Sexta-feira, Setembro 24, 2021

Os desafios para a indústria seguradora

Jorge Magalhães CorreiaChairman e CEO da Fidelidade

A indústria seguradora, tradicionalmente conservadora e estável, enfrentará nos próximos 10-15 anos uma profunda transformação, cujos primeiros passos se encontram já em marcha. Essa transformação estará ancorada em quatro grandes mudanças ou desafios: consumidores cada vez mais exigentes, inovação tecnológica e digital, entrada de novos ‘players’ e uma evolução regulatória cada vez mais exigente.

O mercado global tornar-se-á cada vez mais digital, mais ligado e mais personalizado. Este novo paradigma digital, influenciado, em grande medida, por gigantes tecnológicos como Google, Facebook e Amazon, redefine e ancora as expetativas dos consumidores que utilizam este tipo de serviços de forma diária. Com efeito, a exigência dos consumidores face às demais instituições com que interagem – incluindo as companhias de seguros – aumentará radicalmente em termos de simplicidade, rapidez, conveniência, personalização de acordo com as preferências e comportamentos individuais, interatividade colaborativa e remota e adaptabilidade em ‘real-time’.

A inovação tecnológica e digital será também um dos grandes vetores de revolução na indústria seguradora. Por um lado, a crescente disponibilização de informação, seja através de redes sociais, seja através de sensores e dispositivos que recolherão cada vez mais dados – como andamos, como conduzimos, como comemos, como dormimos, etc. – permitirá às seguradoras um muito melhor conhecimento dos clientes – com evidentes repercussões na qualidade da avaliação do seu risco – e uma maior frequência de contacto e disponibilização de serviços de valor acrescentado. Ao conhecerem melhor os seus clientes, as seguradoras poderão prestar-lhes um serviço mais completo, criando “ecossistemas” de produtos e soluções ubíquos que enderecem a totalidade das necessidades dos clientes num determinado âmbito. Por outro lado, a tecnologia também despoletará uma transferência das fontes de risco em alguns campos da atividade seguradora bem como o surgimento de novas formas e tipos de risco (ex.: ciber risco). O exemplo provavelmente mais badalado é o do seguro automóvel com a emergência dos carros autónomos ou altamente autónomos, que se esperam vir a ter um peso material no parque daqui a 10-15 anos, e que transferirão a raiz do risco de acidente do elemento humano para o elemento tecnológico, que poderá residir no fabricante da viatura ou no fornecedor do ‘software’. Esta transferência de risco irá transformar radicalmente o paradigma do seguro automóvel que tem vigorado até hoje…mas não se cingirá a este ramo, seguramente. Por último, mas não menos importante, a tecnologia potenciará fortemente a otimização de modelos de negócio, tanto no ‘front-end’, como na operativa e processos de ‘middle’ e ‘back-office’ (robotização de processos; otimização da subscrição, gestão de sinistros ou fraude com base em analítica e ‘machine learning’; agilização na resposta e no tratamento de reclamações, etc.).

Aliada a esta disrupção tecnológica e digital, tornar-se-á cada vez mais intenso o surgimento de novos ‘players’ na indústria seguradora, de índole marcadamente tecnológica – as denominadas ‘insurtechs’, que ameaçam as companhias de seguros incumbentes com propostas de valor inovadoras e novas formas de interação com clientes. As próprias gigantes tecnológicas começam a perfilar-se como potenciais ‘players’ de seguros, tendo como potenciais vantagens competitivas uma capacidade de processamento de dados em tempo real e uma quantidade de dados armazenados inigualáveis.

Por último, as exigências regulatórias tenderão a aumentar, em linha com um aumento do nível de escrutínio e regulação aplicado ao setor financeiro e, inevitavelmente, pela necessidade de acompanhar o crescimento da complexidade e diversidade de modelos de negócio e respetivos participantes.

Em suma, nos próximos 10-15 anos antevejo desafios enormes para a indústria seguradora, que seguramente terá também implicações adicionais no palco competitivo, não só pela entrada de novos ‘players’, como referido acima, mas também pela própria reorganização e consolidação de seguradoras tradicionais, cuja sobrevivência de forma individual nalguns casos se tornará insustentável. Não tenho dúvidas que em 2030-2035 o setor de seguros terá uma paisagem e figurino muito diferente daquele que apresenta hoje em dia.

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