Sábado, Dezembro 4, 2021

Uvas felizes para vinhos felizes

João Barbosa

Os mercados externos recebem cerca de 90% dos vinhos do Pinhal da Torre. As propriedades onde estão as vinhas situam-se em Alpiarça, na região vinhateira do Tejo. No passado a actividade da firma visava a quantidade. Desde há quase 30 anos que o objectivo é diferente.

Não será loucura, mas é ousadia. Lançar vinhos com idade, num mercado que prefere colheitas recentes, tem riscos. A empresa Pinhal da Torre, em Alpiarça, fá-lo. É uma opção consciente e ponderada, refere Paulo Saturnino Cunha, o vitivinicultor.

Paulo Saturnino Cunha esclarece que não é comum o consumidor fazer a guarda em casa. Por isso esta empresa assume a tarefa. Assume riscos que poucas firmas portuguesas correm. Possivelmente, apenas os vinhos fortificados – como os Madeira e Porto – são comercializados com vários anos depois do ano da colheita, indica.

O produtor informa que o Pinhal da Torre produz, em média, 220 toneladas de uvas. Essa quantidade resulta em cerca de 150.000 litros, o que dá perto de 200.000 garrafas. Porém, os vinhos de gama mais baixa são colocados à venda com poucos anos após a colheita. Estes representam cerca de 60% do total.

Os preços (venda ao público recomendado) começam nos seis euros. É significativamente acima do valor que a grande maioria dos vinhos é vendida em Portugal (80% abaixo dos três euros). Os de base debutam com três ou quatro anos, já o ‘super premium’ e os ‘luxury’ saem com entre cinco e oito anos de guarda.

“Não é possível ter todos os vinhos absolutamente fantásticos. Tentamos fazer um ‘mix’ com os vinhos de entrada, que geram os recursos e caixa suficiente para manter a empresa. Mas a grande mais-valia é fazer vinhos únicos e altamente diferenciados e com personalidade”. Outras actividades da empresa podem também ajudar, criando recursos para investir na produção dos topos de gama.

Um factor importante, refere Paulo Saturnino Cunha, é o programa da prática agrícola, onde tudo começa e é determinante para o resultado final. “Temos um programa para uvas felizes – o ‘Happy Grapes Program, que está registado. Quando temos uvas felizes, temos grandes chances de ter vinhos felizes. Nós ficamos felizes e fazemos com que os nossos consumidores fiquem felizes”.

A Pinhal da Torre detém 43 héctares de vinhas distribuídas por quatro propriedades distintas

Guardar e esperar

O mundo mudou, a vida como que acelerou, e hoje não é habitual comprar vinho e esperar por que chegue o momento em que está no apogeu para se beber. Compra-se para ser bebido prontamente, o que em alguns casos é um «infanticídio», salienta o produtor.

Ciente da capacidade de envelhecimento, Paulo Saturnino Cunha assume o encargo do armazenamento até que esteja no momento certo para ser mostrado ao público. Presentemente, estão mais de 120.000 garrafas em ‘stock’.

O vitivinicultor opta por não pasteurizar o vinho, porque o néctar “é um ser vivo”. Assim, evoluirá em garrafa, em que cada uma terá, com o tempo, algumas características diferenciadoras. “A pasteurização mata tudo”.

“Começa por ser uma criança e depois uma fase adulta. Temos tendência para vender os nossos vinhos numa idade adulta e plena, onde demonstra toda a sua potencialidade e maior prazer. Evidentemente há muitos consumidores que não valorizam isso, que gostam de vinhos novos, que têm características diferentes. O que gostamos é impressionar e surpreender o enófilo”.

Uma outra característica do Pinhal da Torre é a guarda de vinhos para uso próprio – a colheita mais antiga é a de 1990 e não está para venda. Dependente da gama de vinho e do ano, a quantidade de garrafas que fica em cave, para memória futura, situa-se entre as 500 e 1000, informa Paulo Saturnino Cunha. Isso permite a avaliação da longevidade e evolução das características – ou seja, é um investimento. No estrangeiro é comum, mas muito raro em Portugal, nomeadamente devido a pressões dos responsáveis pelas vendas e necessidades relevantes decorrentes das tesourarias das empresas.

Obviamente, preservar os vinhos por vários anos, antes de serem postos no mercado, e a guarda de garrafas para memória têm custos. Se o negócio o permite é porque a aposta comercial da empresa tem resultados positivos.

Adega com quase 75 anos

A empresa irá investir “vários milhões”, nos próximos anos, com a data desejada em 2023. O dinheiro será aplicado na melhoria da adega, compra dalguns novos equipamentos, estabelecimento de enoturismo e na agricultura.

A adega será melhorada, mas vão manter-se as sete cubas em cimento, instaladas a quando da construção da infraestrutura. Este equipamento tem vantagens, nomeadamente um bom controlo de temperatura.

O empresário refere que o enoturismo é um investimento importante e espera bons resultados decorrentes da localização de Alpiarça: ligação à autoestrada A1 e via para o Algarve. A vila está próxima de Fátima e a 40 minutos de Lisboa e do seu aeroporto – explica.

Paulo Saturnino Cunha sublinha que, conforme o nível de qualidade dos vinhos, o esmagamento da fruta faz-se diferentemente. Pode ser em lagares de pedra, com pisa a pé, em prensas e em cubas de inox.

O Pinhal da Torre tem barricas – somadas dão cerca de 30.000 litros – de diferentes tanoarias, especialmente de carvalho francês, da floresta de Allier. O tempo de estágio não é igual para todos os vinhos. Por exemplo, o IPO, o topo de gama, que conta apenas com duas edições (2008 e 2013), passou cinco anos em madeira, seguido de um em cuba de inox e dois em garrafa antes de ser posto à venda.

Porém, o portefólio é composto por 16 referências, incluindo tintos, brancos e referências especiais. Este último grupo conta com um colheita tardia, mas sem a designada podridão nobre (fungo botrytis cinerea), que dá fama aos Sauternes (França) e Tokaji (Eslováquia e Hungria). Em preparação está um fortificado (estilo comum em Portugal – fermentação parada com a adição de aguardente) – ainda sem data para ser posto nas prateleiras.

A Pinhal da Torre combina métodos tradicionais e novas tecnologias com a experiência acumulada ao longo de gerações

A designação da proveniência conta

Apesar da feliz mudança de designação, em 2009, de Ribatejo para Tejo, esta região ainda não tem, por cá, reputação para alcançar patamares de valor mais elevados. Os portugueses escolhem por denominação de origem, mas o quase desconhecimento de Portugal, no estrangeiro, acaba por fazer contornar as reticências acerca deste território vizinho da capital.

Portugal não conhecido internacionalmente como um produtor de grande prestígio. Vinho da Madeira e o Vinho do Porto são as excepções, mas nem sempre o consumidor os identifica como sendo do nosso país. Por outro lado as reticências dos portugueses, quanto à denominação de origem, não se registam nas escolhas dos estrangeiros. “A pouco e pouco, os críticos têm vindo a dar valor a Portugal. O problema é a percepção de preço” – explica Paulo Saturnino Cunha.

Desta forma, o Pinhal da Torre sofre o preconceito face a Portugal, em que a percepção de valor é baixa, mas contorna as desconfianças nacionais. Paulo Saturnino Cunha adianta que o consumidor internacional, onde se situa o negócio, é exigente. O designado mercado da saudade, formado pela comunidade emigrante, não é vocacionado para os vinhos do Pinhal da Torre.

A família de Paulo Saturnino Cunha – os vários ramos que lhe estão para trás no tempo – está na região há muitas gerações. Do lado materno e paterno, a memória genealógica chega, num dos casos, a um bisavô de bisavô. Certamente, salienta, terá parentes mais recuados. “Dos meus quatro bisavós só um não era daqui”.

Os territórios familiares foram maiores e hoje representam 43 hectares, embora os arredondamentos façam parecer mais. Em tempos, a produção de morangos – um dos maiores no país – era a principal actividade.

De negócio antigo para diferente paradigma

O vinho é um cultivo antigo nas propriedades que formam o Pinhal da Torre. Outrora visava grandes quantidades, vendido a granel. Os vinhedos alcançavam 200 hectares, sendo a Fernão Pires – casta emblemática da região – a mais significativa.

Em 1993 foi decidida uma inversão da filosofia e apostou-se no vinho de qualidade, com produtividade muitíssimo mais reduzida. Arrancaram-se cepas de terras de maior proveito quantitativo para colocar outras e em chãos menos férteis, em que o resultado é melhor. Actualmente, 85% do solo é de areia. Foram introduzidas novas cultivares, algumas desiludiram, por várias razões, mas brilhou a Touriga Nacional.

A vindima dos brancos começa em Agosto. As uvas tintas são colhidas entre Setembro e Outubro. Deixar as uvas na videira até ao décimo mês tem riscos, nomeadamente devido à chuva. Desde a podridão ou redução do nível de álcool, decorrente de maior quantidade de água nos bagos.

A agricultura no Pinhal da Torre é em produção integrada, mas preferencialmente em modo biológico. “Nem todos os anos fazemos biológico, dependendo das características. Há anos em que se não se intervém não se apanha uma uva. Há quem diga que faz, mas não somos mentirosos”. Portanto a lavoura não é certificada. Paralelamente, alguns vinhos estão classificados como vegan.

A empresa tem três quintas e duas parcelas. A Quinta do Alqueve, de solo calcário, tem seis hectares. Com chão arenoso, a Quinta de São João forma-se também por meia dúzia de hectares. Águas Vivas possui 30 arenosos e de pedra rolada. Os restantes terrenos são três hectares de aluvião.

O produtor aposta sobretudo em castas nacionais, mais de 90%, elementos diferenciadores nos mercados internacionais. “Ninguém vem a Portugal comprar Chardonnay”. Ainda assim, por gosto de Paulo Saturnino Cunha e bom desempenho no terroir (características naturais) fazem com que estejam plantadas cultivares estrangeiras.

A Quinta de Alqueve tem plantadas Touriga Franca e Grenache. Na Quinta de São João estão Tinta Roriz (tinta) e Syrah (tinta). Em Águas Vivas há Alicante Bouschet – tinta e de tão cultivada é talvez mais portuguesa do que de qualquer outro país –, Alvarinho (branca), Arinto (branca), Baga (tinta), Fernão Pires (Branca), Fernão Pires Rosado (tinta rosada), Merlot (tinta), Ramisco (tinto), Sousão (tinta), Syrah, Tinta Francisca (tinta), Tinta Roriz, Tinto Cão (tinta), Touriga Franca (tinta), Touriga Nacional (tinta), Verdelho (branca) e Viosinho (branca). Em Courela Grande (parcelas) cultiva-se Alicante Bouschet.

Para breve serão plantados mais 11 hectares. Para esse espaço estão escolhidas Alicante Bouschet, Arinto, Sousão, Touriga Franca e, «em princípio, Tinta da Barca (tinta), que será a única a entrar. Vai sair a Tinta Roriz, cujos resultados não são uniformes de ano para ano. “Não se pode ter uma casta que faz um vinho sensacional de dez em dez anos”.

A escolha das castas não é, obviamente, um capricho guiado apenas pela preferência de Paulo Saturnino Cunha, como a Merlot. Algumas das cultivares são conhecidas pelas características que ajudam para a longevidade dos vinhos, nomeadamente a acidez. Arinto, Baga, Sousão e Ramisco – a grande casta de Colares, donde saem néctares vivos com décadas – têm grande potencial de guarda.

Apesar da selecção das castas, uma apareceu sem ser convidada. «A Grenache veio por engano. Tínhamos pedido, ao viveirista, Tempranillo (Tinta Roriz) de Toro (Castela-Leão) para meio hectare. Só passando algum tempo é que percebemos que era Grenache. Costumávamos usar em lotes, mas hoje dá coisas muito interessantes. Em 2017 decidimos, com relevo, fazê-la pura. Mas já tínhamos dado um destaque maior em 2013, num blend com Syrah» – informa Paulo Saturnino Cunha.

O trabalho em adega tem também uma opção que poucos produtores assumem. Todas as leveduras são indígenas. O que confere personalidade e diferenciação, refere o produtor. “É um risco quando a qualidade das uvas não é absolutamente saudável. Quando as uvas vêm sãs é uma expressão, a 100%, das características da casta e do terroir. Tem funcionado sempre. Por vezes usamos algumas leveduras selecionadas, que representam no máximo 5%”.

Um investimento importante é a substituição de plantas, em 3,5 hectares. Habitualmente, a cepa vem do viveiro já com o porta-enxerto. Agora a enxertia será realizada no campo, uma tarefa que poucas pessoas sabem fazer, que é substancialmente cara e que implica um ano sem fruta, informa o produtor. Todavia «resulta num maior enraizamento, puxa menos pela planta, o que tem benefícios», e gerando uma maior qualidade final.

A equipa é pequena, diz Paulo Saturnino Cunha. O núcleo fundamental é formado por Mário Andrade (enólogo) e por Nuno de Jesus (adegueiro). Mas a adega é apenas um dos espaços de trabalho. O vitivinicultor afiança que a qualidade começa na vinha, o mais importante do processo.

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