Segunda-feira, Maio 10, 2021

Uma convicção, uma utopia ou uma realidade

Júlio Magalhães, Jornalista

Há muito que defendo uma descentralização da Comunicação Social no país. Foi isso que me levou um dia a deixar a TVI para assumir a direção do Porto Canal. Insisti vezes sem conta no ‘slogan’ de um “Porto Canal feito do Porto para o mundo” e não de uma televisão regional fechada entre a circunvalação e o Rio Douro, contra tudo e contra todos. Insisti igualmente na ideia de que há cerca de 20 televisões concentradas em Lisboa e uma apenas fora do grande centro que é a capital e que era o Porto Canal.

Daí termos erguido um canal generalista que em poucos anos se tornou uma marca. Sabia, que não ia ser um canal de massas, mas sim uma marca que pudesse fazer um caminho.

Ao longo de sete anos esse caminho foi feito, mas a determinada altura questões estratégicas legítimas do acionista maioritário, no caso o FC Porto, foram reduzindo a margem generalista do canal que acabou agora por se tornar numa estação mais limitada, local e de clube. Nada contra porque os acionistas investem e decidem que estratégias seguirem e com que pessoas.

Acalentei esse sonho de um canal abrangente no Porto, que saísse da região Norte para o mundo e não contra ninguém. Reconheço que perdi este ‘round’, mas as minhas convicções mantêm-se.

Sou um adepto, confesso, da regionalização por convicção concretizada pelo caminho da minha experiência e não por convicção ideológica de sempre. Como muitos dizem e sempre defenderam, o país é pequeno para se dividir em regiões, mas depois Lisboa considera-o demasiado grande para se distribuir. Por isso mesmo, nessa cavalgada centralista e nessa falta de sentido de estado, Lisboa aglutinou todo o processo económico e o país definhou. O interior desertificou-se, a população correu para a capital num primeiro impulso e para o litoral numa segunda vaga, sendo que o litoral deci-diu-se entre a grande Lisboa e o grande Porto.

Olhamos hoje para o país e temos uma ocupação demográfica desequilibrada, com custos avassaladores para a grande capital que absorveu tudo o que de melhor havia, mas também tudo o que pode haver de pior. E no pior refiro-me sobretudo à excessiva ocupação de população, quebra de qualidade de vida, problemas sociais dramáticos, desequilíbrios económicos gritantes já para não falar dos temas da moda como a ecologia e o ambiente.

Hoje muitas são as pessoas que procuram sair das grandes cidades, mas o que o interior ou regiões mais desertificadas têm para oferecer é manifestamente pouco. Falta trabalho, faltam professores, faltam agentes de saúde, faltam infraestruturas que permitam a fixação de gente e sobretudo jovens em áreas longe dos grandes centros económicos e decisores.

Acredito, pois, que a falta de visão de muitos políticos e governantes ao longo de muitos anos, à direita e à esquerda, conduziram a esta necessidade absoluta da regionalização do país, para que decisões que são tomadas em Lisboa sem conhecer a realidade local fiquem nas mãos de quem trabalha dia a dia com as populações, neste caso as autarquias.

A culpa não pode apenas ser assacada a quem está na capital e a quem governa o país. A verdade é que os principais agentes económicos das regiões decidiram trabalhar sob a máxima de que “tudo se passa na capital” e por isso é preciso estar perto da decisão. E todos foram a correr para junto dos ministérios e da banca deixando para trás um deserto.

Costumo dizer que em Lisboa fiquei mais negativamente impressionado com quem era do Norte e que lá se instalou do que com quem lá vive. A necessidade de se afirmarem numa sociedade altamente competitiva e de ‘lobbies’, levou-os rapidamente a serem consumidos pelo centralismo e desvaneceram-se em estratégias de curto prazo que levaram muitos à bancarrota.

Recordo que de Leiria para cima vivem seis milhões de pessoas, e que as grandes indústrias estão concentradas na sua grande maioria a centro e norte do país.

Onde entroncam aqui os órgãos de comunicação social?

Convictamente, mantenho a ideia de que a regionalização só será uma realidade quando as regiões tiveram órgãos de comunicação social próprios. Jornais, rádios, televisões plataformas digitais, para comunicarem com o mundo e comunicarem o que têm. O país desconhece muito do que a região do Algarve, do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Centro ou do Minho fabricam e produzem hoje em variadíssimas áreas algumas de ponta e altamente sofisticadas. O país desconhece o que se faz hoje nas universidades, na saúde ou na economia ou mesmo a nível social em várias regiões, simplesmente porque estes não têm canais de comunicação.

As cerca de duas dezenas de televisões, rádios ou jornais centram-se em Lisboa e se fizermos uma reflexão profunda verificamos que os fazedores de opinião são sempre os mesmos, revezam-se pelos vários órgãos de comunicação, passam sempre a mensagem do ponto de vista de quem vive no grande centro que é a capital e, do país, conhecem acidentes, incêndios, miséria, dramas sociais a falta de projetos e futuro. Futuro que só existe se tal como muitos outros conseguiram uma oportunidade que os conduza até Lisboa.

Numa visão mais simplista do que acima refiro, basta ver que o único autarca que tem opinião ativa e presença permanente no espaço mediático é o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Pela minha parte tentei. Quando deixei a RTP para ingressar na TVI foi com a condição de dirigir a TVI no Porto e ter um estúdio nas instalações que não existia.

Quando assumi o Porto Canal foi com a condição de termos um estúdio digno e capacitado para um canal generalista com foco no Norte.

Não estou à espera de reconhecimento nem de louros, mas humildemente acho que contribuí com o meu esforço trabalho em nome que o Norte tivesse mais voz ativa. Foram muitos os agentes do Norte que passaram a ter voz no Porto Canal bem como políticos, representantes de várias áreas e decotado o país perceberam a importância de ter o Porto Canal na sua agenda. Como acima referi acabei vencido, mas não convencido e com a certeza de que dei algum contributo sem ter que fazer cedências de qualquer espécie. Sempre com voz própria, ideias convictas em sem subserviência, intriga, almoços, jantares, viagens ou estratégias pessoais.

Esta falta de espaço mediático e de decisores descentralizados tem igualmente afunilado as estruturas políticas e económicas das regiões. Olhando para o que conheço melhor, no caso a região Norte, as últimas décadas têm sido de quezílias, intrigas e procura incessante de posicionamento privilegiado nos corredores ministeriais para conseguirem para a sua quinta os melhores adubos. Ou seja, as capelinhas imperam, as quintas de cada um é o que interessa, as instituições e os responsáveis estão permanentemente em rota de colisão e esta visão não deixa margem para grandes estratégias comuns. Tudo isto leva ao enraizamento de uma cultura muito própria do nosso país: A ausência da meritocracia.  

Arrisco dizer que 60 a 70 por centro dos cargos de decisão estão em mãos de gente que não está capacitado para tal, mas sim de pessoas que se juntaram a ‘lobbies’, partidos ou fações, gente que se verga a tudo e a todos para conseguir um cargo, não para o exercer com sentido objetivo de rendimento que beneficia e comunidade, mas que lhes traga apenas benefícios pessoais.

Quantos não chegam a cargos de chefia porque se posicionaram em muitos momentos como “traficantes” de favores. Em todas as áreas, repito, em todas as áreas, sem exceção.

O país precisa de regiões fortes que se abram ao mundo e não que combatam o vizinho do lado ou se queixem permanentemente e amargamente do centralismo. O país precisa de gente capacitada nos lugares de decisão.

Em toda a Europa há regiões, em toda a Europa em cada esquina, passe o exagero, há uma televisão, uma rádio, um jornal e, agora, plataformas digitais. São estes espaços mediáticos que nos dão a conhecer o que melhor cada uma das regiões faz e produz. São estes espaços que nos dão a conhecer gente que Faz, de gente que trabalha arduamente e que não espera que a subserviência e os favores os coloquem em cargos apetecíveis.

Esta pandemia é bem o exemplo de como é preciso que cada região tenha voz própria, decisões em conformidade com os interesses da comunidade que conhecem bem e não tomadas em longínquos gabinetes do Poder.

Ganhávamos todos, ganhavam as regiões, ganhava o País e, estou certo, que ganharia Lisboa, tornando-se uma capital mais forte e muito mais aprazível.

Bastava tão somente que esta visão estratégica nos permitisse ter um retângulo com distribuição assertiva de população, economia sólida que chegasse a todos, bom tratamento dos espaços, das florestas e do mar.

Tudo isto nos conduziria a um país mais limpo, mais despoluído e com qualidade de vida para todos.

Será uma utopia, uma ilusão, uma miragem. Mas é uma convicção. Para estarmos mais perto da Europa e não tão mais perto do terceiro mundo.

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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