Terça-feira, Abril 13, 2021

Entrevista a Eduardo Jesus

“Se todos tivessem tomado as medidas que a Madeira tomou no combate à pandemia, o Mundo estaria bem melhor” – Eduardo Jesus, Secretário Regional de Turismo da Madeira

 

Sofia Rainho | Em entrevista à PRÉMIO, Eduardo Jesus sublinha que “pela Europa fora são cada vez mais os países que apontam a Madeira como um exemplo a seguir”. O secretário regional do Turismo da Madeira congratula-se com as medidas pioneiras que a Região adoptou no combate à pandemia e que lhe permitiram afirmar-se como um destino seguro, desde logo o controlo apertado nas chegadas aos aeroportos madeirenses, a exigência de realização de testes e a obrigatoriedade de uso de máscaras ao ar livre.

Eduardo Jesus revela que nos três meses em que a actividade do turismo esteve reduzida a zero houve uma contração de 6,6% do PIB regional e admite que “vão ser precisos muitos anos” para a economia recuperar. Mas acredita que voltaremos à normalidade depois de encontrada a vacina para a COVID 19.

E foi com satisfação que o secretário regional viu crescer o turismo nacional neste Verão na Madeira, tendo chegado a ultrapassar os mercados alemão e britânico. “Quando reabrimos em Julho, mais de 46% das dormidas no alojamento turístico da região da Madeira era português” adianta.

Eduardo Jesus reconhece que uma segunda vaga “seria fatal” e avisa que “esta é uma guerra sem tréguas que requer o forte empenho de todos” e “não há margem para falhar”.

Há quem diga que o mundo não voltará a ser o mesmo depois da covid-19. Concorda? E Portugal e a Madeira?

Concordo e, naturalmente, Portugal e a Madeira não serão excepção. Acredito que voltaremos à normalidade, sobretudo depois de encontrada a vacina e do acesso da população à mesma. No entanto, as debilidades que a pandemia infligiu na economia global requerem muitos anos até que as mesmas sejam vencidas. O Turismo foi o sector mais afectado e é daqueles que tem maior potencial de recuperação. Situação que só será possível depois de recuperada a confiança que se perdeu com a ameaça da contaminação. Acredito que depois de vencido o medo e do acreditar na segurança para viajar, que os fluxos turísticos tenderão a voltar à normalidade.

Qual foi o impacto em termos globais da pandemia na economia Regional?

O impacto da pandemia que travou fortemente a economia foi enorme, com a actividade a ficar reduzida quase a zero numa primeira fase e a recuperar depois aos poucos em função da evolução dos mercados emissores, uma vez que a Região Autónoma da Madeira se constituiu como verdadeiro destino seguro.

Como foi afectado o sector do turismo em concreto? Qual a dimensão dos prejuízos?

O Turismo da Madeira representa mais de 26% do PIB regional e é responsável por mais de 20.000 postos de trabalho.

Em cada mês que a actividade esteve reduzida a zero, o PIB da Região Autónoma da Madeira contraiu cerca de 2,2%, com consequências para as empresas, para colaboradores das mesmas e em toda a dinâmica directa e indirecta que o sector produz. Este valor percentual traduziu-se em cerca de 110 milhões de euros mensalmente. Três meses de inactividade geram uma quebra directa no PIB Regional de mais de 6,6 por cento.

Porém, no início deste ano, tínhamos conseguido inverter a tendência do ano passado e regressamos aos crescimentos no alojamento turístico na Região. Em Fevereiro, tivemos 112,5 mil hóspedes e 586,8 dormidas, o que traduz uma evolução positiva de 7,8% e de 8,4%, respectivamente, em comparação com o mês homólogo do ano anterior. Nos dois primeiros meses de 2020, o acumulado foi de 211,3 mil hóspedes e de 1.117,4 mil dormidas, com um crescimento médio de 5,3% e de 4,6%, respectivamente.

E comparativamente com o turismo no continente, o prejuízo na Madeira foi idêntico ou superior?

O continente tem várias regiões de turismo. Admito que tenham tido os mesmos problemas que a Madeira, sendo que o Algarve, com uma grande carga sazonal, foi o mais penalizado do território continental português. Isto apesar de beneficiar da particularidade do mercado interno ter mais facilidade na deslocação, sem necessidade das pessoas recorrerem ao meio aéreo para chegarem ao sul do país. A Região do Centro tem razões para ter registado um bom desempenho no Verão. Foi um destino muito procurado pelo mercado interno. A Região Autónoma da Madeira, pese embora se tenha afirmado como Destino Seguro – sendo a única que registou um efectivo domínio sobre a pandemia desde o início, a primeira a desenvolver um Manual de Boas Práticas para o Sector do Turismo e a única a optar pela certificação internacional contra os risco biológicos – tem a desvantagem da necessidade do transporte aéreo. Na afirmação como destino seguro contou muito a exemplar acção que foi montada nos aeroportos da Madeira e do Porto Santo para fazer a triagem e a realização dos testes à chegada. Fizemo-lo porque as autoridades nacionais e europeias se demitiram da orientação de um procedimento comum que deveria ter sido, sem qualquer margem para dúvida, a realização obrigatória de teste antes de qualquer viagem. Se assim tivesse acontecido, o mundo estaria diferente para bem melhor.

Portugal ficou mais exposto ao sector e às actividades associadas ao Turismo nos últimos anos, mas a Madeira já tem décadas de investimento no sector. Não está, por isso, também mais vulnerável às consequências económicas e sociais da pandemia?

A Madeira tem mais de 200 anos de história ao serviço do Turismo. Tem sido este o sector que nos tem permitido afirmação externa, e que tem dado um grande contributo para a economia e notoriedade internacional. Nenhum como este contribuiu para o desenvolvimento da Região. Nós não temos turismo a mais, os outros sectores é que devem seguir o exemplo deste e ganhar outro peso, maior expressão. Nunca à custa do Turismo, mas por mérito próprio. Considero um profundo erro quando se entende que o país está numa dependência excessiva do Turismo. Isso é uma anormalidade, uma consideração impensada e imatura.

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E Porto Santo, onde a oferta turística é menor e mais concentrada, o problema não é de maior gravidade ainda?

O Porto Santo beneficiou este ano fortemente da aposta do mercado nacional, com uma operação de Verão que envolveu 4 importantes operadores turísticos. Foi uma realidade que resultou de um trabalho conjunto que iniciamos muito antes da pandemia com aqueles parceiros da Região, e que resultou na concretização da operação que transportou cerca de três mil e quinhentos passageiros até à ilha do Porto Santo.

Além disso, o mercado madeirense também foi expressivo no Porto Santo. É verdade que, tradicionalmente, os madeirenses procuram muito a “Ilha Dourada” para as suas férias de Verão, mas este ano, com o receio ou impedimento de viajarem para outros destinos, optaram mais pela ilha vizinha. Naturalmente que o Inverno será mais exigente na dependência de operações que só se concretizarão se a situação epidemiológica dos países de origem evoluir positivamente. Existe uma forte pressão sazonal na época que agora se inicia.

Que balanço faz desde que se registou a reabertura do Turismo na região, em Julho?

O movimento de viajantes nos aeroportos da Madeira e do Porto Santo acompanham a tendência crescente de frequências das várias companhias de aviação. De uma média semanal superior a 60, em Julho, num só sentido, passamos para 135 voos por semana, em Agosto. A evolução para Setembro foi na média dos 142 por semana.

Com a chegada de cada vez mais aviões, as ocupações nas unidades hoteleiras da Madeira conheceram também um aumento.

Em meados de Setembro, aquando da realização da Festa da Flor, a ocupação era na ordem dos 33%, referentes às cerca de 68% das unidades hoteleiras abertas.

Por isso, atendendo à conjuntura em que nos encontramos, aos constrangimentos, à situação nos mercados de origem da Madeira, com algumas dificuldades de controlo da pandemia, ter esta ocupação não é um mau desempenho. É o possível e é o resultado de muito esforço de todos. O sector esteve bem, a promoção trabalhou sem parar, o Governo Regional esteve sempre muito activo e conseguiu alcançar-se aquele resultado.

Fotografia: André Carvalho

Quantos turistas já passaram pela ilha desde então?

Em Julho, desembarcaram cerca de 31 mil passageiros na Madeira. Em Agosto esse número duplicou ao passar para cerca de 59 mil passageiros. E, em Setembro, chegaram cerca de 53 mil passageiros oriundos de vários países europeus e de cidades portuguesas.

Em relação ao Aeroporto do Porto Santo, em Julho, desembarcaram cerca de 3 mil passageiros, aumentando para cerca de 5.500 mil desembarcados em Agosto. E, em Setembro, o número chegou aos 4.000.

É relevante o aumento do número de passageiros nos aeroportos da Madeira e constitui um estímulo para continuarmos a trabalhar em prol do sector, das pessoas e da economia da ilha.

Foram em maior número os turistas estrangeiros ou os turistas oriundos do continente que visitaram a Madeira?

Os últimos dados da Direção Regional de Estatísticas da Madeira, referentes ao mês de Julho, quando reabrimos ao Turismo, evidenciam um forte pendor do mercado nacional, com mais de 46% das dormidas no alojamento turístico da Região Autónoma da Madeira. O segundo maior mercado foi o alemão, com 23,3%. O inglês demorou mais a retomar e, por isso, aquele que é um dos três maiores mercados emissores para a Madeira, ficou-se pelos 4,1%, atrás da França, com 5,8% das dormidas. Hoje a realidade é diferente. O mercado nacional já não lidera, encontrando-se à frente, em número de visitantes, a Alemanha e o Reino Unido.

Houve, então, um aumento significativo do turismo nacional (mais turistas portugueses) na Madeira neste Verão.

O mercado nacional tem uma ligação umbilical com a Madeira e é muito importante para a Região. Há muitos anos que escolhe o destino Madeira para as suas férias. Este ano, em particular, houve uma maior tendência para os mercados de proximidade. Mas saliento o facto de que já tínhamos começado a trabalhar com o mercado português muito antes de aparecer a pandemia, ao sermos indicados como o “Destino Preferido” em 2020 pela Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo. Constituiu uma grande vantagem que nos permitiu estar ainda mais junto dos operadores nacionais e construir uma série de operações que já estavam consolidadas para o Verão deste ano e que foram retomadas ou reformuladas.

Já no decorrer do processo de reabertura, a política seguida pelo Governo Regional foi determinante para que se atingisse a performance conseguida no mercado nacional. A Região Autónoma da Madeira contratou vários laboratórios que facultaram a possibilidade da realização dos testes – tipo PCR – a qualquer pessoa que tivesse em sua posse um bilhete para a Região. Essa medida que envolve um expressivo investimento do Orçamento Regional, permitiu outra confiança que motivou a sustentação das operações montadas.

Quais são as principais nacionalidades dos turistas que habitualmente visitam a Madeira?

São os ingleses, os alemães e os portugueses que mais visitam a Madeira.

Qual é a imagem de marca do Turismo na Madeira?

A simbiose perfeita entre a natureza (montanha e mar) e a cultura.

O que procuram aqueles que escolhem a Madeira como destino de férias? O que de melhor tem a Região da Madeira para oferecer?

Tudo começa com a arte de bem receber dos madeirenses e portossantenses, passando pela sua cultura e o degustar das suas maravilhosas iguarias – aliadas a uma gastronomia tradicional que, ao mesmo tempo, acompanha os tempos actuais – e ainda as espectaculares paisagens que o arquipélago tem para oferecer.

Quem visita a Madeira leva a alma cheia, querendo sempre voltar a uma ilha repleta de história e paisagens de cortar a respiração, de experiências únicas, num ambiente idílico de cor, beleza e tranquilidade.

E, para os mais activos, tem igualmente muito para oferecer, com actividades que põem à prova os mais aventureiros, criando situações de pura adrenalina, mas sempre com segurança. Somos um destino de experiências, um destino activo.

A Madeira e o Porto Santo, no conjunto, permitem, a quem nos visita, o contacto com realidades diferentes e únicas num só território e com uma proximidade de 1,5 horas de voo da capital de Portugal.

Entrevista Out 20 3

A par do Carro de cestos do Monte, quais são os outros ‘ex-líbris’ da Madeira?

Temos muitos como a Floresta Laurissilva, as Levadas, os Eventos que se realizam durante todo o ano, a oferta cultural, o Vinho Madeira, a Gastronomia, o Bordado Madeira, a Zona Velha, os Parques e Jardins, o Mercado dos Lavradores, os Deportos radicais, como o canyoning, o rapel e mountain bike, os Carros de cestos, a Observação de cetáceos, as Casas de Santana, as flores e a oferta hoteleira de qualidade.

Qual é o ponto de situação do ‘lay-off’ nas empresas de turismo da Madeira?

O ‘lay-off’ simplificado foi muito adequado à realidade que vivemos. A decisão da sua alteração foi incorrecta para o sector, sabendo que será dos últimos a ter oportunidade de inverter a tendência. As recentes notícias indicam que o Governo da República recuou e percebeu essa mesma circunstância, o que significa que as empresas terão, novamente, um apoio adequado.

Defendeu a necessidade de prolongar os apoios ao sector da hotelaria para não haver desemprego em massa. Isso está a acontecer?

Sim, a Região foi a primeira do país a considerar apoios a fundo perdido para o sector, na condição da manutenção dos postos de trabalho. Sempre defendemos que uma ajuda nunca pode passar por substituir receita por dívida. Isso será o fim, a prazo, de uma economia. Aquilo que o sector precisa é de apoio a fundo perdido. Uma ajuda que corresponda à singular realidade que vivemos. Ou ajudamos as empresas a manterem os seus postos de trabalho ou gastaremos mais em subsídio de desemprego, com a agravante da destruição do tecido empresarial e do desaparecimento da dinâmica económica que o mesmo gera. Sucedem-se esses apoios e estão a ser preparados outros para permitir minimizar o impacto da pandemia nos longos meses que temos pela frente.

Como responde às acusações de insensibilidade para com pessoas despedidas e outras em ‘lay off’, feitas pelo líder socialista, Paulo Cafôfo?

O trabalho desenvolvido pelo Governo Regional é reconhecido a nível nacional e tido como referência a nível internacional. Naturalmente que esse reconhecimento incomoda aqueles que nunca estão do lado dos madeirenses e dos portossantenses. Toda a população da Região já se habituou a um comportamento do partido socialista de colagem ao governo da República para prejudicar a Região e assim procurar tirar dividendos. É um truque antigo, batido e vulgar. A resposta foi dada pela secretária de Estado do Turismo que, na sua intervenção no congresso do PS Madeira, elogiou o Governo Regional e afirmou que a Madeira constitui um exemplo para o todo nacional.

Quais são as ilhas que são as principais concorrentes da Madeira? As Canárias, as Baleares ou outras mais distantes como as da Polinésia Francesa?

Na actualidade, a concorrência opera-se de forma global. Já não existem destinos concorrentes directos. Tanto concorremos com um que esteja aqui mais perto como com outro longínquo, por força da facilidade de transporte, da comunicação que usa, dos atributos que se relevam, das oportunidades comerciais que se criam. Se atendermos à dependência dos operadores turísticos, essa análise pode ser mais circunscrita considerando as Canárias, Grécia, Croácia, Malta, Ilhas Baleares, entre outros.

Em que níveis está actualmente a ocupação hoteleira? Qual a percentagem de unidades hoteleiras a funcionar neste momento?

Neste momento estamos com cerca de 68% das unidades hoteleiras abertas sendo que, nestas, a ocupação é de aproximadamente 30%.

Já se registaram muitos despedimentos na sequência da pandemia?

Temos conhecimento da não renovação de contratos de trabalho que terminaram durante este período pandémico e de um processo de despedimento colectivo levado a efeito pelo Belmond Reid’s Hotel que envolve 63 pessoas.

Quantos voos chegam actualmente por semana à ilha da Madeira? Começaram por ser 40 na reabertura…

No mês de Setembro, a média por semana rondou 142 voos, num único sentido. Em Agosto a média foi de 135 voos por semana e, em Julho, a média semanal foi superior a 60.

Fotografia: André Carvalho

Os números da pandemia nunca foram tão graves na Madeira como foram no continente. O que mais podia ou devia ter sido feito para que a Madeira não fosse tão prejudicada em termos internacionais?

Fomos interventivos desde a primeira hora para estarmos na linha da frente no momento da reabertura dos mercados. Existiram os cuidados do Governo Regional com a saúde pública, com os resultados positivos que todos reconhecem. E, paralelamente, contamos com os apoios criados e com os projectos que desenvolvemos como a criação do Manual de Boas Práticas e a Certificação do destino.

Juntando a tudo isto os contactos permanentes com o sector, nomeadamente com os operadores turísticos, com as companhias de aviação, e com organismos como o Turismo de Portugal, e o trabalho persistente junto de várias entidades governativas e diplomáticas nacionais e internacionais, assim como junto de diversas instituições para reforçar e atalhar caminhos para a retoma do turismo na Região. Iniciámos ainda durante o período pandémico um conjunto de insistentes comunicações que vieram a definir este percurso. Hoje totalizamos mais de cem comunicações feitas da nossa parte que clarificaram a nossa situação epidemiológica, defendendo, sempre, que é a realidade regional que deve ser atendida, tanto mais que a grande maioria das operações se faz através de voos directos, o que minimiza o risco de contágio, por não haver escalas nem troca de aparelhos.

Acha que os turistas hoje já olham para a Madeira como um destino seguro?

Não tenho a menor dúvida disso. Além dos turistas procurarem o nosso destino para as suas férias pela segurança secular que nos reconhecem, essa escolha foi reforçada por conhecerem o controlo sanitário que empreendemos. Recebemos reconhecimento dos que aqui chegam logo a começar pela recepção no Aeroporto da Madeira onde temos um controlo exemplar na forma como lidamos com os passageiros que aterram.

O turismo britânico é um dos principais clientes da região da Madeira. Mas este Verão a Madeira ficou de fora. Quais são as suas expectativas após a introdução dos corredores de viagens regionais, que permitem fazer a distinção entre a Madeira ou os Açores e Portugal continental?

A Madeira ficou de fora numa primeira fase, como o todo nacional. Apesar do destino ser reconhecido como destino seguro, a exigência de quarentena era igual a todo o território nacional.

Posteriormente, o Reino Unido abriu os corredores aéreos a Portugal. No entanto, foi desde cedo que demonstramos ao Governo britânico que a nossa realidade epidemiológica era distinta do país pelo que deveríamos ter um tratamento diferenciado. Felizmente, fez-se justiça, embora tardiamente.

O princípio que defendemos, da necessidade de haver um tratamento diferenciado entre regiões de um mesmo país, acabou  por ser reconhecido pelo País de Gales e pela Escócia, que, apesar de exigir quarentena do território continental, criou uma excepção para a Madeira, sendo que os passageiros não têm de fazer quarentena quando regressam.

Eduardo Jesus 3

Considera acertada ou arriscada a estratégia das autoridades de saúde regionais de apostar em medidas mais drásticas como o uso obrigatório de máscara mesmo ao ar livre?

Consideramos, evidentemente, que se trata de uma medida acertada pois temos de preservar a herança de segurança que construímos. Há que proteger a nossa e a saúde dos outros. A afirmação da Região como destino seguro só é possível porque houve a coragem de implementar medidas. Desde a primeira hora, a atitude do nosso Presidente foi determinante. Nunca existiram dúvidas nem hesitações e isso foi fulcral. Se no princípio surgiram vozes de descontentamento face ao uso obrigatório das máscaras, agora só se ouve a defesa da medida. Os madeirenses e os portossantenses constituem um exemplo no combate à pandemia, respeitando as orientações da Autoridade de Saúde Regional.

A Madeira foi a primeira região a introduzir o uso obrigatório de máscaras nos espaços públicos. Esta é uma garantia adicional de maior segurança ou pode ser dissuasora para alguns turistas?

O cuidado de Saúde Pública que o Governo Regional teve desde a primeira hora com a pandemia levou a que tenhamos os poucos casos conhecidos de pessoas contaminadas com a Covid-19.

Essa questão de o uso de máscara ser dissuasor não se coloca porque os turistas não deixam de vir para um destino que determina o uso obrigatório de máscaras. Antes pelo contrário, acaba por ser mais um contributo para evidenciar maior segurança no destino. Hoje recebemos estações de televisão de diferentes países que cá vêm para cobrir toda a operação de rastreio e realização de testes nos aeroportos. Na semana passada, Canárias exigia a implementação de um modelo igual ao nosso. Pela Europa fora são, cada vez mais, os países que se referem a este modelo como exemplar. A Madeira e o Porto Santo estão a dar o bom exemplo, mas isso não chega. Se não existirem mais regiões ou países a fazê-lo, tudo pode ser em vão porque estamos na dependência directa do estado epidemiológico dos mercados de origem.

Não sente que, depois de uma primeira reacção, até de medo, que levou ao confinamento, está a voltar a haver alguma bonomia e alguma menor sensibilidade para as medidas de prevenção?

No caso concreto da Madeira isso não acontece. Nunca baixamos a guarda para segurança das pessoas que aqui residem, dos que trabalham no sector do Turismo e as suas famílias e dos que viajam para cá.

Uma segunda vaga pode ser fatal para a economia internacional, nacional e regional?

Evidentemente que seria. Tudo tenderá a ser diferente. Já aprendemos muito com o primeiro episódio desta pandemia. Hoje temos um histórico, mesmo que recente, que já nos dá outra leitura dos acontecimentos. Aquilo que desejo é que haja acção, determinação, decisão e vontade de agir no combate à pandemia. A Região tem sido um bom exemplo, mas outras regiões não. Não se pode combater a pandemia com excepções, com lógicas do politicamente correto, com a tentativa de agradar a todos. Este não é um jogo político-partidário, não é uma discussão parlamentar por um interesse específico, nem um confronto eleitoral tendo em vista maiorias negativas. Esta é uma guerra sem tréguas que requer forte empenho de todos. Não há margem para falhar.

Disse recentemente que esperava que a Festa da Flor fosse um momento de viragem na Madeira. Isso está a acontecer?

A Festa da Flor e do Vinho Madeira de 2020 constituiu um marco importante no Turismo da região e na vida dos madeirenses. Quisemos que assim fosse e por isso adiamos a sua realização que, normalmente, acontece em Maio. O fundamental é encontrar alternativa, inovar e adaptar. Nunca desistir, nem nunca dar espaço à pandemia.

Apesar de estarmos sempre condicionados pelos mercados de origem e das suas realidades epidemiológicas, consideramos que este evento foi marcante. Foi um momento de libertação, de concretização e de manifestação de grande responsabilidade por todos os intervenientes.

A retoma já está a ser alcançada com um nível satisfatório?

Os números, se compararmos com os anos anteriores, não são, evidentemente, os desejados. Mas são crescentes e mostram que o destino está a saber passar uma mensagem de segurança e a acolher bem os viajantes. Temos unidades com excelente desempenho, mas não podemos esquecer que parte do sector continua encerrado. A ausência dos níveis de mercado a que estamos habituados é determinante na vida de muitos empresários dos vários ramos do sector do turismo. Existem dificuldades e é por isso mesmo que o Governo tem sempre agido prontamente na implementação das medidas mais adequadas.

Tem alguma perspectiva sobre se, como e quando será possível recuperar os indicadores que tínhamos no Turismo antes do primeiro surto?

Ninguém sabe. Agora posso garantir que trabalhamos todos os dias para que essa realidade aconteça o mais rapidamente possível. Se tudo dependesse da Madeira e do Porto Santo, diria que seria já. A nossa evolução não é outra porque, como destino turístico que somos, estamos na dependência da evolução dos mercados de origem.

Crê que esta pandemia pode levar os principais decisores – políticos e económicos – a reorientar as suas estratégias, desviando investimentos do Turismo para outras actividades ou sectores menos condicionados por fenómenos como o novo coronavírus?

O sector do turismo contribui com 26% do PIB regional. Não se trata de um sector que se possa colocar a possibilidade de deixar de ser prioritário. Ninguém, de bom juízo, o faria. A estratégia passa pelo apoio aos vários sectores que evidenciam potencial de competitividade internacional. Outros podem e devem crescer em função das oportunidades e a sua afirmação será um contributo para a economia regional. Conforme referi, nunca à custa do Turismo, mas num processo de crescimento próprio e que no conjunto resulte numa economia mais forte e robusta.

O mundo demorou tempo de mais a reagir ao novo coronavírus?

Tenho de admitir que sim. Não se valorizou muito o problema que surgiu na cidade de Wuhan, na China.

Na Madeira, tivemos uma preocupação atempada, elegendo a nossa porta de entrada como o principal ponto de controlo e preparamo-nos para diminuir o seu impacto, o que acabou por acontecer com sucesso.

Como e por onde pode crescer o turismo na Madeira? Passa por uma aposta em que tipo de actividades?

Estamos no caminho certo para crescermos. A Região tem um desempenho notável no controlo da Covid-19, naturalmente que depende da procura dos mercados externos e das realidades a nível de pandemia de cada um deles, assim como do desenvolvimento de Portugal igualmente neste domínio. A nossa estratégia está definida, os nossos activos estão intactos, as nossas vantagens competitivas resultam acrescidas. Temos tudo para crescer. Aguardamos que o mercado internacional se encontre em condições para corresponder à nossa oferta.

Que trabalho tem sido feito com os operadores turísticos?

Além dos cuidados que o Governo Regional teve desde a primeira hora a nível da saúde pública, dos apoios que foram criados, e dos projectos que desenvolvemos como a criação do Manual de Boas Práticas e a Certificação do destino, fomos interventivos junto dos mercados emissores para que, quando chegasse o momento, estivéssemos na linha da frente.

O trabalho junto dos operadores turísticos tem sido intenso e permanente. Foi determinante a nossa disponibilidade, deste a primeira hora, para informar, esclarecer, apoiar as operações e acompanhar toda a evolução. A realidade actual é nova, nada tem a ver com aquilo a que estávamos habituados. O risco tomou conta de qualquer operação e minimizá-lo tem sido a prioridade da Região e dos operadores envolvidos.

A juntar aos contactos permanentes com o sector, nomeadamente com os operadores turísticos, o trabalho tem sido diário com as companhias de aviação e com organismos como o Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado do Turismo, com que temos mantido um nível de entendimento exemplar.

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Qual tem sido o ‘feedback’ da aposta no mercado nórdico?

O mercado nórdico está fortemente condicionado pelas restrições impostas pelo próprio. Existe a tendência de não considerar a situação epidemiológica regional, preferindo-se considerar a Região integrada no espaço continental. Essa realidade tem-nos penalizado fortemente e fez estragos objectivos em operações que são importantes para nós e, em especial para o Porto Santo. A nossa insistência é grande para que se faça justiça e se reconheça o estado em que nos encontramos. Enquanto isso não acontece, perdemos todos, perde a Região e perde o país. Por esta razão, a nossa insistência junto do ministério dos negócios estrangeiros é permanente.

Quais são os principais objectivos da linha de apoio de 20 milhões de euros ao sector empresarial, lançada recentemente? E qual é o balanço até agora?

A nova linha de crédito “Apoiar Madeira 2020” é mais um instrumento de apoio às empresas afectadas pela Covid-19, que possibilita às empresas da Região candidatarem-se a operações de financiamento com vista à cobertura de despesas de tesouraria e manutenção dos postos de trabalho.

A nova linha de crédito, no montante de 20 milhões de euros, vem apoiar pequenas, médias e grandes empresas e as condições de acesso são, em quase tudo, semelhantes às da linha Investe RAM Covid-19.

Nesta linha, que surge depois de uma primeira com a dotação de 100 milhões e que já contempla apoio a fundo perdido, não será exigido às empresas, nem pelas instituições bancárias nem pela SGM, qualquer tipo de aval ou garantia complementar pessoal ou patrimonial. Por outro lado, todas as empresas, sejam pequenas, médias ou grandes poderão obter financiamento até ao limite de 800 mil euros.

Além disso, o valor do empréstimo poderá ser convertido em fundo perdido caso as empresas comprovem uma quebra de 40% no volume de facturação, entre os meses de Março e Maio, na Madeira, e de 15% para as empresas com sede na ilha do Porto Santo.

Para converter o montante do financiamento em valor não reembolsável, as empresas terão ainda de comprovar a manutenção dos postos de trabalho permanentes ao fim do período de carência de 18 meses.

Trata-se, naturalmente, de um reforço significativo dos apoios ao tecido empresarial. A tónica é a mesma da linha anterior: apoiar para que se mantenham os postos de trabalho. Vivemos tempos incertos e importa ter a certeza de que o Governo Regional está atento e será sempre intervertido na defesa do tecido empresarial e da manutenção do emprego.

Fotografia: André Carvalho

Já admitiu que não será possível salvaguardar todos os postos de trabalho. E que o mercado faz muita falta. O que podemos esperar?

O nosso grande propósito visa apoiarmos as empresas e os empresários, também em nome individual, no sentido de evitar desemprego. Sabemos que o mais difícil é manter a dinâmica empresarial, pelo que estamos a suportar a ausência de actividade económica para que as empresas continuem e mantenham os postos de trabalho. É por demais evidente que nos falta mercado. É a grande consequência da pandemia. Ninguém dirá o contrário. Também é preciso ser sério e não embarcar em tendência demagógicas, toda a crise tem consequências e a pressão sobre o emprego é muito significativa. O esforço que está a ser feito vai no sentido de minimizar os danos. Tudo faremos para o conseguir. Espero que a evolução da ciência possa trazer tranquilidade às pessoas e que, dessa forma, se recuperem os níveis de confiança que foram destruídos pelo medo que se instalou em todo o lado. Construindo confiança, estaremos a construir soluções e a relançar a economia global.

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