Quarta-feira, Março 3, 2021

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Estratégia de Captação de IDE: As nossas vantagens num novo contexto de recuperação económica e social

Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização

Portugal, até março de 2020, apresentava, pela primeira vez desde o advento do Euro, uma trajetória de crescimento acima da média europeia com um aumento pronunciado das exportações, fruto de políticas públicas e empresariais ancoradas na qualidade, na diferenciação, no ‘design’, na flexibilidade produtiva e na incorporação de tecnologia nos processos de produção e comercialização. Um novo posicionamento construído durante as últimas décadas, que nos permitiu ganhar quota nos mercados internacionais. Contudo, é importante sublinhá-lo, este percurso do setor exportador não é independente dos resultados da política de atração de investimento estrangeiro. Ele é, em grande medida, resultado da captação de IDE.

A capacidade de colocar Portugal no radar de investidores internacionais, dando destaque às nossas vantagens comparativas, tem sido um trabalho contínuo de atores públicos e privados, promovendo um ciclo virtuoso, onde capital estrangeiro (e não só), olha para o nosso território como uma base de investimento para satisfazer a procura regional ou inter-regional, num quadro de inserção das atividades aqui desenvolvidas nas cadeias de valor globais. Este é o caminho que temos prosseguido; este é, em larga medida, uma opção política consensual num espectro alargado do nosso sistema partidário (e parlamentar).

De forma sintética, devemos dar destaque aos valores de contratualização de investimento em 2019 (pela AICEP), ano em que voltámos a bater ‘records’, 1 172 Milhões de Euros, que, no conjunto e em atividade cruzeiro, devem levar à criação de 7 245 postos de trabalho. Estamos a captar mais IDE com menor risco, diversificando as geografias de origem do capital, bem como a tipologia de investimento (indústria e serviços).

Mesmo em 2020, neste contexto pandémico, Portugal continuou a angariar investimento estrangeiro. De forma ilustrativa: 24 novos projetos de capital estrangeiro escolheram Portugal para se instalar desde janeiro, de 12 geografias diferentes, aproximadamente mais de 415 milhões de euros de investimento, com a criação de mais de 1.950 postos de trabalho. Estão neste momento em acompanhamento mais 74 projetos, em diversas fases do processo de decisão, oriundos de 23 países de 4 continentes, que no conjunto se estima que criem mais de 10.500 postos de trabalho. Continuamos no radar mesmo para aqueles – e isso é importante – que já olham para além da pandemia.

O trabalho realizado durante o ano 2020 – que levou Portugal a ser considerada a segunda melhor “Country Brand” europeia – permitiu robustecer os elementos centrais da estratégia que temos vindo a prosseguir, e que levou como sabemos, no passado recente, a que fossemos escolhidos por operadores económicos de todos os continentes, num ‘stock’ de IDE que se aproximou dos 70% do PIB em 2019 e a um valor ‘record’ de exportações de 93,5 mil milhões de euros (43,9% do PIB).

Uma estratégia de captação de IDE tem hoje, olhando para o futuro próximo, dois elementos centrais: um primeiro, de curto prazo, comunicando abertura e resiliência face à pandemia e, em grande medida, mostrando que as vantagens comparativas do território e das nossas empresas permanecem intactas; e, segundo, que as decisões que tomamos permitem colocar Portugal como um destino atrativo para o reforço das cadeias de valor que servem os mercados da União Europeia.

O conjunto de elementos que nos tem levado ao êxito – o talento, a segurança de pessoas e ativos, a localização de conexão inter-regional (entre continentes), para além dos recursos físicos e imateriais do nosso território que nos permitem desenvolver de forma competitiva diferentes negócios – permanece como uma vantagem para preparar a recuperação; e, a opção política de apoiar as transições digital e energética, num quadro de reforço da autonomia estratégica (e da resiliência) da Europa, conduz-nos a um novo contexto onde disputaremos investimento.

É compreendendo este contexto que a estratégia de captação de investimento para a próxima década, inserida no “Programa Internacionalizar 2030” do XXII Governo Constitucional, obrigou à análise do papel que as atividades económicas desenvolvidas no nosso território podem/devem ter no redesenho das cadeias de valor globais, na sua (possível) regionalização e de como a disputa planetária por recursos e talento, nos vai permitir construir as melhores condições para criar riqueza, gerando oportunidades de trabalho (de vida) para os portugueses. É aqui nos devemos centrar para continuar a fazer crescer o IDE, mas também as exportações nacionais.

Em 2021 temos um duplo desafio – e que muito influenciará os resultados da recuperação económica: combater a pandemia e dar prioridade ao processo de vacinação, como condição para uma recuperação económica mais robusta; e, lançar os instrumentos da “bazuca” europeia, que abrirão novas oportunidades, num quadro de revisão das políticas industrial, comercial e de concorrência da União Europeia. É neste contexto que devemos continuar a colocar a atração de IDE, num país onde escasseia o capital, como um elemento central para a recuperação sustentável da economia nacional.

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