Segunda-feira, Maio 10, 2021

Uma oferta que eu podia recusar

Filipe Santos Costa, Jornalista

Em abril de 2020 recebi uma oferta que podia recusar: fazer um ‘podcast’ de entrevistas para um partido político. A proposta era do PS, e surgiu em pleno confinamento. O país estava fechado pela covid-19 e eu estava fechado em casa por isso, e por ter decidido, uns meses antes, demitir-me do jornal onde trabalhava.

Ao fim de 13 anos na mesma redação, entendi em novembro de 2019 que chegava. Em 25 anos como jornalista profissional, foi a terceira vez que abandonei um emprego sem ter outro à espera. Foram anos confortáveis, os do Expresso: é o jornal mais prestigiado do país, e isso embala quem lá trabalha – abre portas, desbloqueia agendas, facilita cachas. Um jornalista razoável pode fazer uma carreira vistosa só à conta disto. Para um jornalista inquieto, isto não chega.

Cito muitas vezes uma frase de James Baldwin: antes da viagem nunca sabemos o que vamos encontrar. Fazer um podcast para um partido nunca esteve nos meus planos. Objetei: não sou funcionário do partido, nem militante. E mesmo eleitor… tem dias. Sabiam disso, claro. Queriam um jornalista experiente, com um ponto de vista, capaz de fazer entrevistas sobre governação e políticas públicas, mas também sobre o regime e a democracia. Sem agenda partidária. Com critério editorial.

A ideia era estranha e arriscada. Mas desassossegou-me. Admiro quem corre riscos e estimo quem confia no meu trabalho. Um partido ao qual nada me ligava, a não ser anos de interação profissional – muitas vezes tensa – dava-me carta branca para escolher um entrevistado semanalmente e luz verde para fazer as perguntas que quisesse. Sem interditos e sem alguém a quem prestar contas pelas minhas opções.

Entendamo-nos: isto é mais liberdade do que tive em qualquer das nove redações onde trabalhei. Porque não? Aceitei.

Tomámos cautelas contratuais que protegiam os dois lados. Era garantida a minha autonomia editorial, e não se definia um número de entrevistas, apenas que qualquer das partes podia denunciar o contrato com pré-aviso de uma semana. Foi o que aconteceu ao fim de quase um ano: decidi sair quando recebi um novo desafio profissional.

O PS decidiu continuar com o ‘podcast’ “Política com Palavra”, entregando-o a alguém com uma longa carreira jornalística e enorme experiência como entrevistador – e com uma abordagem bastante diferente da minha. O que só demonstra a enorme latitude dada pelo partido a quem conduz estas entrevistas, para o fazer à sua maneira.

A pandemia acabou por impor boa parte das minhas opções: a atualidade e a centralidade das decisões executivas ditaram muitas entrevistas a membros do Governo, que era quem tinha respostas para dar aos anseios dos portugueses, desde a saúde à segurança social, da economia à educação…

Foi fácil confirmar o acerto destas opções pelo impacto que as entrevistas tiveram: todas as semanas eram notícia nos jornais, rádios e televisões. Um ‘podcast’ feito para um partido político tornou-se editorialmente relevante e marcou o fluxo informativo. Sei de colegas de profissão que apostaram no falhanço desta empreitada, mas se viram forçados a reconhecer o seu valor, citando as entrevistas. Não vou fingir que não me soube bem.

Vejo duas razões para este impacto. A primeira é o podcast ter seguido sempre critérios jornalísticos: escolher os entrevistados certos e fazer as perguntas que têm de ser feitas. A segunda, é ter dado aos entrevistados a possibilidade de serem ouvidos. Não nos faltam entrevistas feitas para o entrevistador brilhar e “entalar” o convidado. Entrevistas para ouvir o entrevistado não são assim tão comuns.

Houve entrevistados que recusaram sê-lo, que desmarcaram em cima da hora, que não gostaram de algumas perguntas. Houve quem me dissesse – está gravado – que eu estava a dar voz a “teses liberais”, a “reproduzir acriticamente” acusações da oposição, a partir de pressupostos errados. Nada de novo na minha vida de jornalista. Do PS, não me chegou nem um suspiro de pressão.

Os problemas vieram de onde menos esperava. Dos supostos guardiões da integridade jornalística, reunidos sob a sigla CCPJ (Comissão da Carteira Profissional de Jornalista). É sabido que no jornalismo português não há problemas deontológicos nem más práticas profissionais (#alertadeironia), por isso a CCPJ vive há anos o sono dos justos. É um museu de cera onde gente que se lambuza com o seu passado dá pouca atenção ao presente. Limitam-se a cobrar exorbitâncias para que jornalistas possam ser jornalistas.

Que pecado descobriu a CCPJ? Não pôs em causa a independência nem o profissionalismo com que eu fazia as entrevistas (o elogio saiu contrariado, mas lá teve de ser…), mas o facto de eu ter um contrato com um partido político.

Se um jornalista trabalha para um partido, diz a CCPJ, é para fazer propaganda, não jornalismo. Ponto. Uma interpretação que contraria a história do jornalismo português desde que vivemos em democracia. Órgãos de comunicação social de partidos políticos existem há décadas, e os jornalistas dessas redações têm carteira profissional. O título profissional que a CCPJ decidiu retirar-me, nunca foi retirado aos jornalistas que fazem o Avante! para o PCP, o Ação Socialista para o PS, ou o Povo Livre para o PSD.

O absurdo resume-se assim: se eu fizesse o mesmo ‘podcast’ no Ação Socialista, a CCPJ não me incomodaria… Seria eu mais independente se respondesse à direção do jornal oficial do PS?… Não creio. A CCPJ acha que sim. Paz à sua alma.

Orgulho-me do que fiz, e de como o fiz. Impugnei nos tribunais a abstrusa decisão da CCPJ. E devo ao PS ter-me desafiado e ter-me dado condições para um projeto editorialmente independente e jornalisticamente relevante. Não me posso queixar de escolher caminhos difíceis e depois encontrar pedras pelo caminho… É como é.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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