Sexta-feira, Julho 1, 2022

Uma última boa notícia ou a primeira de muitas?

Pedro Cativelos, Director Executivo da Media4Development

Quando, em meados de Setembro, o Ministro da Economia e Finanças de Moçambique, Adriano Maleiane anunciou em Abidjan, na Costa do Marfim, esperar que as obras da TotalEnergies em Cabo Delgado recomecem antes do prazo de um ano que a empresa estimou, inicialmente, como necessário para o Governo resolver a questão da insegurança na região os ‘leads’ jornalísticos iluminaram-se. “Penso que o prazo esperado de atraso das obras talvez seja reduzido porque apontámos um ano como o tempo necessário para permitir o recomeço do projecto mas, olhando para a situação actual, penso que não vai ser esse o caso, estamos a fazer o nosso melhor”, disse o governante, mostrando-se optimista na redução do prazo.

“A perspectiva é boa porque a paz está a manter-se, as pessoas deslocadas estão a voltar às suas casas e estamos agora no processo de criar condições para voluntariamente regressarem”, acrescentou o ministro.

Recordemos que, quando a petrolífera francesa TotalEnergies, líder do consórcio da Área 1 na Bacia do Rovuma, suspendeu os trabalhos em Afungi, a 24 de Março de 2021, no dia em que a cidade foi atacada por terroristas, para um mês depois anunciar a suspensão de todo o projecto por tempo indeterminado o cenário era bastante mais do que preocupante e as previsões de atraso da exploração de gás não eram amigáveis para quem depositava esperança, investimento ou só boa fé na questão. No mínimo, tudo iria parar por um período entre ano e meio e três anos. Mas no horizonte, e alimentada pelos ventos da transição energética e pelos raios solares da sustentabilidade que tomou a agenda dos grandes fundos de investimento globais, pairou a possibilidade de, porventura, o ‘shift’ energético aliado ao ‘timing’ da paragem vir a impossibilitar que, alguma vez, os projectos das Áreas 1 e 4 (este adiado desde logo pela norte-americana Exxon Mobile e sem perspectiva de retoma) viessem a tomar forma.

Ficaremos, aparentemente, e se se mantiver o tom triunfante da intervenção militar que decorre de há meses a esta parte por uma força conjunta de Moçambique e do Ruanda, pela medida pequena, cerca de 18 meses, entre a paragem total por motivos de força maior, e a retoma gradual dos trabalhos de construção de um megaprojecto avaliado entre 20 e 25 mil milhões de euros, e o maior investimento privado em curso em África, suportado por diversas instituições financeiras internacionais e que prevê a construção de unidades industriais e uma nova cidade entre Palma e a península de Afungi.

Assim, esta é a primeira boa notícia em termos macroeconómicos para Moçambique nos últimos anos, interrompendo um ciclo negativo que se estende pelo passado recente, através dos ecos do caso das dívidas ocultas que agora se arrasta em julgamento, dos efeitos nefastos dos ciclones Idai e Kenneth, das recorrentes notícias que durante quase três anos nos traziam relatos de ataques de insurgentes em Cabo Delgado e, por fim, da chegada da pandemia ao país, e de como as suas múltiplas vagas iam tomando de assalto o dia a dia e pondo em causa o rendimento, a poupança, os pequenos, médios e grandes negócios e, acima de tudo, a saúde de milhões de moçambicanos.

Há, de novo, um horizonte, pelo menos económico, em que a chance de crescimento se alia à possibilidade de desenvolvimento efectivo, com o início de um projecto de tal magnitude, numa economia que, ao nível do PIB per capita (abaixo dos 500 dólares por ano), ainda está na cauda da lista de todas as economias mundiais.

O reinício dos trabalhos de contrução da unidade de extracção e liquefação de gás (que apenas estará a ser extraído em 2026) a que se junta o início de produção da outra unidade, flutuante e mais pequena, operada pela italiana ENI, que na mesma Bacia do Rovuma, começa a produzir já em meados de 2022, serão as boas notícias que colocam fim a um ciclo que parecia não o ter e que abrem, simultaneamente, um novo capítulo da História de um país que merece ser feliz. O país e a sua gente.

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