Sexta-feira, Setembro 24, 2021

O Futuro de Angola: Cinco áreas de diversificação

Zandre CamposPresidente Executivo da ABO Capital

Ao fim de quase três décadas marcadas por corrupção política e guerra civil, as mudanças em Angola vieram para ficar e o país tem agora um futuro brilhante pela frente. O país operou grandes melhorias a nivel das infraestruturas e das tecnologias e continuou a fortalecer os laços com os seus aliados, beneficiando deste modo o seu comércio internacional e intercontinental. Em 10 anos apenas, Angola tornar-se-á num centro de negócios, num grande exportador e dará cartas em termos de oportunidades de investimento. 

São muitas as iniciativas que tiveram um impacto dirttecto na economia de Angola, como é o caso da revisão da Lei de Investimento Privado de Angola, que apoia os esforços de diversificação do país em termos de oportunidades de emprego e de comércio. No passado, a Lei do Investimento Privado obrigava os investidores estrangeiros a associarem-se a cidadãos angolanos, empresas de capitais públicos ou empresas angolanas que tinha de ter uma participação de, pelo menos, 35% no capital social dessas empresas estrangeiras. A revisão deixou cair esse requisito. A lei exige agora também que os investidores privados empreguem trabalhadores angolanos com oportunidades de formação, salários e condições sociais favoráveis, sem discriminação. Os sectores comerciais prioritários ao abrigo deste projecto de lei incluem alimentação e agricultura; hotelaria, turismo e lazer; construção; infraestruturas de telecomunicações e tecnologias de informação; energia e água; e ensino. Estes sectores contribuem em grande medida para o crescimento dos negócios, da investigação e do comércio, algo que é crucial para Angola tendo em conta que é um dos poucos países africanos com apenas duas grandes fontes de exportações.

Angola reforçou ainda as relações com a China, uma aliança formada há mais de 30 anos e que se tem revelado vantajosa para ambas as partes, vendo assegurada um financiamento de 2 mil milhões de dólares por parte do Banco de Desenvolvimento da China, um passo positivo na implementação de grandes projectos necessários para o país e que atrairá investidores de vários sectores.  Angola deverá contar assim com uma aplicação lenta e controlada destes fundos e fortes benefícios a longo prazo. Outros países, como é o caso de Israel, investiram também no crescimento de Angola, nomeadamente no sector agrícola, um sector crucial para a estratégia de desenvolvimento do país. Estas iniciativas combinadas estão a contribuir para a geração de fortes oportunidades de investimento nos próximos anos. 

Estamos a assistir a uma retoma da produção petrolífera de Angola, que, juntamente com os metais, representam cerca de 90% das exportações totais do continente. Angola é o segundo maior fornecedor de petróleo na África Subsaariana, logo a seguir à Nigéria, mas recuperará o primeiro lugar no futuro próximo. Recentemente, Angola e a Total, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, inauguraram um novo campo petrólífero em mar algo perto de Luanda, no valor de 16 mil milhões de dólares, a maior operação ‘offshore’ lançada em Angola. Em Maio, Angola aprovou o Decreto Presidencial No. 7/18, a primeira lei que visa regulamentar a prospecção, pesquisa, avaliação, desenvolvimento, produção e venda de gás natural em Angola. Apesar dos grandes esforços envidados no sentido de impulsionar a produção de petróleo e de gás em Angola, a diversificação deve assumir premência no plano estratégico do país no sentido de um maior crescimento económico. 

O Presidente João Lourenço tomou posse em Setembro de 2017, e num ano apenas, os cidadãos, empresas e investidores angolanos sentiram o impacto significativo da sua estratégia de reforma que visa combater a corrupção do seu antecessor José Eduardo dos Santos, melhorar as liberdades civis e abrir a economia. Com base nessas melhorias, a diversificação é agora mais viável do que nunca. Minas, turismo, tecnologia, agricultura e a saúde são cinco das áreas nas quais estou convencido que Angola vai continuar a singrar. 

Turismo 

De acordo com o relatório Travel & Tourism Economic Impact 2018 do World Travel and Tourism Council, esta indústria gerou 110.500 empregos directos no sector hoteleiro em Angola no ano passado e onde se incluem hotéis, organizações de viagens, companhias aéreas e outras empresas de serviços de transporte. Este número deverá aumentar para 147.000 até 2028. A melhoria da infraestrutura terá um impacto positivo nas despesas com viagens de lazer, tendo gerado aproximadamente 70% do PIB de viagens e turismo no ano passado, de acordo com o relatório. O maior problema que Angola enfrenta em matéria de turismo é a promoção.  Com mais de 1.600 quilómetros de costa e praias deslumbrantes, está aqui uma grande oportunidade para expandir ainda mais esse sector. Hotéis, transporte e entretenimento não só criam mais emprego como incentivam também viagens internacionais e intercontinentais, o que, em última análise, equivale à geração de receitas. 

Tecnologia

África registou uma das maiores taxas de crescimento nos últimos cinco anos, graças aos desenvolvimentos globais proporcionados pela Internet, tecnologia móvel e a construção do Sistema de Cabo do Atlântico Sul (SACS). O financiamento adequado permitiu desenvolvimentos significativos em termos de conectividade global e de velocidade de transferência de dados. No mês passado, o novo cabo submarino da SACS transportou tráfego directo através do Atlântico Sul, ligando directamente a América do Sul à África Subsaariana pela primeira vez. Este cabo está ligado também ao cabo MONET da Google no Brasil, permitindo assim um acesso mais directo da Internet africana aos Estados Unidos sem passar pela Europa. E são de esperar mais desenvolvimentos neste sector no seu todo, incluindo ao nível da tecnologia móvel. Durante a sua visita à China, o Presidente Lourenço visitou o Centro de Pesquisas Tecnológicas da Huawei, o segundo maior fabricante de telemóveis do mundo e que investiu 60 milhões de dólares em Angola nos últimos 20 anos. O financiamento contínuo de projetos de telecomunicações abrirá ainda mais a nossa economia e poderá ter um impacto profundo nas relações internacionais.

Minas

Angola é o quinto maior produtor mundial de diamantes e estamos em vias de nos situar entre os três primeiros. Em grande parte do mundo, as tendência ao nível dos diamantes estão a diminuir uma vez que as minas estão a ficar demasiado antigas. No entanto, ainda há muito para descobrir em Angola. O presidente Lourenço afirmou que pretende duplicar a produção de diamantes em Angola e atrair mais investimentos ao gerar um maior fluxo de diamantes para esse centro de negociação global que é Antuérpia, conhecido pelo seu compromisso com a transparência. Recentemente, a Lucapa Diamond Company fez uma série de grandes descobertas em África, incluindo um diamante rosa de 46 quilates da mina de Lulo, em Angola, mas grande parte do país ainda está por explorar devido à guerra civil. Há também uma boa oportunidade para explorar minério de ferro e cobre, tendo em conta que Angola faz fronteira com a República Democrática do Congo e a Zâmbia, os principais produtores de cobre de África.

Agricultura

As capacidades agrícolas e de processamento de África ainda estão pouco desenvolvidas, algo que estará ligado à baixa percentagem de importação de maquinaria pesada e equipamento de transporte deste continente, bem como aos padrões das alterações climáticas. No entanto, os avanços tecnológicos, do equipamento motorizado à biotecnologia, como é o caso da modificação de sementes, contribuíram amplamente para o crescimento mundial da agricultura. A fome é um grande problema, não apenas em África, mas também noutros países, como a China e o Médio Oriente. Dada a abundância de terras em Angola e uma vez que tem uma das maiores reservas de água, o objectivo consiste, não só em satisfazer as necessidades de Angola, mas também produzir para o continente. Na frente comercial, espera-se que a Zona de Comércio Livre da África Continental impulsione as economias africanas, harmonizando a liberalização do comércio intercontinental, removendo as tarifas sobre 90% das mercadorias quando esta política entrar em vigor. O presidente Lourenço prometeu colocar a agricultura no centro da sua estratégia de diversificação, uma vez que se trata de um sector com alta intensidade de produção, incentivando também empresários privados a investirem em agropecuária. Por outro lado, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de 130 milhões de dólares para apoiar o governo angolano a desenvolver a agricultura comercial. Os fundos continuarão a contribuir para o aumento da produtividade e para fortalecer os corredores agrícolas que ligam as terras altas do centro do país a Luanda.

Saúde

Entre 2004 e 2014, Angola gastou apenas uma média de 4% do seu PIB em saúde, de acordo com o Banco Mundial. Os investimentos no sector de saúde de Angola são vitais para melhorar as tecnologias da saúde, as infraestruturas e ensino na era do pós-guerra civil.  Organizações como a Sphera Global Health Care, por exemplo, estão a contribuir para esse crescimento, juntando hospitais, clínicas, médicos e tecnologias de alto nível cuidadosamente seleccionados. Com os pacientes a exigirem mais, incluindo melhores profissionais e informações mais completas, as tecnologias de comunicação neste mercado, como a videoconferência, a telemedicina, as plataformas virtuais e as aplicações de saúde móvel ajudam a responder a essas exigências. Além de melhorar a comunicação, essas tecnologias também garantem a prestação de cuidados de saúde de qualidade e reduzem deslocações desnecessárias a hospitais ou clínicas. Estes avanços contínuos irão transformar drasticamente o sistema de saúde de Angola, oferecendo a mais pessoas os cuidados de que necessitam. 

Ensino

Uma das coisas mais importantes que podemos fazer como país e como continente é investir no nosso povo. Para que a Angola continue a crescer e estar na vanguarda do sucesso de África, precisamos de uma força de trabalho instruída e de pessoas com as devidas aptidões nas suas áreas de estudo, produtivas e inovadoras.  Um sistema de ensino primário e secundário sólido gera oportunidades económicas. O Presidente Lourenço está a trabalhar em prol do ensino em inglês, bastante importante na sociedade actual, onde grande parte do mundo tem o inglês como primeira ou segunda língua. Mais escolas, mais programas e mais currículos em língua estrangeira são as respostas a esta demanda de excelência. 

Com tudo isto em mente, Angola tornar-se-á muito importante para África. A prosperidade e as contribuições sociais de Angola farão de África o lugar certo. E com a dedicação suplementar do Presidente Lourenço no sentido da diversificação da economia, fortalecimento dos laços com os aliados e as fortes oportunidades de investimento, Angola terá tudo para se tornar num actor chave nas áreas da agricultura, tecnologia, cuidados de saúde e turismo. Ao investir recursos nestes sectores, Angola passará a ser um importante centro exportador e de negócios, embora continue a afectar o tempo e os fundos necessários para acompanhar a oferta e a procura das suas actuais exportações e continue a diversificar-se.

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