Sábado, Dezembro 4, 2021

Um espaço feito para que a memória não se dissipe

Nelson Soares

O primeiro museu ibérico dedicado ao tema da “Shoah” já recebeu mais de 30 mil visitantes, desde a abertura em abril deste ano. Hugo Vaz, curador do Museu do Holocausto do Porto, explica o conceito deste espaço de memórias e a importância de “não se repetir um dos mais sombrios episódios da História”. Para já, o objectivo de se afirmar como espaço a visitar está conseguido.

Um museu portuense sobre o período do holocausto – o genocídio judeu executado pelo regime nazi – parecia, à partida, uma ideia remota, dada a escassa ligação da cidade àquele período histórico. No entanto, os cerca de 500 membros activos da Comunidade Judaica do Porto, a maior parte dos quais descendentes de refugiados da II Guerra Mundial, viram uma oportunidade no legado dos seus antepassados de “ir ao encontro do repto lançado pelo projecto governamental ‘Nunca Esquecer’” e manter viva a memória daqueles acontecimentos no nosso país. A isso, acrescenta Hugo Vaz, somou-se a participação de Portugal na Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, nascendo, assim, o primeiro museu ibérico sobre esta temática e onde, assinala o curador, são partilhados “os documentos e objectos deixados pelos refugiados na Sinagoga do Porto”, como os Sifrei Torá (rolos da Torá).

Inaugurado em Abril de 2021, o Museu do Holocausto divide-se em três fases da comunidade judaica na Europa: o antes, o durante e o depois da II Guerra Mundial. Simbolicamente, os espaços variam a sua decoração entre áreas verdes e negras, consoante a gravidade dos momentos. A fase mais negra corresponde, naturalmente, ao período da perseguição nazi, dos campos de concentração e das execuções. É aqui, recorda o responsável, que estão os principais conteúdos do Museu: “a reprodução da entrada e de uma das casamatas de Auschwitz-Birkenau”, o maior campo de concentração nazi; “as fichas individuais dos refugiados que passaram pelo Porto e a sala de nomes, muitos deles de famílias da Comunidade Judaica do Porto”.

A REPRODUÇÃO DA ENTRADA E DE UMA DAS CASAMATAS DE AUSCHWITZ-BIRKENAU É UM DOS PRINCIPAIS ATRACTIVOS DO MUSEU DO HOLOCAUSTO

30 mil já visitaram

O percurso que os visitantes realizam no Museu obedece a uma sequência narrativa, contextualizando as vivências, as tradições e a cultura da população judaica. É um trajecto que, de acordo com Hugo Vaz, visa “promover a educação e a memória sobre o Holocausto”, travando a erosão do tempo sobre os acontecimentos e “sensibilizando os visitantes para que este, que é um dos mais sombrios episódios da nossa História, não se volte a repetir”. “A memória tende a dissipar-se e o tema tende a ser rejeitado, como tem acontecido um pouco por todo o mundo”, sublinha o curador da instituição.

Além dos materiais que estão em exposição permanente, o Museu do Holocausto promove outras iniciativas, que decorrem, segundo Hugo Vaz, de “parcerias com embaixadas como a dos EUA e da Rússia”. Exposições temporárias ou cursos de formação, como o que foi promovido em Setembro passado para professores e que tinha por objectivo oferecer ferramentas para o ensino da história e cultura judaica, são frequentes na instituição.

Desde a abertura, o espaço foi já visitado por mais de 30 mil pessoas. Hugo Vaz acredita que “é um dos museus mais visitados de Portugal”, assumindo “sem dúvida alguma” um lugar de destaque no mapa cultural da cidade do Porto e da região.

O Museu do Holocausto é uma iniciativa Comunidade Judaica do Porto, inspirada no equipamento com o mesmo nome, situado em Washington DC. Está aberto todos os dias úteis, entre as 14h30 e as 17h30, não abrindo aos fins de semana e nos feriados judaicos.

Partilhe este artigo:

- Advertisement -
- Advertisement -

Artigos recentes | Recent articles

“Sem o esforço dos privados, o Estado Português não teria conseguido fazer frente à pandemia”

Em entrevista à PRÉMIO, José Germano de Sousa, patologista clínico e presidente do Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa, falou-nos do seu percurso enquanto médico, passando pelo cargo de Bastonário e do crescimento da sua rede de laboratórios, que se posicionam em termos de análises na área da patologia clínica como o principal ‘player’ nacional do sector, sendo actualmente responsáveis por cerca de 15 a 16% dos testes Covid que se realizam em Portugal.

Tal&Qual: ponto final, parágrafo…

José Paulo Fernandes Fafe, Antigo jornalista, accionista maioritário da empresa proprietária do "Tal&Qual"

“Honne to Tatemae”

Sónia Ito, Arqueóloga e Professora

Mais na Prémio

More at Prémio

- Advertisement -