Sábado, Dezembro 4, 2021

“Sentimos a necessidade de reposicionar a marca ‘Portos da Madeira’”

Entrevista a Paula Cabaço, Presidente da APRAM – Administração dos Portos da Região Autónoma da Madeira

Ana Valado

Em entrevista à PRÉMIO, Paula Cabaço fala do reposicionamento da marca “Portos da Madeira”, materializado na assinatura “Your Safe Port” e na produção de novo material promocional. Decorrente de um conjunto de medidas sanitárias implementadas no âmbito da pandemia, esta mensagem vem reforçar a ideia de que os portos são portas de entrada seguras na região.
A presidente da APRAM adianta ainda que a nova estratégia passa por reforçar a proximidade com as companhias e participar nos grandes encontros mundiais do sector. A digitalização e a sustentabilidade ambiental são outros desafios que tem pela frente.

Depois de mais de um ano parados, os Portos da Madeira retomaram a sua actividade, curiosamente do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, com o navio World Voyager da portuguesa MysticInvest Holding. Desde esse dia como tem sido a retoma da actividade turística de cruzeiros? Quantos navios e turistas de cruzeiros passaram pela Madeira nestes quatro meses?

Posteriormente a esta escala foram realizadas mais duas e a quarta escala que estava prevista só não se realizou porque coincidiu com a decisão do governo alemão de colocar Portugal no “corredor vermelho”. Esta operação mobilizou cerca de 400 passageiros, tendo sido para a APRAM extremamente importante, na medida em que correspondeu à criação, no actual contexto Covid, de um novo produto, com um itinerário que integra exclusivamente as Ilhas da Madeira e dos Açores. O armador já confirmou que pretende dar continuidade a este roteiro, em 2022 e 2023. Em Setembro tivemos uma escala técnica do “Norwegian Breakaway”.

Este mês de Outubro marca a retoma dos navios de cruzeiros aos portos da Região Autónoma da Madeira (RAM), com uma previsão de 29 escalas, cinco das quais no Porto do Porto Santo. Se tudo correr bem, no final de Dezembro poderemos ter somado cerca de 100 escalas de navios de cruzeiros nos nossos portos, do Funchal e do Porto Santo.

Antes da pandemia, a Alemanha e a Inglaterra eram os mercados prioritários da APRAM. Estes mercados continuam a liderar ou existem novas tendências?

No turismo tradicional madeirense, os mercados alemão e inglês são de facto muito significativos. Também no turismo de cruzeiros, sobretudo nos cruzeiros de origem europeia, há uma prevalência de alemães e ingleses, mas depois há muitos italianos, americanos e uma série de outras nacionalidades. Pensamos que a pandemia não mudou essa realidade!

Apesar da paragem de actividade e com os portos de praticamente todo o mundo fechados, os portos da Madeira aproveitaram para melhorar as suas infra-estruturas e preparar-se para receber os seus visitantes com a máxima segurança e comodidade. Em que consistiu este investimento e qual o seu valor?

O Governo Regional, através de vários contratos programa com a APRAM, tem vindo a realizar grandes investimentos na manutenção das infra-estruturas portuárias. Algumas obras já decorriam antes de Março de 2020 e o que fizemos durante a pandemia foi acelerar o processo, aproveitando o facto de não haver navios. Foi o caso do Porto do Funchal, onde nomeadamente foi reforçado o manto de protecção do molhe da Pontinha e substituídos todos os cabeços de amarração. Um investimento de mais de meio milhões de euros que assegura a realização da operação portuária, em boas condições de segurança.

Em breve, vão iniciar-se obras no Porto e Marina do Porto Santo cujo investimento irá ultrapassar um milhão e meio de euros. São obras de manutenção e reabilitação daquelas infra-estruturas que contemplam a reabilitação de 700 metros do cais, com betão betuminoso. Na Marina tem a ver, essencialmente, com o arranjo do que foi destruído por temporais recentes. Isto numa altura em que aquela marina é muito procurada por veleiros de passagem para as Américas, sobretudo em Setembro e em Outubro.

Além disso temos investido fortemente na melhoria dos designados pequenos cais que têm um papel muito importante, em termos económicos e sociais, nos diferentes concelhos da RAM. Trata-se de manter e melhorar as condições de abrigo de pequenas embarcações de pesca, mas também de estimular o desenvolvimento das actividades marítimo-turísticas, criando novas atractividades descentralizadas.

Não posso deixar de referir o trabalho desenvolvido pela APRAM, que foi pioneiro a nível nacional, na criação de documentos estratégicos, como o Plano de Gestão para o Porto no âmbito da Covid, assim como na aquisição de equipamentos, de modo a dotarmos as nossas instalações portuárias de todas as condições, em termos de segurança sanitária, tendo em vista proteger quem nos visita, mas também a nossa comunidade local, num tempo que é ainda de pandemia.

Todo este trabalho no domínio do combate e prevenção da Covid-19 e também na vertente da oferta de condições à retoma do mercado de cruzeiros, foi distinguido, primeiro, pela certificação da SGS pelas “Boas Práticas contra os Riscos Biológicos” e, mais recentemente, com o certificado do Turismo de Portugal “Clean and Safe 2021”, na tipologia de terminais de cruzeiros.

Este investimento foi totalmente suportado pelo Governo Regional. Apesar das várias reivindicações do Presidente da RAM, Miguel Albuquerque, os Portos e Marinas da região não foram contemplados no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para a Madeira. Sendo as obras de renovação do Porto do Funchal um “projecto estruturante” para a região, como não foi tido no PRR?

Isso é algo que nós não compreendemos. Os portos são infra-estruturas críticas para a acessibilidade marítima, sobretudo, numa região insular como a nossa que depende da mesma para o seu abastecimento, assim como porta de entrada de turistas. Por outro lado, há desafios futuros que têm de ser preparados com vista ao reforço da nossa competitividade. Por exemplo, a ampliação do Porto do Funchal, em 400 metros, visa satisfazer duas necessidades: a primeira, tem a ver com a criação de mais espaço de acostagem, sobretudo para navios de maior dimensão, pois antes da pandemia foram alguns os dias que tivemos de recusar navios, porque o porto estava lotado. A segunda, tem a ver com o reforço da segurança da baixa do Funchal, evitando galgamentos e viabilizando a utilização do cais 8.

Além disso, são muitos os desafios futuros que se colocam ao sector portuário, como a crescente digitalização e inovação, contribuindo para uma maior eficiência do processo logístico, e a própria sustentabilidade ambiental, que hoje está no centro de todas as atenções. A entrada de navios de maior dimensão pede um ajustamento ou adaptação das infra-estruturas. No nosso caso só pode ser mesmo através da ampliação, sob pena de se retirar competitividade a um porto que tem estado nas linhas da frente do sector de cruzeiros a nível nacional.

Porto do Porto Santo

Porto do Funchal

Quais as expectativas da APRAM para o fim de ano, sendo uma das épocas do ano que mais turistas procuram a Madeira?

São boas, temos 10 reservas de cais ou fundeadouro. Uma boa notícia para nós APRAM, mas também para todos os funchalenses, que se habituaram na passagem de cada ano a ter a baía com muitos navios de cruzeiro. Só para ter uma ideia, o dia 31 de Dezembro é o dia que regista mais acessos ao nosso site, exactamente para ver quantos, quais e as horas de chegada dos navios que vão estar a assistir ao espectáculo de passagem de ano.

Quais as principais companhias de cruzeiros que visitam a Madeira?

Todas nos visitam, embora as que têm mais expressão são a AIDAcruises, P&O, Thomson, TUI e MSC.

Miradouro dos Moínhos – Porto Santo

O que é que a Madeira tem para oferecer aos turistas de cruzeiros, que a diferenciam de outros destinos?

Desde logo a chegada a uma baía que continua a encantar quem nos visita. Há inúmeros testemunhos, na literatura ou em crónicas de jornais, que falam da magia da chegada à Madeira. Além disso, temos um clima agradável, uma natureza imponente, uma oferta de serviços bastante diversificada e um destino seguro, todo um pacote que torna a escala na Madeira uma experiência inesquecível.

Como a APRAM está a apostar na promoção do destino junto das principais companhias de cruzeiros e como vai potenciar a competitividade no mercado internacional de Cruzeiros?

Somos um porto com uma longa história e tradição no corredor do Atlântico, que sempre foi muito procurado devido à sua posição estratégica. A proximidade com as companhias sempre foi uma das nossas características.

Nos anos 90, criámos uma parceria com as Autoridades Portuárias de Canárias e nasceu a marca “Cruise in the Atlantic Islands”, que uniu os atractivos e sinergias destes dois arquipélagos atlânticos. De tal forma que esta rota Canárias-Madeira-Canárias transformou as nossas ilhas, antes da pandemia, na terceira zona mundial de Inverno, com cerca de 30 mil escalas e mais de dois milhões de turistas, anualmente. É uma parceria que nos ajuda a competir com os melhores do mundo, mas claro que temos estado abertos a outras possibilidades de negócio, incluindo os projectos que juntam os portos portugueses.

Durante a pandemia e perante a decisão do Governo espanhol que impediu que os navios da rota de Canárias viessem à Madeira, uma medida justificada no contexto da prevenção da Covid-19, desafiámos os nossos colegas açoreanos para a criação de um novo produto, um itinerário pelas ilhas portuguesas que correu bem.

A nossa estratégia em termos comerciais pretende reforçar a proximidade com as companhias, para além da participação nos grandes encontros mundiais do sector e nas associações de portos, onde delineamos procedimentos comuns. Com efeito, pretendemos efectuar acções directas de relações públicas com as companhias. Apesar de toda a tecnologia que cada vez mais nos envolve, os contactos pessoais continuam a ser uma mais-valia importante.

Sabemos que estão a fazer um ‘rebranding’ à marca APRAM, com a nova assinatura “Your Safe Port”. Em que consiste esta alteração e qual o novo conceito por trás da marca?

Neste novo contexto Covid, sentimos a necessidade de reposicionar a marca “Portos da Madeira”, de forma a transmitirmos os novos valores associados à segurança do destino e dos nossos portos. A nova assinatura “Your Safe Port” pretende salientar que, decorrente de um conjunto de medidas sanitárias que foram implementadas, os portos são portas de entrada seguras na Região. Para o relançamento da actividade, após um ano e meio praticamente paralisada, esta mensagem é fundamental para recuperar a confiança de quem nos visita.

Este ‘rebranding’ da marca vai ser materializado, através da nova assinatura, mas também através da produção de novo material de comunicação e promocional, nomeadamente, a de um vídeo, brochura e material de merchandising.

Pretendemos também que o conceito “Safe Port”, se interprete em termos afectivos como porto de acolhimento, sinónimo de “bem receber”, atributo que tão bem caracteriza o nosso destino turístico e a nossa população.

Para além da vertente turística, existe também a vertente de abastecimento e exportação, fundamental numa ilha, sendo a principal porta de entrada e de saída de mercadorias. Quer fazer-nos um balanço desta vertente nos últimos meses?

A Região Autónoma da Madeira importa 95% do seu consumo e dessa importação 99% chega por via marítima. Por isso, o Porto do Caniçal é a grande porta de abastecimento da região. Este porto esteve sempre a funcionar, mesmo em pleno confinamento.

E analisando as variações de cada mês, no total, não houve grandes diferenças na importação como na exportação durante este tempo de pandemia.

As diretrizes do Governo Regional “definem portos mais competitivos e mais eficientes, potenciadores do desenvolvimento económico e social da nossa região”. Como esta missão está a ser materializada pela APRAM?

Nas ilhas, os portos são estruturantes do desenvolvimento económico e social. Portos competitivos e eficientes significa que trabalhamos no sentido de prestar melhores serviços aos nossos clientes, através de uma adequada utilização dos recursos humanos e financeiros. A aposta na formação e valorização dos quadros da APRAM, a permanente manutenção das nossas embarcações e equipamentos em terra, assim como das diferentes infra-estruturas e áreas dominiais têm sido investimentos fundamentais.

Contudo, para o reforço da competitividade dos portos da RAM é prioritário abraçar, no curto prazo, novos projetos na área da digitalização e da sustentabilidade ambiental. Temos muito desafios pela frente. Não tenho dúvidas de que este é um caminho onde ainda temos de trabalhar muito!

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