Terça-feira, Agosto 16, 2022

Eunice Muñoz: “A vida é uma coisa maravilhosa”

A. Ribeiro dos Santos

Nascida no seio de uma família de artistas, o palco era o destino inevitável de Eunice Muñoz. O que ninguém podia prever é que a menina de 5 anos que deu os primeiros passos em cima das tábuas do teatro desmontável dos pais, a Trupe Carmo, viria a ser uma das grandes actrizes portuguesas de sempre e, certamente, a maior do século XX. Em 1941, com apenas 13 anos, estreou-se no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, numa produção da Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, que, reconhecendo ali um talento prodigioso, rapidamente arranjou forma de a integrar no grupo. Quando, aos 15, interpretou a jovem Maria de “Frei Luís de Sousa”, de Garrett, a sua reputação ficou selada, tanto para o público como para a crítica.

Desses tempos iniciais, formativos, Eunice Muñoz disse a Vítor Pavão dos Santos – numa longa entrevista publicada pela editora Bicho do Mato, no livro “Acima de Tudo Amar a Vida” – que Amélia Rey Colaço e mestre Ribeirinho foram as figuras que mais a marcaram, pelo que tinham para lhe ensinar. Ainda assim, e mesmo já a trabalhar como profissional, foi para a Escola de Teatro do Conservatório Nacional, de onde saiu com a classificação final de 18 valores.

O cinema chega a seguir. Em 1946, aparece pela primeira vez no grande écrã, no filme “Camões”, de Leitão de Barros. Ao longo da carreira fará mais de uma dezena de incursões na sétima arte, mas o filme de estreia foi desde logo um marco, valendo-lhe o prémio de melhor actriz cinematográfica do ano.

Os aplausos chegavam abundantemente, de todos os lados, mas a vida profissional não foi isenta de percalços. Na década de 50, decidida a experimentar outra via, Eunice abandonou o teatro, estudou secretariado, trabalhou numa fábrica. Quatro anos de que diz nunca se ter arrependido, já que lhe permitiram conhecer “outra gente”, que não, apenas, os colegas de representação. A conselho do marido, regressa para um triunfo absoluto com “Joana D’Arc”, em 1955, no Teatro Avenida. É um momento de viragem. “Só então comecei a levar a profissão a sério”, disse, na mesma entrevista.

E chegou a televisão. Primeiro o teatro televisivo e muitos anos depois as novelas, que ajudaram a expandir ainda mais a popularidade que Eunice já tinha granjeado junto do público. Na extensa carreira, fez de tudo: da alta comédia ao drama, passando pela tragédia e pelo boulevard, género que adorava e dizia ser “o mais difícil de todos”. Nunca escolheu nenhuma peça – os papéis iam ter com ela e Eunice sabia fazê-los brilhar. Apenas uma manifestou interesse em fazer: a “Sarah Bernhardt”, que tinha visto em Paris e pela qual se apaixonou.

Casou três vezes, teve seis filhos. No final da vida, cumulada de prémios e de distinções, deixou o País em suspenso quando sofreu uma queda no Teatro D. Maria II, durante os ensaios de uma peça de Tennessee Williams. Partiu os pulsos, magoou a cervical. No ano seguinte, foi-lhe diagnosticado um tumor na tiróide, que lhe roubou parcialmente um dos maiores atributos: a voz. Mesmo assim, continuou a trabalhar e num momento enternecedor protagonizou, ao lado da neta e também actriz Lídia Muñoz, uma peça sem palavras, “A Margem do Tempo”.

“Se tiver de partir, partirei”, disse, quase no fim da entrevista a Vítor Pavão dos Santos. “Tenho lá em cima muitos colegas, posso fazer uma companhia fantástica, e pronto! E parto a pensar e a sentir que a vida é uma coisa maravilhosa”. Eunice deixou-nos no dia 15 de Abril deste ano. Comovido, o País assinalou um dia de luto nacional em memória da diva.

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