Sábado, Dezembro 4, 2021

Turismo, o Motor da Economia Portuguesa

José Theotónio, CEO Grupo Pestana

O setor do Turismo foi indiscutivelmente o motor da economia que permitiu a Portugal recuperar da crise económico e financeira de 2008 a 2012. Com a recente pandemia todo o setor parou. Foram 18 meses praticamente sem qualquer atividade. Houve apenas uma janela que permitiu alguma atividade entre meados de julho e outubro de 2020. A recuperação iniciou-se em junho deste ano.

No entretanto levantaram-se centenas de vozes (umas mais famosas que outras e algumas outras melhor fundamentadas do que o simples linguarejar) de que temos turismo a mais, não podemos viver com uma economia de “monoproduto”, e importa é desenvolver e apostar em outros setores, designadamente industriais. Que fique claro, não temos nada contra o desenvolvimento de outros setores de atividade. Antes pelo contrário. Mas o que temos não é uma indústria turística forte de mais, o nosso mal é não haver outros setores ou fileiras com o mesmo nível de desenvolvimento e a mesma competitividade internacional.

Sejamos claros, o Turismo em Portugal desenvolveu-se porque temos vantagens competitivas naturais para esta atividade, temos uma população que percebe a importância do setor e por isso se especializou e é profissional, sem ser “servil”, na prestação dos serviços hoteleiros (o famoso “sabemos receber bem”) e temos empresas que sabem da indústria, são resilientes, compreendem o setor e são internacionalmente competitivas.

Por isso desprezar o Turismo, como aconteceu no “famoso” PRR- Plano de Recuperação e Resiliência, é um erro.

É inegável que os programas de apoio ao emprego, desde o ‘lay-off’ simplificado até ao apoio extraordinário à retoma, e as moratórias, foram medidas muito importantes para quem a elas conseguiu aceder para, por um lado, manter o emprego, e por outro, preservar a liquidez mínima necessária à sobrevivência das empresas.

No entanto, o sistema de acesso e a libertação de fundos, apesar do esforço quer do lado empresarial quer dos funcionários do estado responsáveis pelo processo burocrático, foi lento ou impediu mesmo o acesso a esses apoios. Assim, muitas das empresas, em especial, as de menor dimensão e com menor estrutura administrativa e contabilística não conseguiram aceder aos apoios existentes ou só os obtiveram em parte e muito depois das reais necessidades.

Outro aspeto importante seria comparar os apoios disponibilizados em Portugal em cotejo com o que outras economias mais fortes disponibilizaram. Países houve onde se financiou custos fixos para todas as empresas e sem limite do programa Apoiar, se financiaram margens perdidas, e se baixaram de forma muito significativa impostos e taxas equivalentes aos nossos IVA, IMI ou TSU.

Agora que vamos sair da crise, voltaremos todos a competir uns com os outros, designadamente nos setores mais globalizados, mas há empresas de alguns países, dentro do mercado comum, que estarão em muito melhor situação do que as portuguesas, e desta vez não é por falta de capacidade de gestão (como os empresários portugueses muitas vezes são acusados), mas por terem tido medidas para ultrapassar a crise pandémica melhores do que as suas concorrentes portuguesas.

A recuperação do setor não tem sido homogénea entre os diferentes destinos, nem nos diferentes segmentos. O lazer recupera a uma velocidade muito superior ao corporativo, e o lazer de sol e praia e o do interior ou em espaço rural tem tido também maior incremento que o lazer urbano. A recuperação assentou sobretudo no mercado interno e nos mercados de proximidade. O turista que começou a viajar de avião é dos segmentos mais jovens e de países de origem diferentes dos que habitualmente nos visitavam (o turismo alemão, por exemplo, praticamente ainda não recomeçou), o que não é necessariamente mau, dado que podemos ter a oportunidade de diversificar mercados.

A incógnita é saber se esta recuperação é sustentada ou se assistiremos a uma regressão, como em outubro do ano passado, que vá provocar uma redução da atividade para além da que é natural pela sazonalidade. Por enquanto, os sinais são animadores, setembro e outubro perspetivam-se com desempenhos positivos nos destinos que recuperaram primeiro e o ritmo de reservas tem aumentado nos que estavam mais atrasados.

Quando falamos em resultados positivos, não falamos nos resultados dos anos dourados do triénio 2017 a 2019, mas quando conseguimos atingir pelo menos metade desses anos e vimos de 18 meses de uma paragem, praticamente total, da atividade, a nossa atitude tem de ser positiva: “olhar para a parte do copo que está meio cheia”.

O início da recuperação vai, no entanto, depender de múltiplas questões, fora a da evolução da pandemia, cuja qualidade da resposta que formos capazes de dar pode permitir a sustentação do desenvolvimento do setor turístico nos diferentes destinos. Para além dos dois “velhos” grandes constrangimentos que o Turismo tinha pré-pandemia: congestionamento do aeroporto de Lisboa (no atual estado do processo não teremos novo aeroporto nos próximos 5 anos e há quem diga se a opção vier a cair sobre Alcochete que serão 10 anos) e falta de pessoal qualificado para trabalhar no setor do turismo (há unidades que ainda não abriram por falta de pessoal), há que juntar as alterações que o modelo de negócio irá sofrer pelos problemas que alguns dos grandes ‘players’ do setor estão a sofrer, designadamente no transporte aéreo, em que a nossa TAP é um exemplo, e nos operadores turísticos.

Esperam-nos assim tempos desafiantes e que necessitam de empresas com capacidade de investimento e atração de talento para a transformação orgânica que têm necessariamente de fazer. Esta transformação deverá ocorrer a três níveis: 1 – transformações no modelo de negócio na comercialização e distribuição, para que não fiquem totalmente dependentes de outros operadores do setor; 2 – transformação digital para poderem ser mais eficientes em todos processos internos e 3 – transformação para operações sustentáveis, porque o tema da sustentabilidade veio para ficar e será um dos principais ‘drivers’ económicos e, em particular, do setor turístico.

Desafios enormes para as empresas turísticas, que apesar de virem de uma situação económica delicada, não podem perder a batalha da competitividade. 

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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