Quarta-feira, Março 3, 2021

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Resposta da RAM à Pandemia Covid 19

Pedro Ramos, Secretário Regional de Saúde e Protecção Civil da Região autónoma da Madeira (RAM)

Em primeiro lugar vou caracterizar a forma como a resposta à pandemia foi pensada, preparada, organizada, debatida e implementada numa região que por ser insular tinha e tem particularidades próprias que na nossa perspectiva ajudaram a abordar e controlar a pandemia da covid 19 na primeira onda e, também posteriormente, na segunda onda.

Desde o início da pandemia desenvolvemos e implementámos uma estrutura de comando, coordenação e controlo, envolvendo a saúde e a protecção civil, articulando com todas as entidades públicas e privadas e preparando a resposta de acordo com o PREPCRAM – Plano de Resposta Emergência da Protecção Civil da Madeira.

Não negligenciámos a pandemia, e por isso entendemos que esta atitude fez a diferença.

Fomos pioneiros em muitas das medidas que adiante falaremos, que também contribuíram de forma positiva porque foram proactivas, de antecipação, preventivas e tendo sempre como foco a protecção da saúde pública da Região Autónoma da Madeira (RAM).

Seguimos atentamente a evolução da pandemia no mundo, na Europa, no País, bem como as medidas que iam sendo adoptadas, e consequente impacto na população e no controlo da pandemia, e estivemos particularmente atentos à forma como os países asiáticos, controlavam a sua evolução, com medidas preventivas cujo resultado dependia da responsabilidade do cidadão.

O direito à vida é aquele que importa preservar sempre, e não se pode falar em perda de direitos, liberdades e garantias, quando a vida das pessoas está em jogo.

A Madeira sempre respeitou a sua população e por isso todos os casos onde as medidas não foram seguidas, houve sempre surtos como resultado final.

Tínhamos razão

E em todas as decisões do Governo suportado pelas Autoridades Regionais de Saúde (ARS), a única preocupação foi a saúde pública da RAM.

A Madeira seguiu a metodologia de resposta à catástrofe – o MRMI (Medical Response to Major Incidents), do qual tem sido precursora da disseminação da mesma desde 2010 na região, nos Açores e no país, tendo já realizado 20 cursos e formado e treinado mais de 1500 profissionais da área médica, enfermagem, protecção civil, PSP, GNR, forças militares, gestores, psicólogos, assistentes operacionais, técnicos de medicina legal.

Nos últimos dez anos, este modelo tem sido sempre eficaz e eficiente na organização da resposta nos outros acidentes que assolaram a região, como foram as inundações, os incêndios, a queda da árvore ou a queda do autocarro.

Esta calamidade tinha e tem particularidades – pode atingir os responsáveis pela resposta – os profissionais de saúde e protecção civil e depende mais do que nunca da responsabilidade do cidadão. Tivemos de ter em conta a protecção destes profissionais, bem como alertar para a responsabilidade cívica de cada um de nós.

O sucesso da resposta passa em primeiro lugar pelo cidadão e pelo seu comportamento.

Todos nós temos de ter consciência da calamidade que estamos a atravessar e, passado quase um ano, ainda ficamos surpreendidos com certas declarações de resistência a medidas que têm como objectivo proteger a população e permitir a renovação da nossa economia – como é e foi o exemplo das máscaras, inicialmente recomendadas em espaços fechados e depois obrigatórias em todos os espaços públicos, decisão inicial do Governo Regional em Abril de 2020, e finalmente seguida pelo país em Novembro de 2020, oito meses depois.

As decisões que estão a ser tomadas são de carácter sanitário e não político, como muitos pretendem passar, e isso tem constituído um obstáculo por vezes inultrapassável para aqueles que tem de liderar a abordagem da pandemia, quando estão focados apenas na saúde pública da população.

Sentimos sempre uma preocupante falta de acompanhamento e uma grande dificuldade com as nossas decisões por parte da justiça e suas leis, em contexto de pandemia. Os ‘habeas corpus’ foram um exemplo difícil de aceitar, e as mortes actuais na RAM, infelizmente a constituírem uma realidade, provam que tínhamos razão em tentar proteger os cidadãos mais vulneráveis.

A Madeira iniciou a sua resposta acompanhando desde Dezembro de 2019 a evolução da pneumonia de Wuhan, seguindo as orientações que foram emanadas pela OMS e, posteriormente, pela DGS.

Apresentou a linha de emergência a 27 de Janeiro, (SRS24) e posteriormente fez a apresentação do plano do qual constava a articulação entre todas as entidades da RAM público-privadas-militares-segurança-marítimas- enquadrando a resposta no PREPCRAM.

Durante o mês de Fevereiro deu formação a todos os profissionais e ainda a toda a administração pública da Madeira para a concepção dos planos de contingência, reorganizando ao mesmo tempo o Serviço Regional de Saúde (SRS) através de mudanças na resposta ao nível dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e Cuidados Hospitalares (CH).

Foi criada uma comissão COVIDRAM que se encarregou do plano de resposta ao nível das unidades de saúde, foram encerradas urgências, ao nível dos CSP e aumentámos a resposta ao nível dos CH, criando zonas de triagem e triagem avançada de modo a filtrar a chegada dos casos suspeitos para serem testados.

A 12 de Março foi declarado o “Estado de Alerta” na RAM, um dia antes da declaração de pandemia pela OMS e, seguidamente, introduzimos o controlo de temperatura e análise do inquérito epidemiológico para controlar as entradas por via aérea e marítima.

Posteriormente, encerrámos portos e marinas em Março de 2020 e condicionámos os aeroportos em termos de número de voos semanais admitidos.

Protegemos os nossos profissionais e os grupos vulneráveis, encerrando escolas e lares e ainda impedindo a mobilidade dos profissionais de saúde entre o sistema público, convencionado e privado e ainda social.

Na fase inicial, a resposta foi articulada com as forças militares da RAM, contando com a colaboração do Comando Operacional da Madeira (COM) e Zona Militar da Madeira (ZMM) para o transporte de material e para a implementação de tendas de triagem para testagem ao nível do SESARAM.

Criámos uma unidade de emergência de saúde pública chefiada pelo único medico de saúde pública e que contou com a colaboração de mais de 40 profissionais da área da Medicina Geral e Familiar (MGF), enfermeiros, Internos de Formação Geral (IFG) e Internos de Formação Específica (IFE), que colaboraram no ‘trace-traking’ e isolamento dos casos suspeitos e confirmados, acompanhando a sua evolução.

Privilegiámos o digital para a comunicação com os utentes – a telesaúde, teleconsulta, teleentrevista, telemedicina, ‘webinar’, criando linhas de apoio adicional para o cidadão em geral, para o idoso, para a criança, para a grávida, na área da psicologia, nutrição, apoio a medicação, oncologia. Procuramos chegar a todos de forma diferente mantendo a ligação com os serviços de saúde da RAM.

Fomos ao encontro dos utentes usando as novas tecnologias

Criámos ainda plataformas de registo APP como o “Madeira Safe” para monitorizar os viajantes e ainda o “S-ALERT” para os casos positivos da RAM até o final da quarentena, e do isolamento profilático.

Introduzimos o uso de máscaras na comunidade em Abril de 2020 – fomos pioneiros no país, seguindo o exemplo corrente nos países asiáticos e, mais recentemente, em alguns países europeus para os espaços fechados a fim de conferir maior protecção à população, bem como o distanciamento social, a etiqueta respiratória e a desinfecção das mãos, e julgamos ter contribuído para a contenção da propagação do vírus nesta fase inicial.

Com estas medidas, chegamos a 1 de Julho com 92 casos confirmados e apenas dois ainda activos, razão pela qual entendemos proceder gradualmente ao desconfinamento, como forma de proteger a população e recomeçar as actividades essenciais para recuperar a nossa economia, que sofreu bastante neste período, em que houve confinamento total.

Desconfinamos, porque tínhamos condições para cumprir com as recomendações da OMS-SRS, capacidade de testagem e ainda poucos casos na RAM.

Como preparámos a segunda onda?

Com a mesma determinação com que enfrentámos a primeira onda, com antecipação e proactividade e com articulação perfeita entre as várias entidades.

Abrimos as fronteiras gradualmente, e queríamos que os turistas fizessem teste na origem, como não fomos ouvidos, criamos um centro de rastreio à chegada aos aeroportos do Funchal e Porto Santo para teste à chegada e ainda criámos postos de colheitas no país – cerca de 33, para testagem antes de embarcar.

Um investimento enorme e que custou à RAM cerca de 20 milhões de euros – trata-se de mais um investimento em prol da nossa população e da sua segurança neste contexto de pandemia.

Abrimos as actividades comerciais de forma faseada com exigência de plano de contingência, durante os meses de Abril e Maio e retomámos também da mesma forma a actividade da saúde, com a exigência de testes para todos os procedimentos invasivos, cirúrgicos, imagiológicos, obstétricos, oncológicos, nefrológicos, de internamento nas unidades de saúde e ainda na área da saúde mental.

Estabelecemos uma estratégia de testagem, dada a nossa capacidade, e após a primeira fase onde testavam os suspeitos, posteriormente os contactos próximos, criámos vários “momentos zero”, para as áreas da saúde, lares, educação, protecção civil, reclusos, ERPI, centros de acolhimento, sendo o resultado sempre negativo.

Preparámos as áreas de resposta ao Covid e à gripe com a apresentação do plano Outono-Inverno, com antecipação da vacinação, alargamento da mesma a grupos de risco, e ainda capacitação das unidades de saúde em camas de internamento e de cuidados intensivos.

Actualmente, chegados ao final de 2020, e já com o horizonte fixado nas vacinas temos cerca de 134 camas disponíveis e 108 ventiladores para estes circuitos.

Reorganizámos de novo o SRS ao nível dos CSP e CH, com a criação de circuitos para doentes respiratórios e não respiratórios, Covid e não Covid, e ainda com gripe e outros.

Implementámos medidas mais restritivas ao nível da prevenção com a obrigatoriedade do uso de máscara em todos os espaços públicos abertos e fechados e ao nível das escolas, abrangendo todas as crianças a partir dos 6 anos de idade.

A testagem foi também alterada no que diz respeito à sua estratégia inicial e nas áreas da saúde, social, protecção civil, educação com testes à chegada e repetição entre o 5-7 dia, após realização de viagens.

Passámos a utilizar também os testes rápidos de antigénio, com a colaboração da Cruz Vermelha Portuguesa, onde foram disponibilizados numa fase inicial 50 000 testes que têm sido utilizados nos surtos e rastreios da RAM.

Mantivemos a colaboração dos hoteleiros, com o alojamento para os casos positivos não residentes e residentes se não tivessem condições para fazer o isolamento no domicílio.

Continuámos a dar formação e a preparar os nossos profissionais para a resposta à pandemia.

Entretanto, a pandemia continua, com mais casos, mais internamentos, mais doentes nos cuidados intensivos e infelizmente mais mortos.

Temos de continuar focados nas medidas preventivas e temos de as cumprir, escrupulosamente sob pena de sermos responsáveis pela sua perpetuação com mais morbilidade e mortalidade.

Temos de ser verdadeiros agentes de saúde pública, temos de continuar a proteger-nos para podermos proteger os outros, principalmente os mais vulneráveis.

A 31 de Dezembro iniciámos a campanha de vacinação anti Covid 19 na Madeira. Um processo com alguma complexidade, dada as características da vacina disponível – a da Pfeizer- que requer uma rede de frio importante. Preparámos todos os profissionais da farmácia e de enfermagem para esta operação e adquirimos duas arcas ultracongeladores para o efeito. Articulámos a nível nacional com o SUCH (Serviço de Utilização Comum dos Hospitais) de forma a estarmos em sintonia com a ‘taskforce’ nacional.

O processo de vacinação é semelhante ao dos outros países, com os profissionais de saúde, dos lares, utentes das ERPI, utentes com comorbilidades e idade superior a 50 anos e ainda os profissionais da protecção civil como sendo os que estão na linha da frente dos prioritários.

É um processo que está a ser conduzido com muito rigor e responsabilidade pela Comissão Regional, atenta não só à vacinação, mas também a sua monitorização e farmacovigilância.

Que aprendemos?

Ao fim de 10 meses -muito! e continuamos a aprender, pois este vírus e imprevisível, na sua contagiosidade.

  • É preciso liderança, e respeito por esta;
  • É possível e é preciso reorganizar a resposta dos sistemas de saúde;
  • É necessário proteger os profissionais e os mais vulneráveis;
  • É necessário termos equipamentos de proteção individual que permitam a segurança da prestação;
  • É necessário dar formação a todos e estabelecer planos de contingência que tem de ser cumpridos;
  • É possível dinamizar a actividade assistencial, com precaução acrescida e proteção dos profissionais e utentes-não se pense em recuperar a totalidade da actividade antes da pandemia;
  • É necessário comunicar cada vez mais com recurso a novas TIC-Telesaúde, telemedicina, teleconsulta, teleentrevista, ‘webinar’;
  • É necessário aumentar a capacidade de resposta dos sistemas de saúde – SRS, em internamento e UCI;
  • É necessário capacidade de testagem, ‘tracing’, ‘traking’ e isolamento seguro;
  • É necessário preparar atempadamente a resposta em situações excepção em articulação com os privados, sempre que necessário;
  • É necessário linhas de apoio de comunicação para com os utentes-geral, idosos, gravidas, pediatria, nutrição, psicologia e saúde mental;
  • É necessário investir na saúde e social, e na Madeira esse investimento foi da ordem dos 117mme, plurianual-com 85mme em 2020 e 33mme em 2021.

Termino com uma mensagem final, o sucesso da resposta a pandemia agora que temos a vacina disponível, continua a depender dos cidadãos e do seu comportamento.

Se antes era exigido o cumprimento das medidas não farmacêuticas, para controlar a pandemia, agora é ncessário que haja uma adesão em massa à vacinação para podermos ter mais de 60-70% de vacinados e assim adquirirmos a imunidade de grupo.

Desejo a todos um bom ano 2021, que seja o ano das vacinas para todo o mundo e dos abraços entre os cidadãos.

Que seja o ano do retorno a normalidade.

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