão social e financeira de crianças e jovens.

Estas acções enquadram-se num leque mais alargado de iniciativas que o BFA vem desenvolvendo, com o objectivo de ajudar a melhorar as condições de vida dos angolanos.

Por último, importa ainda referir que, em 2020, demos um apoio relevante ao Governo de Angola no âmbito das iniciativas para o combate e prevenção da Covid-19. 

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