Domingo, Fevereiro 25, 2024

Futuro do Jornalismo Desportivo Contra a Espuma dos Dias

André Pipa

FUTURO do jornalismo desportivo é o tema deste artigo. Hesitei antes de escolher a abordagem. Poderia escrever uma peça pomposa, cheia de palavras caras e verdades de La Palisse dificilmente refutáveis por alguém com um mínimo de bom senso e atenção ao mundo que o rodeia. Ou podia escolher outra via. Mais directa, mais emocional, certamente muito mais franca. Escolhi a segunda. Por duas razões. Primeiro. Não fiz nenhum curso de Jornalismo – venho do mundo do Direito e tudo o que sei sobre esta profissão não foi aprendido nem na Universidade nem nos tratados sobre Comunicação Social. Aprendi pela prática, quer dizer, por aquilo que me foi ensinado nas redacções, por aquilo que vivi no terreno e pela observação e intuição, naturalmente. Sempre fui muito curioso e isso ajuda numa profissão em que se deve questionar tudo, sobretudo as verdades que parecem “absolutas”. Sou jornalista há mais de três décadas; quando comecei não havia computadores, internet, telemóveis e redes sociais. Na primeira vez que cobri um evento no estrangeiro como enviado-especial levei comigo uma máquina de escrever de ferro pesadíssima (Remington) e enviei o serviço (dizia-se assim: serviço) por telex. Os meus filhos não sabem o que isso é. O muro de Berlim ainda não tinha caído, mas Mikhail Gorbachev começava a preparar a queda – do muro, da URSS, do comunismo – com duas palavras que fizeram furor no Ocidente: ‘glasnost’ e ‘perestroika’. Vivi todo esse tempo de profunda e acelerada mudança com a sofreguidão de quem sabe estar a viver História.

Há trinta anos o Jornalismo desportivo cobria o que cobre hoje –basicamente futebol, com cobertura noticiosa exaustiva dos três grandes: Benfica, FC Porto, Sporting; deve dizer-se, para não haver dúvidas, que Portugal não tem cultura desportiva porque não é um país de desporto –como são a Espanha, a França, a Inglaterra e a Alemanha, só para não sair da Europa. Portugal é sobretudo um país de futebol que, por sua vez, é dominado por [leia-se: pela rivalidade entre] três grandes clubes que representam a esmagadora maioria dos adeptos e a quase totalidade do negócio. Os atletas das outras modalidades só tem destaque nos media quando conseguem triunfos e medalhas em competições internacionais de relevo. O que, tirando o fenómeno da canoagem (onde se investiu de forma séria, rigorosa e sustentada), acontece muito esporadicamente.

Voltando atrás. A forma como as partes se relacionavam é que era muito diferente. Não havia um único canal de televisão especializado em desporto (hoje há uma série deles: Sport TV, Bola TV, Eleven, Canal 11, Benfica TV, Sporting TV, Porto Canal…) e o futebol não ocupava parte substancial da programação dos canais generalistas. Os jornais desportivos (eram quatro: Bola, Record, Gazeta dos Desportos, Jogo) saiam três vezes por semana. A pressão era menor. Muito menor. As noticias não aconteciam ao segundo. Havia tempo para respirar. E havia uma grande proximidade entre jornalistas, dirigentes, atletas e treinadores. Era uma relação aberta (por vezes promíscua e interesseira) sem os espartilhos e as condicionantes de hoje. Julgo que, de um modo geral, o Jornalismo que se fazia, comparado com o que temos hoje, era de melhor qualidade – e isto vale para todas as áreas. Era um Jornalismo mais profundo. Mais cuidado. Mais reflexivo. Menos contaminado. Não que todos os jornalistas dessa altura fossem luminárias – longe disso!: esta geração, em minha opinião, está tecnicamente muito melhor preparada do que a minha para as exigências da profissão. Os tempos e as circunstâncias é que eram diferentes. O futebol não era uma indústria, mas um jogo e, muito importante, não movimentava os interesses e os larguíssimos milhões que movimenta hoje. Os media tinham mais tempo para preparar os temas e os jornais, rádios e televisões ainda não sofriam a concorrência fulminante da internet. Dos sites. Das redes sociais. Todos grátis. Acessíveis à distância de click. Grátis. Repito: grátis. E também não existia, como hoje, um público mais esclarecido e exigente com meios quase ilimitados para se fazer ler / ouvir e chegar a milhares de consumidores. Isso viria a fazer toda a diferença e a modificar profundamente a relação entre Jornalismo (pago) e público consumidor. Como bem sabem os administradores das empresas de Comunicação.

O jornalismo desportivo vive um momento delicado que a pandemia só veio acentuar. Os jornais, como é público, já vendiam pouco em banca. Agora vendem menos. As tiragens e vendas d’ A Bola e do Record (trabalhei nos dois) são uma esquálida recordação do tempo em que era possível fazer uma edição apontando para os 200 mil em banca – e acreditem que vendiam mesmo. O noticiário é semelhante em todos os meios e plataformas. As “cachas” são iguais n’ A Bola, no Record, no Jogo, na SIC, na TVI, na RTP, nos sites, no facebook. São iguais porque vêm todas das mesmas fontes. As notícias são propriedade pública em segundos, sendo difícil apurar quem a deu em “primeira mão” – um conceito quase arcaico. Nos jornais, o tratamento noticioso aproxima-se perigosamente do formato web – títulos curtos e chamativos, se possível sensacionalistas, textos pequenos recheados de destaques e pontos de leitura. Eu cresci a ler jornais de referência nacionais e estrangeiros (com textos maiores que dois parágrafos e peças de jornalismo de investigação com duas, três e quatro páginas) e não me conformo com a progressiva “infantilização” da informação, que é formatada e servida como se se partisse do principio que o cérebro da maioria dos consumidores não suporta mais que dois minutos de leitura. Talvez as televisões ainda consigam maquilhar essa tendência para a informação minimalista, despachada e pouco sumarenta, mas também aqui creio que o grau de exigência já foi muito maior. Lembro que até há bem pouco tempo os canais generalistas de maior audiência alimentavam programas de discussão futebolística que mais não eram que um ruidoso exercício de clubite exarcebada – alguns ao nível da conversa de taberna. Óptimos para garantir audiências, mas impossíveis de ver em indústrias futebolísticas mais avançadas como a inglesa e a alemã. Por alguma razão.

A informação, por outro lado, nunca foi tão controlada como agora. O acesso às fontes está severamente limitado pelos clubes que têm televisões e canais de comunicação próprios. Estes funcionam, antes demais (e compreensivelmente) como difusores de propaganda e marketing clubístico. Não esperem isenção e imparcialidade de uma televisão ou de um jornal de clube. Não é para isso que eles existem. O problema é que a matéria prima que vende (no nosso caso: Benfica, Porto, Sporting) deixou de estar ao alcance do jornalismo não engajado. É raríssimo ver-se hoje uma entrevista a um dirigente, treinador e atleta dos três grandes – repito: os que mais vendem – que não esteja condicionada à origem. Há excepções, claro, mas são poucas. Tudo é programado e formatado em função do momento e da ideia que se quer fazer passar. Não é essa função do jornalismo sem cor. Cumpre dizer que o jornalismo teoricamente independente tem alinhado vezes demais com interesses alheios à missão de informar, sendo que as audiências e as vendas em banca não podem justificar tudo. Compadrio e promiscuidade sempre existiram em todas as áreas e profissões – por alguma razão este é o país da cunha e do jeitinho! -, mas não posso deixar de lamentar que haja tantos exemplos, em tantas latitudes, de jornalismo acrítico, subserviente e comprometido.

Basicamente, temos de nos refocar. Sendo certo que haverá sempre consumidores para o jornalismo de formato tablóide, seja escrito ou audiovisual – é assim em todo o lado, dos Estados Unidos e da Inglaterra ao Brasil e à Indonésia –convém não reduzir tudo ao denominador comum. Há quem não se contente com a espuma dos dias. Felizmente. A meu ver o futuro do jornalismo de qualidade – desportivo incluído, obviamente – passa obrigatoriamente por um ‘back to basics’. O regresso ao que mais nobre esta profissão tem. Informar. Esclarecer. Suscitar a dúvida e a discussão. Contar histórias, caramba, se o desporto fornece matéria para boas histórias! A questão é simples. A informação de qualidade tem custos. Quem quer ter bons repórteres, bons articulistas, bons jornalistas de investigação e ‘opinion makers’ respeitados, paga por eles. A qualidade nunca pode ser de graça. Só que, quem exige mais, paga por ela. Sempre foi assim.

Por isso só vejo uma saída: assumir que haverá nichos de jornalismo de qualidade para os consumidores que não se revém no tipo de informação rápida, barata e pouco exigente que hoje faz escola um pouco por todo o lado. O caminho, tenho a certeza, só pode ser esse. Jornais vocacionados não para dar notícias – isso está instantaneamente assegurado pelas rádios, televisões e internet – mas para as comentar, escalpelizar e analisar doutros ângulos. ‘Fast food’ de um lado, refeição ‘gourmet’ do outro. Falo de informação mais completa, mais rigorosa, mais abrangente, numa palavra: mais estimulante. Aquela que, como um bom livro, nos cativa a atenção e nos obriga a pensar. Porque haverá sempre quem sinta necessidade de mais e melhor informação. Porque haverá sempre quem sinta necessidade de ir mais longe e mais fundo. Porque a espuma do dia leva-a o vento. Não fica.

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