Sexta-feira, Setembro 24, 2021

O Lugar de Portugal

Francisco Seixas da CostaEmbaixador

Foi Harold Macmillan, primeiro-ministro britânico, quem, um dia, perguntado sobre o que mais temia em política, respondeu: “Events, dear boy, events!”. O futuro tem sempre mais imaginação do que os homens. A vida ensina-nos que acontecimentos que venham a surgir, de cujo desencadear não somos necessariamente o sujeito, sobrepõem-se à mais bem desenhada estratégia. Isto é válido tanto para a existência das pessoas como para a dos países.

Como será Portugal daqui a quinze anos? Responder à questão de saber onde e como estaremos então, na Europa e no mundo, implica ter de assumir que essa Europa e esse mundo irão, entretanto, mudar, queiramos ou não, eventualmente em sentidos inesperados. A nós, resta-nos ter a capacidade para procurar preservar, no quadro dessa mudança, em que só limitadamente podemos influir, aquilo que consigamos projetar como sendo os nossos legítimos interesses – os essenciais, de cuidar de um Estado com quase 900 anos, e os conjunturais, os de uma sociedade por cujo bem-estar, no presente, as gerações atuais são responsáveis.

É uma ironia pensar que, num mundo cada vez mais interdependente, acaba por ser na redução das dependências e no reforço dos fatores autónomos de decisão que reside, afinal, a nossa reserva de força para enfrentar os riscos do futuro. É verdade, mas não só. Somos também responsáveis pela contribuição que pudermos dar, enquanto país, para tornar mais funcionais as instituições e o corpo de princípios e de entendimentos que estruturam a sociedade internacional, nos quais repousa a esperança de um futuro de diálogo e de bem-estar, bases indispensáveis para a paz e segurança globais. Quanto mais esse quadro estiver estabilizado, com maior facilidade conseguiremos nele preservar os nossos interesses.

Devemos ser assim, simultaneamente, ambiciosos e realistas. Comecemos pelo realismo. Sei que não será simpático ler a verdade que vem a seguir: nada indica que, daqui a quinze anos, Portugal deixe de ser o país mais pobre da Europa ocidental, que há muito é. O nosso atraso relativo, em matéria de riqueza e competitividade, não conseguirá ser colmatado nesse período. Mas um país antigo como o nosso é um corredor de fundo e, se olharmos para o fantástico salto – em desenvolvimento, bem-estar e mentalidades – que o país conseguiu dar nas últimas décadas, facilmente concluiremos que permanece na nossa mão a possibilidade de acelerar a qualidade do nosso futuro.

Devemos ter a ambição e a coragem de fazer o básico trabalho de casa: tentar atenuar o peso constrangente do endividamento e assumir uma postura sensata no equilíbrio da despesa pública, na consciência de que o tempo europeu das “vacas gordas”, que nos facultava meios que não decorriam da criação de riqueza própria, está a acabar. Seria importante conseguir consensualizar internamente algumas prioridades nas principais políticas públicas, estabilizando as que, mais imediatamente, possam contribuir para a qualificação do capital humano e para a criação de condições, legislativas e não só, para potenciar a produção sustentável de riqueza. Mas, de igual forma, impõe-se também melhorar as que, em primeira linha, protegem os setores sociais mais vulneráveis, evitando o degradar da esperança, o potenciar da perceção de inseguranças e, daí, as derivas para o desespero político. 

No plano externo, há uma prioridade óbvia: reduzir drasticamente a nossa dependência energética, aliás já inserida num processo de transição, para o qual têm vindo a ser dados passos importantes, consentâneos com um quadro responsável de prioridades ambientais que o país já fez suas. Para uma economia aberta, que assenta grande parte do seu desenvolvimento no potenciar das relações económicas externas, torna-se ainda vital poder manter, atuante e regulado, todo o quadro multilateral em que atualmente nos inserimos – quer à escala europeia, quer no plano global. Nada indica que a Europa que aí vem não consiga assegurar, no essencial, o seu atual papel no cenário comercial internacional – e isso, a confirmar-se, serão boas notícias para Portugal, porque sempre ganhamos com o crescimento e a projeção europeia. Nesse mesmo contexto se joga, igualmente, a proteção da nossa diáspora, em que a expressão institucional da Europa tem um papel importante, quer na preservação da livre circulação no seu seio, quer na proteção à escala global de que ela se torna garante. Este “chapéu” de garantias, de que o nosso país beneficia, não parece, contudo, tão estável no quadro da segurança internacional, por virtude das inesperadas tensões que o nosso principal aliado decidiu introduzir no quadro internacional, indutoras de interrogações que a todos preocupam. Não falei da CPLP, da língua e da cultura? Não, porque nada de particularmente novo me parece que, nesses domínios, deva acontecer na quinzena de anos que aí vem.

Somos, nos dias democráticos de hoje, um país marcado por uma serena imagem de previsibilidade na sua atitude internacional, valor cada vez mais importante no mercado político global. Assumimo-nos como um Estado potenciador do diálogo, “produtor” de segurança, construtor de pontes. Daqui a quinze anos, se o futuro nos não trair, esse continuará a ser o lugar de Portugal.

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