Sexta-feira, Maio 20, 2022

Espírito olímpico é a marca portuguesa nos Jogos de Inverno

Nelson Soares

Da “aventura estupenda” de Duarte Espírito Santo em Oslo 1952, à presença de um alentejano em Pequim 2022, que há dois anos nem sabia esquiar, a história da participação portuguesa em Jogos Olímpicos de Inverno é um percurso de acasos, contradições e genuíno olimpismo. Na competição chinesa estiveram, pela primeira vez, três atletas em modalidades diversas.

Tornou-se célebre a participação de uma equipa jamaicana de bobsled nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, em Calgary. A escassa tradição da ilha caribenha em desportos no gelo e o contraste da origem tropical com o frio glaciar canadiano tornaram o acontecimento num sucesso irresistível, que animava a cobertura mediática da olimpíada. O episódio picaresco acabou mesmo por ser adaptado ao cinema (Cool Runnings, 1993).

Mas em Calgary havia outra história que dava um filme: a de António Reis. O jovem português, emigrado no Canadá desde os 7 anos, era um desportista eclético – foi campeão universitário de futebol americano e praticante de remo – mas, três anos antes da competição no estado de Alberta, nunca tinha pisado uma pista de bobsled. Nem sequer praticado qualquer modalidade de Inverno. O sonho de participar numa olimpíada, no entanto, fez o luso-canadiano puxar pela criatividade e encontrar na corrida dos trenós uma hipótese. Treinou na escola de pilotos de Lake Placid, juntou um grupo de amigos do desporto para formar uma equipa e fez uma viagem de carro até Innsbruck, na Áustria, para se apurar ‘in extremis’, no final de 1987, para Calgary. O sonho estava cumprido e até teve direito a vender o trenó da sorte ao Príncipe Alberto, do Mónaco.

A participação da equipa portuguesa foi bastante honrosa. Na prova de two-men bobsled, Reis fez dupla com João Poupada e terminaram em 34º lugar, num total de 38 participantes. Na prova de quatro, juntaram-se João Pires e Rogério Bernardes, obtendo um resultado menos feliz: o penúltimo lugar. Ainda assim…à frente da famosa equipa jamaicana!

A aventura de António Reis e do seu grupo de amigos é um bom exemplo do que tem sido a participação olímpica portuguesa nos desportos de Inverno. Num país sem tradição neste tipo de competições, com temperaturas amenas e escassa presença de neve no território, a prática desportiva específica de Inverno cinge-se a um pequeno núcleo de atletas, que não têm expressão internacional. Assim, a presença lusitana nos Jogos Olímpicos de Inverno resume-se a um total de 12 participações, em oito edições diferentes, maioritariamente assegurada por emigrantes ou descendentes de portugueses e com grandes doses de aventura e voluntarismo pelo meio.

Hiato de 36 anos

O pioneiro deste trajecto foi Duarte Espírito Santo Silva, nos Jogos de Oslo, em 1952. Então com 27 anos e sem grande experiência competitiva, o atleta era um praticamente modesto de esqui alpino, mas beneficiou do facto de, à época, não haver provas de apuramento para arriscar uma presença na Noruega – os países tinham uma quota de participações e Duarte foi inscrito pelo Comité Olímpico Português. A “aventura estupenda”, como descreveu em entrevista ao Diário de Notícias, terminou com um 69º lugar na prova de downhill, à frente de um argentino, um australiano, um grego e de mais nove atletas que foram eliminados. Estava cumprido o seu objectivo, que era terminar a descida de Norefjell.

Foram necessários 36 anos para que houvesse nova participação portuguesa nas olimpíadas de Inverno, na já documentada – e não mais repetida – competição de bobsled. As quinas voltariam a aparecer nas pistas de neve em Lillehammer 1994, também no esqui alpino, com o acesso de George Mendes às provas de slalom, downhill, super-g e combinado. O esforçado atleta luso-francês concluiu as duas primeiras, com o 32º e 41º lugares respectivamente, mas não terminou as restantes.

Quatro anos depois, em Nagano, Mafalda Queiroz Pereira tornou-se a primeira atleta portuguesa a competir nos Jogos de Inverno e obteve a melhor classificação de sempre de um atleta nacional na competição. A esquiadora – que começou na ginástica artística – foi 21ª classificada na especialidade de aerials, conseguindo um resultado que, até hoje, não foi sequer aproximado. Infelizmente, a promissora carreira desportiva de Mafalda – filha do industrial Pedro Queiroz Pereira – viria a terminar pouco tempo depois, na sequência de uma lesão grave no joelho.

Na edição japonesa dos Jogos houve ainda outra novidade na comitiva portuguesa: participar em mais do que uma modalidade. Tal deveu-se à presença de um patinador luso-holandês, Fausto Marreiros, que competiu nos 5 mil metros de patinagem em velocidade, alcançado a 31ª posição. O antigo atleta colabora actualmente com a Federação de Desportos de Inverno de Portugal (FDIP) no treino de jovens patinadores, promovendo a transição da patinagem convencional para a pista de gelo. O caso de maior sucesso deste programa de treino é Diogo Marreiros – apesar de partilharem o sobrenome, não têm parentesco – que, em 2021, bateu o recorde nacional de Fausto, já com 25 anos. No entanto, o patinador algarvio viu a prova de qualificação para Pequim 2022 ser cancelada e não pôde marcar presença no evento olímpico chinês.

Esquiador Ricardo Brancal

Cerimónia de abertura dos Jogos de PyeongChang 2018 (com o português Kequyen Lam)

Equipa de bobsled portuguesa nos Jogos de Calgary – 1998

Maior participação em Pequim 2022

A história da participação portuguesa na Olimpíada de Inverno prosseguiu com a mesma intermitência no arranque do novo século. Após o vazio de Salt Lake City 2002, a presença lusitana em Turim 2006 e Vancouver 2010 esteve parcamente assegurada por Danny Silva, sempre na modalidade cross-country de 15 quilómetros. Seguiram-se outros descendentes portugueses, nas competições de Sochi 2014 e PyeongChang 2018. O esquiador alpino, Arthur Hanse, esteve em ambas as edições, com participações modestas no slalom e slalom gigante. Também em esqui alpino e em Sochi, Camille Dias, foi 59ª no slalom gigante e 40ª no slalom. Com apenas 17 anos à época, a jovem esquiadora foi outro exemplo de uma carreira promissora interrompida de forma prematura.

O último representante português nos Jogos de Inverno, antes de Pequim 2022, foi Kequyen Lam, em PyeongChang 2018. Filho de pais vietnamitas, Lam nasceu em Macau, ainda no período de administração portuguesa, mas cresceu na Columbia Britânica, Canadá, onde começou a praticar snowboard. Foi nesta modalidade que esteve perto de se apurar para Sochi, mas acabou por sofrer uma lesão e ter de reconverter-se para o esqui de fundo, a modalidade que o levou à Olimpíada. A competir nos 15 quilómetros, o esquiador foi 109º classificado na edição sul-coreana.

Como seria previsível, o caminho para 2022 não trouxe grandes novidades ao nível dos desportos de Inverno em Portugal. Percursos prometedores, como o do já referido Duarte Marreiros, do snowboarder Christian Oliveira ou da dupla de curling luso-canadiana, April Gale-Seixeiro e Steve Seixeiro, acabaram por não resultar em presenças olímpicas. Apesar de tudo, o país conseguiu atingir a participação mais alargada de sempre em Pequim, com a presença em três competições diferentes: Ricardo Brancal e Vanina Guerillot Oliveira, no esqui alpino, e José Cabeça no esqui de fundo. Brancal, de 25 anos, exemplifica bem o esforço acrescido que um português tem de fazer para vingar nestes desportos. Natural da Covilhã, ingressou na alta competição já adolescente e como parte de uma equipa francesa. Progrediu em trânsito entre França, Espanha e Itália – país onde se fixou para atacar a presença olímpica – e conseguiu a proeza de, em Fevereiro de 2021, terminar a etapa de Cortina d’Ampezzo do Mundial de esqui alpino no top-40 – resultado nunca antes alcançado por nenhum atleta português.

A trajectória de José Cabaça é ainda mais improvável. Natural da região mais quente do país, o Alentejo, o eborense é praticante de triatlo e sentiu o desafio do cross-country quando viu a participação de Kequyen Lam, em PyeongChang. Muniu-se de equipamento, mas só em Janeiro de 2020 é que foi para França, aprender a esquiar sozinho. Pouco mais de um ano depois, em Fevereiro de 2021, estava a disputar o Campeonato do Mundo, em Oberstdorf, na Alemanha. A sua atitude combativa valeu um apuramento de última hora, para a prova dos 15 quilómetros.

Já Vanina Guerillot Oliveira encaixa no padrão habitual de emigrante ou descendente de portugueses. Com apenas 19 anos e nascida na Suíça, a esquiadora apurou-se para o slalom e slalom gigante, tendo já uma vasta experiência internacional, incluindo presenças no Campeonato do Mundo e nos Jogos Olímpicos da Juventude – competição que decorreu em Lausanne, em 2020, e onde ficou na 28ª posição. Em entrevista ao portal Olympics.com, antes da competição ter início, a luso-suíça resumiu bem o espírito português nos Jogos de Inverno: “Sei que não estarei entre as melhores, portanto o meu foco será produzir o meu melhor esqui, divertir-me e chegar ao fim”.

Vanina não ficou entre as melhores, mas teve o melhor desempenho de sempre de uma atleta nacional no slalom gigante, com uns honrosos 43º lugar. A jovem esquiadora já não teve a mesma felicidade no slalom – que até é a sua especialidade – não contemplando a segunda manga, devido a ter falhado uma “porta”.

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