Domingo, Julho 21, 2024

Para um futuro sustentável

João Miguel Braz Frade | Partner na Twinpikes

ESG é o acrónimo de Environment, Social & Governance. O termo tornou-se comum no jargão dos gestores de empresas, fundos de investimento, banqueiros, académicos, ambientalistas, etc…, espalhou-se e na última década cresceu como “fogo em palha” na generalidade das sociedades mais desenvolvidas.

A pressão social no sentido da adoção de práticas ambientalmente sustentáveis, deu origem a uma pressão política crescente, e consequentemente a uma atividade regulatória cada vez mais exigente. A exigência de que as empresas e os seus gestores adotassem práticas ambientalmente sustentáveis, somou-se a exigência de adoção de práticas socialmente responsáveis que contribuíssem não só para o desenvolvimento humano e profissional dos trabalhadores e colaboradores, mas também das regiões e localidades onde desenvolvem as suas atividades e da sociedade em que se integram. Finalmente todas estas mudanças e o próprio desenvolvimento das sociedades, obrigam as organizações e empresas a uma maior exigência ética e a adoção de princípios e práticas de transparência e reporte, que permitam uma avaliação clara da ação das empresas quer na implementação das práticas de ESG quer da forma como conduzem em geral a sua atividade.

No início assistiu-se a uma profusão de Relatórios de Sustentabilidade com adesão limitada a realidade (na generalidade dos países), muitas vezes utilizados como mais um instrumento de comunicação, sem qualquer possibilidade de verificação do nível de adesão a realidade o que levou a práticas menos sérias, logo designadas de ‘greenwashing’, uma “espécie” equivalente ao ‘window dressing’ nas contas.

Mas nos EUA e nalguns países onde a evolução e a implementação das práticas de ESG evoluíram mais rapidamente, a regulamentação tornou-se mais exigente e práticas como o ‘greenwashing’, que no início foram olhadas com alguma tolerância, são hoje objeto de controlo rigoroso suportado por legislação.

Todas as iniciativas dirigidas à redução dos riscos ambientais, sociais e de governo societário são objeto de escrutínio. Práticas que anteriormente podiam ser consideradas como motivadas por desconhecimento, esquecimento, ou simplesmente pouco importantes, são agora legalmente reguladas e objeto de muito maior escrutínio.

O reporte enganador ou falso das práticas de ESG, iludindo os riscos ou difundindo informação falsa é agora considerado crime. Mas a penalização é também reputacional e afeta cada vez mais o que pensam da empresa os seus financiadores, os fornecedores, os clientes, os empregados e, naturalmente, os investidores.

Este controle só é possível mediante a adoção de instrumentos de reporte rigorosos e idênticos para todas as empresas (eventualmente de acordo com a sua dimensão, normalmente a exigência é maior nas cotadas) dos quais destaco o SASB (Sustainability Accounting Standards Board), GRI (Global Reporting Initiative) e ainda o PRI (Principles for Responsible Investment), todos eles exigem bastante informação e métricas claras.

Lentamente estes e outros instrumentos vão-se tornando universais.

Ainda assim, muitas empresas de grande dimensão recorreram intencionalmente ou por incúria em más práticas. O caso mais célebre, e que mais tinta fez correr no mundo dos negócios e não só, foi o da Volkswagen, que em 2015 dotou os seus veículos dum aparelho que falseava a leitura das emissões, que na verdade eram muito superiores do que os valores permitidos.

Outras reclamavam para si práticas que não tinham, como por exemplo a Ryan Air que se autointitulava “lowest emissions airline” ou a KLM que usava o ‘slogan’ “Be a hero, fly CO2 zero” e tiveram que arrepiar caminho.

Também há muitos exemplos de boas práticas, citados na imprensa internacional e estudados nas universidades, como a UNILEVER e o seu “Sustainable Living Plan” ou a PATAGONIA com a “Common Threads Initiative” entre muitas outras iniciativas. Em Portugal destaco duas grandes empresas, a EDP e a Jerónimo Martins, cada uma com várias iniciativas relevantes em sede de sustentabilidade.

Sem qualquer pretensão, aqui ficam alguns exemplos de medidas que contribuem para um futuro mais sustentável, enquadradas nas três dimensões que dão significado ao acrónimo ESG e que, com maior ou menor esforço, as empresas devem adotar.

No que respeita a Sustentabilidade Ambiental, monitorizar e reduzir as emissões controlando os consumos de energia e os transportes, utilizar tecnologias mais eficientes e sempre que possível, energias renováveis, reduzir os desperdícios, reciclar, encorajar a utilização de transportes públicos, a partilha de transportes privados e o uso de bicicletas ou alternativas de baixo consumo quando apropriado. Reduzir o consumo de água. Selecionar fornecedores que tenham boas práticas de sustentabilidade. Responsabilizar-se pelos impactos ambientais das suas atividades e colaborar com as autoridades na reposição dos ecossistemas alterados.

No que respeita a Sustentabilidade Social, promover o bem-estar dos colaboradores mediante implementação de medidas de segurança e apoio a saúde, contribuir para um balanço trabalho/família adequado, respeitar os direitos legalmente consagrados. Promover a inclusão e praticas de apoio a igualdade e a diversidade. Promover iniciativas com as comunidades locais e com outros ‘stakeholders’ por forma a divulgar e alinhar as práticas sustentáveis.

No que respeita a Sustentabilidade da Governance, medidas com o reporte transparente, a análise e gestão rigorosa do risco (operacional, financeiro, ambiental, reputacional, etc..), assegurar a conformidade (‘compliance’) com as leis e regulamentos, incluindo os internos. Promover práticas éticas e medidas preventivas de comportamentos corruptos, fraudulentos ou simplesmente pouco éticos. Divulgar atempadamente e com clareza todos os documentos de prestação de contas e de avaliação das práticas de ESG. Manter um controlo independente sobre a Gestão.

Nas três dimensões descritas é necessário manter uma monitorização permanente da evolução em direção aos objetivos definidos para cada período.

Termino citando a Professora Rebecca Henderson da HBS, uma autoridade mundial nos temas de Sustentabilidade e uma das pessoas que lidera a produção de conhecimento e a divulgação de experiências relevantes nos EUA: “The transition to a sustainable future will require fundamental changes in the way we think about business, the economy, and our role in society.”

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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